título: colo
data de publicação: 25/12/2025
quadro: luz acesa
hashtag: #colo
personagens: tatiane e dona raquel
TRANSCRIÇÃO
[vinheta] Shhhh… Luz Acesa, história de dar medo. [vinheta]Déia Freitas: Oi, gente… Cheguei. Cheguei para um Luz Acesa de Natal. — Não é um Luz Acesa que dá medo, então pode ouvir aí tranquilamente. — E hoje eu vou contar para vocês a história da Tatiane. Então vamos lá, vamos de história.
[trilha]Tatiane quando ela fez 20 anos, conseguiu aí, junto com a sua mãe — que a gente vai chamar aqui de “Raquel” — juntar um dinheiro para fazer um intercâmbio. Ela queria muito fazer esse intercâmbio na Austrália, Dona Raquel trabalhou demais e conseguiu juntar esse dinheiro, Tatiane também fez alguns bicos e tal, e partiu para a Austrália para passar ali um ano. [efeito sonoro de avião decolando] Tatiane foi para começar esse intercâmbio aí no meio do ano e ficar até o meio do ano seguinte. Tatiane estava muito feliz, Dona Raquel também, elas se conversavam todos os dias e era a primeira vez que Tatiane estava fora do país, ela estava com um pouco de receio, enfim, estava longe da Dona Raquel pela primeira vez… Dona Raquel, mãe solo, criou a Tatiane sozinha, então aquela luta, mas estava dando tudo certo.
O tempo foi passando, julho, agosto, setembro, outubro… Em novembro, a Tatiane começou a sentir a voz da mãe um pouco diferente. Tatiane, filha única, fazendo tudo pela mãe e a mãe tudo por ela… E ela notou que a mãe estava com uma voz um pouco preocupada, mas o que ela pensou? “Bom, a minha mãe está me mandando dinheiro todo mês, então deve ser isso”. Tatiane foi lá e arrumou um bico para ter um dinheirinho ali e liberar a Dona Raquel desse tantinho que ela mandava por mês ali para dar uma força para a Tatiane. A Tatiane e a Dona Raquel tinham um gato e o Binho já estava com 14 para quase 15 anos… Uns meses antes de Tatiane viajar, o Binho morreu… Logo depois, Tatiane embarcou para a Austrália e o que ela pensou? “Minha mãe está muito sozinha, né? Ela tinha ainda o Binho e agora ela não tem ninguém”. A Tatiane começou a incentivar a Dona Raquel a pegar um outro gato, porque enquanto ela não voltava, ela ia ficar lá mais seis meses e tinha até possibilidade de mais um ano… Só que Tatiane já não tinha essa esperança porque seria um tanto de dinheiro que elas não tinham. Então, assim, um ano estava garantido, o segundo ano não.
Então ela já estava crente que com um ano ela voltaria para casa e aí a mãe já estaria com um gatinho novo, enfim, para fazer um pouco de companhia para a Dona Raquel, né? E a Dona Raquel disse ali que não, que não queria outro gato, que nenhum gato substituiria o Binho e elas foram conversando, até que chegamos aí em dezembro, mês do Natal… Do mesmo jeito que Dona Raquel estava se sentindo sozinha, chateada, a Tatiane também foi ficando… Não tanto pela mãe, mas ela estava fazendo um intercâmbio num lugar que era bacana, mas a casa que ela estava hospedada não era legal. Ela tinha ido morar com uma família, ia precisar procurar outra família. — Então, assim, ela estava… Sabe quando você está meio mal, assim? No começo de dezembro, toda noite a Tatiane dormia chorando, assim. Ela não estava bem e a mãe também não estava bem. Tatiana até cogitou voltar, mas era um dinheiro que a mãe tinha juntado muito, um dinheiro muito suado… Então, ela falou: “Não, eu vou terminar esse intercâmbio, vou voltar com o meu inglês melhor, enfim, seguir a vida”.
Quando foi no dia 20 de dezembro, a família onde a Tatiane estava hospedada virou para ela e falou: “Olha, a gente vai viajar, a gente vai passar férias não sei onde e a gente não vai te deixar a chave de casa. A gente não quer você aqui em casa enquanto a gente não estiver”. No dia 20 de dezembro Tatiane teve que sair às pressas da casa dessa família e arrumar um outro lugar para ficar. Ela não queria de jeito nenhum dar ali uma preocupação para a Dona Raquel, ela estava fazendo um bico e ela conseguiu uma vaga no sofá da casa de uma das amigas de onde ela estava trabalhando. Era provisório também, a moça ia viajar, tinha mais gente morando na casa, mas ela podia ficar ali no sofá pelo menos até ali metade de janeiro… Mas ela tinha que correr já atrás de outra casa. — Eu admiro muito as pessoas que moram fora do país e que passam esse tipo de perrengue e continuam e perseveram, porque, eu, na primeira dificuldade já estaria voltando para o Brasil. Eu sou muito fraca para isso. —
Tatiane resistiu: “Bom, eu tenho um sofá para dormir e vou procurando um outro lugar para ficar”. No dia 23 de dezembro, a Tatiane ficou sabendo que ela ia ficar sozinha na casa, que todo mundo ia viajar, ia voltar ali por janeiro, enfim, mas que ela ia ficar sozinha. E aí bateu a bad: “Putz, eu não tenho amigos aqui, o pessoal que eu conheço, enfim, vai estar todo mundo viajando e eu vou passar o Natal aqui sozinha, longe da minha mãe, num país que eu não conheço ninguém”. Naquela semana, que antecedeu o Natal, a Tatiane trabalhou bastante, pegou bastante bico para fazer, porque era uma época que a galera começava a viajar, então tinha bastante trabalho temporário. —Então, ela falou muito pouco com a Dona Raquel e elas combinaram de conversar, mesmo com a questão do fuso horário, de dia 24 para 25, na noite de Natal, passar essa virada de Natal junto, mesmo que na Austrália fosse outro horário, né? O importante pra Tatiane era passar essa virada de Natal com a mãe ali no Brasil, né?
No dia 24 cedo, Dona Raquel falou ali pra filha que ela ia passar o Natal com os parentes… Tatiane ficou mais tranquila, apesar dela passar, né? Ia passar sozinha, ela ficou mais tranquila de saber que a mãe não ia estar sozinha na noite de Natal. Por questões de fuso e tudo, naquele dia 24, a Tatiane não tinha marcado nenhum trabalho temporário, ela ia ficar ali naquela casa que ela estava dormindo no sofá, até para conversar com a mãe… Mas agora a mãe ia passar o Natal num outro lugar e estava tudo certo. O que ela pensou? “Eu vou dar uma limpada na casa em agradecimento aqui ao pessoal que me abrigou, enfim, não estão me cobrando nada, vou deixar a casa limpinha para quando eles voltarem, está tudo em ordem e tal, e vou fazer alguma comida na vibe mais Brasil, para eu lembrar do meu país, enfim”. Começou ali a limpar, só que deu um sono, mas um sono na Tatiane e ela dormiu no sofá… Tatiane tinha uma mania de ficar deitada… Sempre que ela chegava da escola, Dona Raquel sentava ali no sofá e Tatiane deitava a cabeça no colo da mãe, ficava ali conversando e o Binho, que era o gatinho, vinha e deitava na frente da Tatiane, encostado na barriga da Tatiane e elas ficavam ali horas conversando e o Binho ali deitado ronronando…
E aquilo era uma lembrança muito boa para a Tatiane e ela dormiu e ela sonhou com aquilo, sonhou que ela estava deitada no colo da Dona Raquel, que o Binho estava deitado ali na barriga dela e ela começava a conversar com a mãe sobre a Austrália, contar como estava sendo e falar também da data que ela ia embora… E Tatiane disse que no sonho, a Dona Raquel falava para ela que ela ia ter o dinheiro para ficar mais um ano e que ela gostaria realmente que a Tatiana ficasse, fizesse os dois anos de intercâmbio e tal, seguisse lá na Austrália fazendo as coisinhas dela. E a Tatiana reclamava um pouco: “Ah, mas eu estou com saudade, eu vou aí te ver…”, e aí a Dona Raquel falava: “Sim, você vem me ver, mas depois você volta. Você vem, fica um dia, dois dias aqui e volta” e Tatiane falava: “Mas é um absurdo, é muito longe a Austrália. Se eu for, eu vou ficar um mês, agora de férias e nã nã nã” e elas foram ali conversando e a Tatiane falou que era muito, mas assim, muito… Ela sentia muito a presença da mãe e aquele colo quente, aquele abraço da mãe e ela acordou revigorada…
Falou: “Bom, agora eu vou limpar aqui a casa”, já tinha sido Natal no Brasil: “Daqui a pouco eu ligo para minha mãe, ela deve estar agora no meio da ceia, enfim, só para falar um pouquinho com ela” e começou a fazer ali as coisinhas… Passada uma meia hora que a Tatiane estava arrumando as coisas ali na casa, o telefone dela tocou… E ela olhou, era uma tia dela que ela não conversava faz tempo, falava: “Poxa, minha mãe está com a tia, né? Vou terminar aqui e já retorno a ligação”. Terminou de passar o aspirador e, quando ela viu, tinha umas quatro ou cinco ligações dessa tia. — Que a gente pode chamar aqui de “Fátima”. — Tatiana ligou de volta para a tia Fátima e tia Fátima estava aos prantos… Naquelas horas que Tatiane dormiu, Dona Raquel que já estava internada desde o dia anterior e tinha mentido para a filha que ia passar o Natal com a família, ela tinha falecido… Tia Fátima estava ligando para avisar a Tatiane que Raquel tinha descoberto um câncer lá para agosto e já estava no estágio 4, não tinha o que fazer, era tratamento paliativo apenas… E ela foi organizando as coisas para a partida dela… — [voz embargada] Eu peço desculpas, que eu passei por isso já, é uma história que me afeta, mas eu não queria deixar de trazer essa história de Natal para vocês. —
Dona Raquel já tinha ajeitado as coisas no trabalho, tinha pelo trabalho dela um bom seguro de vida, ela já tinha visto, a documentação estava tudo certo… Ela mesma escolheu o próprio caixão, as coisas do seu enterro e ela pediu que a Fátima, que era irmã dela, só contasse para Tatiana depois que tivesse acontecido. Dona Raquel tinha feito também um acordo na empresa para poder pegar um dinheiro, antecipar um dinheiro, mesmo porque quando você tem câncer, você consegue, por exemplo, adiantar o seu Fundo de Garantia… Porque ela sabia que uma passagem de última hora ia ser caro e ela queria que a Tatiana viesse para o enterro dela. Tudo foi providenciado, a Tatiane estava sozinha, ela não sabe nem como ela fez as coisas, assim… Foi com a ajuda dos parentes do Brasil que compraram a passagem, mas ela não lembra nem como ela chegou no aeroporto. — E eu sei exatamente o que ela estava sentindo, assim… —
Ela voltou e ela tem certeza que aquele colo que ela teve da mãe enquanto ela dormia, porque ela falou: “Andréia, foi um sono sem explicação, num momento nada a ver, assim, pra eu ter sono… Eu jamais dormiria, assim, no meio do dia, sabe? E o Binho tava junto…”, então, quer dizer, a mãe faleceu e o Binho tava junto com ela. De alguma forma, tava ali também. Quando ela chegou pra sepultar a mãe, né? Pra, enfim, fazer tudo, a Dona Raquel tinha deixado pra ela tudo escrito… As cartas, documentos, sabe? Ela organizou inteira a sua própria morte. — E a Tatiana me disse que ela lembra que não foi sonho, ela acha depois que ela soube da morte da mãe que não era um sonho, que a mãe realmente esteve ali com ela, né? Que a mãe se despediu, abraçou ela muito forte, falou: “Eu te amo, minha filha”, de um jeito assim que parecia realmente uma despedida, né? E aí ela percebeu que era, que de alguma forma ela sabia que a Dona Raquel não ia voltar, não ia aparecer mais pra ela, né? E que ela tava ali com o Binho, enfim, com o gatinho que foi da família durante tantos anos. —
Elas moravam de aluguel e até isso Dona Raquel organizou, então deixou tudo certo para devolver a casa em janeiro, já tinha organizado as coisas ali da Tatiane. E a Tatiane me disse que essa organização que ela fez foi muito útil, foi muito bom, mas ao mesmo tempo, ela queria ter sabido que a mãe estava doente e ela ia voltar. Ela falou: “Andréia, eu ia largar tudo, ia voltar e ficar com a minha mãe”, e aí ela ia perder o intercâmbio, né? E a Dona Raquel optou por não contar para ela. Tatiane voltou, fez mais um ano de intercâmbio, conheceu um rapaz muito bacana, que a gente pode chamar aqui de “Josh”, casou aí com o Josh e, quando ela engravidou, ela sonhou de novo com a mãe… E mais uma vez, a mãe colocou a cabeça dela no colo ali, elas conversaram e a mãe disse que ela estava grávida… Dona Raquel falou: “É, você vai ter um australianinho”, brincou e tal, ela ali no colo… Dessa vez o Binho não estava junto, veio só a Dona Raquel e ela acordou, assim, deu risada, comentou com o marido e depois ela começou a passar mal, teve muito enjoo e descobriu que realmente ela estava grávida.
E agora todos os eventos importantes na vida de Tatiane ela espera que a mãe volte, mas até agora não teve um terceiro colo, né? E essa é a história de Natal da Tatiane, onde na noite de Natal, na virada, foi exatamente, a mãe dela morreu dia 24 de dezembro, às 23h46. E, nessa virada, ela veio se despedir da Tatiane e deu o colo ali pra filha. E meio que avisou, né? As coisas que iam acontecer, meio que deu uma preparada nela, mas ela não entendeu. O que vocês acham?
[trilha]Assinante 1: Oi, nãoinviabilizers, aqui é a Mariana, eu sou de Niterói, Rio de Janeiro. E que história, hein? Essa mãe foi firme, né? Ela sabia que a filha não podia perder o intercâmbio pelo qual as duas batalharam tanto. E eu fico pensando que se alguém acha que essa atitude da mãe foi egoísta, egoísta pra mim são as mães narcisistas por aí afora que batem o mindinho na quina da mesa e pronto, é o fim do mundo… E ai dos filhos se não vierem correndo pra socorrer. Essa mãe da história colocou o futuro da filha Tatiane acima dela e acima de qualquer coisa. E, além do mais, o paciente terminal tem todo o direito do mundo de escolher como quer partir. Nesse sentido, a pessoa tem sim que pensar nela, no que prefere, em como se sente melhor, etc. É isso. Um beijo.
Assinante 2: Oie, meu nome é Paola, sou de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Que história difícil… Eu não consigo nem imaginar o sofrimento dessa mãe que tomou essa decisão, de colocar o futuro da filha dela em primeiro lugar, de enfrentar essa doença devastadora que é o câncer sem ter a pessoa que ela mais ama perto dela, pra ter uma ajuda nessa passagem, né? E Também pra Tatiane, que não teve a oportunidade de fazer a mãe dela sorrir pela última vez, de ter a certeza que deu todo o amor que a mãe precisava naquele momento, sabe? Bom, ainda bem que a mãe dela passou pra se despedir e pra dar esse último abraço, esse conforto pra filha. Fica bem, Tatiane.
[trilha]Déia Freitas: Um beijo — dessa vez não vou dizer “Deus me livre” [risos] — e eu volto em breve.
[vinheta] Quer sua história contada aqui? Escreva para naoinviabilize@gmail.com. Luz Acesa é um quadro do canal Não Inviabilize. [vinheta]