título: bolinha
data de publicação: 12/02/2026
quadro: luz acesa
hashtag: #bolinha
personagens: dona aurora, joão, joãozinho, dona diva e dona luzia
TRANSCRIÇÃO
[vinheta] Shhhh… Luz Acesa, história de dar medo. [vinheta]Déia Freitas: Oi, gente… Cheguei. Cheguei para um Luz Acesa. E hoje vou contar para vocês a história da Dona Aurora. Então vamos lá, vamos de história.
[trilha]Dona Aurora se casou com 17 anos, e com seus 19 já, ela teve um menininho que a gente vai chamar aqui de “Joãozinho”. Joãozinho era uma graça de garoto, como pai — que a gente vai chamar aqui de “João” — era muito doce, assim… A Aurora tinha uma vida excelente com o João marido e o Joãozinho filho. E quando o Joãozinho estava com quatro anos, o João teve provavelmente um infarto, porque na época morreu em casa, morreu dormindo, e faleceu… João tinha deixado a casa para ela, ela não trabalhava, mas João tinha deixado um pouco de dinheiro e ela já estava se planejando para fazer bolos e pães para vender, para sustentar o Joãozinho, né? E era um pouco mais fácil, porque ela já tinha uma casa própria. Então, enfim, né?
Esse luto durou um ano, Joãozinho já de cinco para seis anos e Aurora falou: “Bom, agora é viver, né? Já passei esse baque, agora é criar o meu filho, vender bolo, vender pão e é isso”. Um pouco antes do Joãozinho completar sete anos, uma noite, Aurora sonhou com seu marido João. E nesse sonho o João estava vendo a Aurora fazer os bolos e fazer os pães e aí ele falou: “Ô, mulher, que saudade que eu tô de você, você tá aí fazendo pão, fazendo bolo, é isso que você tem que fazer mesmo… Amanhã você faz oito pães e oito bolos para vender, que você vai vender tudo amanhã. E depois de amanhã eu volto aqui, porque tem uma coisa que está com você que eu preciso levar”.
A Aurora acordou, trabalhou o dia inteiro, fez os oito pães, os oito bolos e falou ali, né? Na vila dela e tal, oito horas da noite ela tinha vendido tudo e ela pegou esse dinheirinho e guardou. Falou: “Bom, vou guardar, né? Meu Deus, será que agora o João? Vai aparecer pra mim toda noite?”, foi dormir e sonhou com o João de novo… Só que nesse sonho, ela estava sentada na cozinha, ele dava um beijo no rosto ali da Aurora, passava para o quarto, que era um quarto só na casa, né? Pegava o Joãozinho e levava embora… João pegava o Joãozinho pela mão e ia saindo ali pela porta da casa e a Aurora ficava olhando, sentada ali na mesa da cozinha. A Aurora acordou, levantou e foi chamar o Joãozinho. — Joãozinho, filho de Aurora, estava morto… —
Ela não conseguia nem se mexer, nem gritar… Ela foi cambaleando pela porta da frente, atravessou para o quintal da vizinha e caiu na porta da vizinha. — Na época não tinha cerca, não tinha muro, nada, né? — E ela só apontou para a casa dela, a vizinha correu lá, todo mundo correu lá e foi um baque para a Aurora, porque assim, ela tinha acabado de perder o marido e agora estava perdendo o seu Joãozinho. Aquele dinheiro que ela conseguiu com os bolos e com os pães deu certinho para pagar o enterro do Joãozinho. Bom, a “sorte” é que ela tinha uma cunhada, a Diva — sorte dentro dessa circunstância, óbvio — que era muito próxima mesmo da Aurora, era casada com o irmão da Aurora, o Cícero, e Diva tinha quatro filhos, quatro filhos pequenos.
Foi Diva que tomou a frente de tudo junto com o marido Cícero para fazer ali o enterro do Joãozinho. A partir do momento que Joãozinho foi enterrado, a Aurora não se conformava, ela estava revoltada, não acreditava mais em Deus, não acreditava mais em nada e ela começou a pedir para o João, o marido dela, que ele aparecesse de novo para ela e trouxesse junto o Joãozinho. — Porque ela não teve tempo de se despedir do filho, ele deitou e não amanheceu. — A Aurora ficou muito mal, todo dia a Diva ia lá e levava comida para ela, porque ela não estava conseguindo fazer comida, nem fazer os pães, nada… A Aurora ficou assim muito, muito, muito mal. E Joãozinho, ele tinha uma bolinha — uma bola tipo bola de futebol, só que menor, bola de criança — que era vermelha e azul… A Aurora sempre brincava com o filho, então ele gostava de jogar bolinha… Jogava para a mãe, a mãe jogava para ele.
Aurora se arrastava para sair da cama, a Diva que ia lá e ajudava em tudo. Depois de mais ou menos um mês da morte de Joãozinho, Aurora levantou, foi até a mesa da cozinha, sentou… Era o primeiro dia que ela tinha vontade de fazer um café ali, tomar um café, quando lá do quarto, ela viu a bolinha vindo… — Sozinha. — A Aurora botou a mão no peito assim e falou: “meu Deus, o Joãozinho” e correu no quarto, só que no quarto não tinha ninguém, não tinha nada. E a bolinha tinha passado por ela, ela estava lá no quarto… E aí a bolinha voltou. Assim que a Aurora viu isso, ela tacou a bolinha de volta e a bolinha voltou de novo para ela. Joãozinho tinha voltado? A partir daquele dia, tudo melhorou na vida da Aurora. Ela foi até a casa da Diva, Diva tomou um susto, porque a Aurora mal saía da cama, Diva falou: “meu Deus, que bom que você está bem, não sei o quer lá” e conversaram, ela falou: “não, vou voltar a fazer pão, vou voltar a fazer bolo” e, a partir daquele dia, a vida da Aurora voltou a melhorar, porque Joãozinho estava de volta. — Em espírito, mas ele estava de volta brincando de bolinha com a mãe todos os dias. —
E a Aurora fez pães, a Aurora fez bolos, a Aurora voltou a andar pelo bairro, a ir nos lugares para entregar os pães, os bolos, enfim, a vida estava indo. Tanto que a Aurora, agora morando sozinha E tendo só que se sustentar, o pouquinho de dinheiro que sobrava, ela dava na mão da Diva, porque a diva com quatro filhos ali pra para manter… Até que um dia Diva chegou, era um domingo, a Aurora estava tinha brincado de bolinha com o Joãozinho, né? E foi abrir a porta para a Diva. Diva estava com o Cícero, o Cícero estava conversando com o vizinho um pouco mais longe… — Não tinha nem calçada, gente, a rua era toda de terra, mas tipo na frente da casa ali, né? — E a Diva foi entrando… E Diva falou: “Aurora, tudo bem?” e abraçou e beijou Aurora, olhou ali, entrou na casa e falou: “Pera um pouco, Aurora, que eu já volto”, Diva saiu da casa, chegou no Cícero e falou: “Cícero, corre agora na casa da Dona Luzia e traz ela aqui”, “mas por quê? O que aconteceu? A Aurora tá doente? Precisa de alguma coisa? O que aconteceu?”, “Vai lá, faz o que eu tô falando” — Dona Luzia quem é? A benzedeira do bairro. —
Tava o vizinho junto, aí ela falou: “Vai junto com ele, traz a Dona Luzia que ela tem que vir agora”. E o Cícero correu lá sem saber muito o que estava acontecendo, Diva não entrou de volta na casa e a Aurora… — Isso a Aurora ficou sabendo depois, porque a Aurora estava lá dentro, ajeitando as coisas do almoço, né? Que Cícero tinha ido almoçar lá com Diva e daqui a pouco as crianças iam chegar, que estavam com o mais velho, estavam brincando na rua, enfim, um bairro sossegado ali. — Dona Luzia veio, largou o almoço, largou tudo… Diva só olhou para ela e falou: “Dona Luzia, entra” e Diva ficou lá fora: “Cícero, vai caçar as crianças e volta para casa”, “Mulher, você não vai me falar o que está acontecendo?”, “Agora não, depois a gente fala, volta para casa. Faz alguma coisa lá, dá um pão para elas, volta para casa. A gente não vai almoçar aqui”.
Conforme Dona Luzia entrou, a Aurora, que não estava sabendo de nada, falou: “Dona Luzia, que bom que a senhora veio, tem comida para mais gente, pode ficar para o almoço”, Dona Luzia olhou lá naquele corredor e falou: “Aurora, vamos lá fora com a Diva? Preciso falar com você” e a Aurora falou: “Ah, tá bom”, tirou ali o avental e saiu… Conforme ela saiu, a Diva pegou no braço da Aurora e falou: “Olha, você não pode voltar para essa casa”, e a Aurora assustou e falou: “Mas por que eu não posso voltar a essa casa?”, “você sabe o que tem aí?”, e aí que a Aurora lembrou que ela não tinha contado para ninguém do Joãozinho, ela falou: “Sim, é o Joãozinho, ele brinca comigo todos os dias”. E Diva olhou pra Aurora e falou: “Não é o Joãozinho”, “é o Joãozinho, ele brinca de bola comigo, eu coloco ele na cama toda noite, é o Joãozinho” e Diva falou firme: “Não é o Joãozinho”.
E o que tinha dentro da casa da Aurora? Quando a dona Luzia entrou, ele estava no corredor, mas quando a Diva entrou, ele estava no canto da sala, sentado… Era um uma criatura preta, enorme, parecia um bicho mesmo… De olho bem vermelho. Parecia um bicho, mas era uma sombra… Até aquele ponto, Diva tinha visto uma ou outra coisa, assim, ela não era médium, médium, mas ela já tinha visto uma coisinha ou outra e ela falou assim para a Aurora: “Não tinha chifre, mas eu sabia que aquilo ali era um demônio. Assim que eu bati o olho, ele me viu e a cara que ele fez para mim, foi uma cara de satisfação”. Assim que ela entrou, ela viu no canto, ele estava agachado com as duas mãos no chão e, na frente dele, a bolinha. E era um demônio…
Dona Luzia foi para casa, voltou com mais três mulheres e elas demoraram 17 dias dentro da casa da Aurora pra tirar aquela criatura. — Uma das mulheres quase morreu de tão fraca, enfim, era um demônio, gente… A Aurora estava brincando de bolinha com um demônio. Tá bom pra vocês? — E a Diva falou: “Ele era uma sombra, ele era preto, enorme, enorme… Ele estava no canto da parede, ele ia até o teto, assim, enorme. Agachado brincando de bolinha”. E depois de 17 dias, Dona Luzia conseguiu tirar com as outras benzedeiras esse demônio lá da casa, ela fez mais umas coisas ali e, durante 21 dias, a Aurora não voltou para casa, ficou na casa da Diva. Quando passou esses 21 dias, a Aurora voltou para casa e ela não estava com medo, porque assim, ela não tinha visto nada, né? E a bolinha Dona Luzia tinha levado, mas tinha as coisas do filho lá e ela sentiu no coração que era hora de doar aquelas coisas, né? — Mas ela não queria doar para os sobrinhos, por exemplo, para não ficar vendo as coisinhas do Joãozinho. —
Então foi, doou para os meninos do bairro ali e tal, doou as coisas do Joãozinho. E quando o João morreu, ele estava fazendo um quarto maior, que seria o quarto que eles iam dormir e aquele quarto, que era menor, ia ficar para o Joãozinho… — E ele morreu antes de terminar esse anexo, que ia juntar ali na casa. Ele só ia fazer a porta depois que tivesse terminado o cômodo. — Quando a Aurora voltou para casa, o João apareceu no sonho para ela e no sonho, ele pedia para avisar o Cícero, que era irmão da Aurora, para terminar o cômodo. Ele falava: “Fala para o Cícero que esse mês ainda ele tem que terminar o cômodo” e a Aurora não sabia, mas ela sabia que ali era o João mesmo, e aí ela foi e falou: “Cícero, eu sonhei com o João e ele falou para você terminar aquele cômodo”. E aí o Cícero ainda falou: “Mas Aurora, você mora sozinha, você não precisa de mais um quarto ali, né?”, e aí ela fez que fez, o Cicero foi lá, juntou os homens lá do bairro e levantaram o cômodo, quebraram a parede para fazer a porta lá…
Só que a Aurora não queria sair do quarto que ela estava, porque era o quarto que tinha a cama dela de casal e a cama do Joãozinho, ela falou: “Ah, eu vou ficar nesse quarto, deixa esse quarto maior aí, que eu não sei para que que é, porque o João queria esse quarto”. Sete meses depois do sonho que ela teve com o João, o Cícero faleceu… A casa que a Diva morava, era alugada — ela ia ficar sem ter para onde ir com os filhos — e a Diva se mudou para aquele quarto maior com os filhos e passou a morar junto com a Aurora. Diva e Aurora passaram ali a criar as crianças, as duas juntas ali naquela casa. Passados seis anos que Diva se mudou ali para a casa da Aurora, Diva também faleceu… E a Aurora foi quem criou aí os filhos da Diva. — Ela nunca mais quis ter filho, nunca mais quis se casar… Ela disse que ela agora já está com 78 anos, que o dia que chegar a hora dela, ela vai encontrar com o João e com o Joãozinho. —
E Dona Aurora acredita muito em visitas em sonho, ela falou que o João já veio, depois de muitos anos, o Joãozinho veio, Diva também já veio… Então, assim, ela acredita muito nessas visitas que ela recebe em sonhos que são os parentes falecidos aí de Dona Aurora. E ela diz que antes de falecer, esses anos todos que a Diva ficou aí, que elas moraram juntas, a Diva sempre contava a história desse demônio… A visão dele no canto, agachado, com as mãos no chão, enorme, olhando pra ela assim com uma cara meio que um riso maligno, assim… E quando provavelmente a Aurora jogava a bolinha, ele jogava a bolinha de volta… E aí a Aurora me falou uma coisa que era assim: “Andréia, eu tava meio xarope mesmo, né? Porque, enfim, eu perdi meu filho e eu lembro que quando eu colocava ele na cama, porque ela chamava, a bolinha ia, entrava no quarto, que ele deitava na caminha do João ali, era enorme, era pesado o que deitava ali. E eu achava que era enorme e pesado porque o Joãozinho tinha virado um anjo”. — Olha, até arrepio, gente… —
“Por isso que eu achava que era muito pesado”, ela via a cama baixar, o colchão… Ela falou: “Era muito grande e muito pesado, eu achei que o Joãozinho tinha virado um anjo e eu sempre aprendi na igreja que os anjos eram enormes, então eu achei que ele era grande e pesado daquele jeito porque era um anjo” e, no final, ela estava brincando de bolinha com o demônio. E aí eu perguntei para a Dona Aurora: “mas o que será que esse demônio queria com ela?”, e aí ela me falou que assim que o Joãozinho morreu, ela praguejou muito, ela chamou mesmo, falou: “Olha, eu prefiro ir para o inferno. do que acreditar nesse Deus que me tirou tudo”, enfim… Ela praguejou muito e ela chamou muito, falou muito que talvez devesse confiar no demônio e não em Deus, enfim… Toda noite ela falava, ela praguejava muito e ela acha que foi isso.
E que quando ela ficou bem, quando esse demônio começou a brincar com ela, ela sentia que ela estava bem, estava fazendo pão, estava vendendo as coisas, mas que a vida dela ia tomar um rumo que ela não sabia… Ela estava meio largada. A Dona Aurora falou para mim: “Andréia, não sei explicar bem, mas eu não sei, sei lá, se ele ia me mandar matar alguém ou se eu ia virar uma prostituta, não sei, eu sei que eu senti uma coisa assim que a minha vida… Eu não tomava conta mais da minha vida, mas eu estava feliz porque meu filho estava ali”. E, no final, segundo aí a história de Dona Aurora era um demônio que Diva viu e Dona Luzia também viu. O que vocês acham?
[trilha]Assinante 1: Oi, nãoinviabilizers, aqui é a Ingrid de Recife. Gente, no espiritismo se acredita que os sonhos são como se fosse uma porta de comunicação entre quem está no plano físico e quem está no espiritual, então que bom que as pessoas que partiram e que foram para o plano espiritual conseguiram, através desse meio de comunicação, proteger quem ainda estava por aqui, né? Que pena que aconteceram essas fatalidades de parentes partirem, mas que aconchegante saber que parte da família ainda estava olhando, protegendo e guiando quem ainda estava por aqui, né? Que história sensacional. Agora, sobre esse demônio: Deus me livre… Arrepia até o espinhaço.
Assinante 2: Oi, nãoinviabilizers, tudo bom? Aqui é a Jaque de São Paulo. Vamos combinar uma coisa? Se a pessoa partiu, se a pessoa desencarnou, não vamos ficar chamando? Porque, provavelmente, essa pessoa não vai voltar e quando a gente chamar, vai vir outra coisa muito ruim, um estranho no lugar, como foi aí o caso desse demônio da história Bolinha. Outra coisa: cara, o João trabalhou, hein? Mesmo depois de ter desencarnado, lá no outro plano, ele tava voltando aqui pra ajudar a Aurora, né? Pra passar aí os recados e não deixar ela desamparada. Muito legal esse anjo da guarda aí, que foi na vida dela na Terra e depois continuou cuidando dela. É isso, um beijo.
Déia Freitas: É isso, gente, comentem lá, no nosso grupo do Telegram, sejam gentis aí com Dona Aurora. — Deus me livre. — Um beijo e eu volto em breve.
[vinheta] Quer sua história contada aqui? Escreva para naoinviabilize@gmail.com. Luz Acesa é um quadro do canal Não Inviabilize. [vinheta]
