título: entressafra
data de publicação: 05/03/2026
quadro: luz acesa
hashtag: #entressafra
personagens: marilda

TRANSCRIÇÃO

[vinheta] Shhhh… Luz Acesa, história de dar medo. [vinheta]

Déia Freitas: Oi, gente… Cheguei. Cheguei para um Luz Acesa. E hoje eu vou contar para vocês a história da Marilda. Então vamos lá, vamos de história. 

[trilha]

Marilda morava numa cidade muito pequena e se mudou para uma cidade maior em busca de um emprego. Nessa cidade maior, tinha ali uma empresa de produtos derivados da cana e, nessa indústria, tinha alojamentos… Eram quartos pequenos, a cada dois quartos tinha um banheiro e uma mini cozinha. — Como se fossem kitnets, mas os dois quartos separados e junto ali a cozinha, né? E do lado o banheiro. — E não tinha como escolher, né? A empresa te colocava num daqueles quartos ali do alojamento e você tinha que compartilhar isso com uma outra pessoa. — Tinha um alojamento feminino, alojamento masculino, então no caso da Marilda, ela ia ali dividir com uma outra moça. —  Ela era bem jovem e ela começou a dividir a micro casinha dela com uma mulher que já estava ali há alguns anos… Marilda, bem jovem, ia começar o trabalho na roça e essa mulher já era meio chefe ali, de uma ou duas roças. 

Acontece que essa mulher era muito antipática, ela fazia de tudo para atazanar a vida da Marilda naquela casa. Então, tinha dia que ela proibia a Marilda de usar a pequena cozinha… Se ela estava lá, a Marilda não podia usar o banheiro se ela quisesse usar primeiro, enfim, a mulher era um demônio. Elas trabalhavam no sábado de manhã, sábado à tarde, domingo, você não tinha muito o que fazer, né? Você saía, ia passear com algumas colegas ali também daquelas roças e tal, mas às vezes você ficava em casa e esta mulher não saía do quarto… Ela ficava no quarto dela, só saía na cozinha, voltava, ela não interagia com a Marilda. E tinha uma época na roça entressafras… Eles tinham um período de mais ou menos uns 15 dias onde você não trabalhava. E o seu patrão — explorador, dono da indústria — não te pagava um salário, só te dava esses 15 dias o alimento ali, né? Você não ganhava dinheiro porque você não trabalhava e ele só dava o que você comia. E sempre que acontecia esses 15 dias, umas duas vezes no ano, aí que essa mulher mal saía mesmo do quarto dela, só para ali para fazer a comida dela, comer e voltar. E às vezes nem isso, comia um pão, alguma coisa e voltava para o quarto e sempre de cara feia, amarrada. 

Marilda, como era muito nova, ela tinha tendência a obedecer essa mulher, então se a mulher falava que não era para ela usar o banheiro que a mulher ia usar, ela não usava… Se a mulher estava na cozinha, ela voltava para o quarto dela ali… Os ambientes eram muito pequenos mesmo ali. — Então, era difícil você ficar com alguém do lado que não quer conviver com você de jeito nenhum, né? — E como era um lugar que tinha muito mosquito e era calor, cada quartinho tinha uma janela e você botava uma tela na janela para evitar de entrar tanto mosquito e mantinha a janela aberta… E essa mulher, ela sempre deixava a janela do quarto dela fechada. O tempo foi passando, Marilda tinha um medo mesmo dessa mulher e muito respeito, porque sabia que ela era a chefe ali, ela não queria perder o emprego dela na roça, era um emprego muito difícil, você ficava no sol e tal, mas era o emprego que tinha. Chegou a entressafra… — E não é que era férias que você podia pegar esses 15 dias e ir para qualquer lugar, não, você estava meio que, entre aspas, trabalhando, mesmo sem trabalhar, mas você não recebia, você só recebia comida. Então, você tinha que ficar por ali, às vezes aparecia uma outra coisa, um caminhão para descarregar, alguma coisa, ia todo mundo lá fazer. Então, não é que você estava livre para fazer o que você quisesse, mas você ficava por ali à disposição caso surgisse alguma coisa para você fazer.  —

Geralmente, a Marilda disse que quando surgia alguma coisa, eram os homens que iam, então as mulheres ficavam meio só por ali mesmo. E nessa entressafra aconteceu uma coisa… A mulher que dividia ali aquela micro casinha com a Marilda, começou a entrar e sair muito daquele quarto. Ela ia até a cozinha, ela voltava, ela ia até o banheiro, ela entrava no quarto, ela saía… E ela não fazia nada para comer, ela entrava no banheiro, não fazia nada no banheiro… Era muito estranho. Com o passar dos dias, o aspecto dela foi ficando estranho, ela parecia mais abatida, mais velha… A Marilda, muito jovem, falou: “não vou falar nada, porque ela não gosta nem de conversar comigo”. A Marilda, que ficava com a porta do quarto dela aberta e com a janela aberta, com o mosquiteiro, via essa mulher entrar e sair e a Marilda falou para mim: “Andréia, um detalhe, a porta abria e fechava, eu escutava a porta bater, abrir e fechar, eu via ela passar no corredor, ela ia até a cozinha, mexia em alguma coisa, mas não fazia nada para comer e entrava no banheiro, eu escutava”… — Porque assim, não tinha a porta da cozinha, né? Você saía ali do no corredor, um quarto do lado do outro, na frente do quarto da Marilda, a cozinha, não tinha porta, e na frente do quarto desta mulher, o banheiro que tinha a porta. Então, ela escutava tanto a porta da mulher quanto a porta do banheiro abrir e fechar…

Um período de uma semana, a mulher entrava e saía, ela andava muito pela casa. E não só de dia, de noite também. E como estava em entressafra e não tinha muito o que fazer, a Marilda ficava ali no quarto dela. Ela fazia uma espécie de artesanato palha, essas coisas assim… Então, ela ficava ali fazendo o artesanatinho dela e tal, quietinha, para não provocar a mulher, para a mulher não gritar com ela, não ser grossa ou ameaçar, falar que ia falar para o chefe da Marilda mandar ela embora, enfim, essas coisas. No oitavo dia da entressafra, a Marilda começou a sentir um cheiro muito ruim… E ela chamou algumas amigas, algumas colegas de trabalho ali para entrar no quarto dela e ver se sentiam esse cheiro e todo mundo também sentiu.  De manhã, antes dela começar a sentir realmente esse cheiro, ela viu a colega dela de quarto entrando e saindo no banheiro, falou: “Bom, será que ela fez alguma coisa?” e foi, quietinha, lá olhar, mas não tinha nada no banheiro diferente, mas o cheiro ali, perto do banheiro, estava mais forte. = Bom, ela chamou as amigas, todo mundo sentiu esse cheiro e aí elas falaram: “Vamos bater no quarto da Fulana e perguntar”, sempre tem uma mais cara de pau, né? —

E aí foi lá e bateu na porta do quarto e ninguém abriu… Uma comentou com a outra:  “Ih, ela deve estar atacada, né? Não abriu” e a outra falou: “Vou bater mais forte”, foi lá e deu uns murros na porta e a porta lentamente foi se abrindo… E aí o cheiro veio lá de dentro. A colega de trabalho e chefe de uns setores lá, estava morta… Em cima da cama, em decomposição, assim, mas muito assim… E aí precisaram chamar a polícia, enfim, demorou… — Era uma cidade maior, mas ainda uma cidade não tão grande, aí veio o carro de cadáver, enfim… — E foi—se apurado ali depois que esta mulher estava morta há pelo menos uma semana… Mas Marilda tinha visto ela todos os dias, inclusive naquela manhã. Marilda ficou em choque, falou: “Não é possível, eu vi a Fulana todo dia, todo dia, ela entrava e saía, entrava e saía muitas vezes, a noite inteira, o dia inteiro, eu vi”. E aí uns acreditavam, outros não acreditavam, né? Ela foi lá para o pro IML da cidade, avisaram a família, enfim… Poucas pessoas foram no enterro dessa mulher, porque ela era realmente uma mulher muito ruim.

Conforme essa mulher morreu, os líquidos ali, corporais e tal, impregnaram a madeira no chão… Quem chegava preferia dividir quarto com outra pessoa quando ficava sabendo a história do que ficar ali. Então, Marilda ficou naquela casinha um tempo sozinha. Até que um dia, mais ou menos um mês, Marilda estava dormindo e ela escutou a porta do quarto abrir… “É impossível que essa hora da noite tenha chegado alguém para ocupar esse quarto”, ela ficou quietinha e ela escutou os passos de quem saía daquele quarto e foi até a cozinha, os barulhos que a mulher fazia mexendo nas coisas da cozinha. E depois a porta do banheiro rangendo e a mulher entrando no banheiro e a porta rangendo de novo, fechando a porta do banheiro. Marilda tremendo muito, entendeu que aquela mulher estava ali ainda, ela ficou com medo, mas ela me falou uma coisa que eu achei muito emblemática, ela falou: “Andréia, eu tinha mais pavor dela quando ela estava viva do que depois que ela morreu”. Por que o que a Marilda entendeu? Que quando ela ia na cozinha, por todos aqueles dias, porque ela era uma mulher muito regrada, ela ia fazer a comida dela, comia, voltava para o quarto, a Marilda entendeu que talvez ela estivesse com fome. 

De madrugada, Marilda levantou, pegou uma comida que ela tinha feito, botou num prato, fez ali um banho—maria — o prato era fundo e tal, fez lá do jeito que ela fazia para esquentar a comida quando já estava pronta, não tinha microondas, nada — e botou na mesa. Voltou e deitou… E ela escutou de novo a porta rangendo e abrindo a porta do quarto… A mulher — a gente deduz que fosse a mulher — indo até a cozinha e ela escutou o barulho. — Ela falou para mim: “Andréia, eu escutei o barulho dela comendo… — Ela botou uma colher no prato, enfiada na comida… — E ela falou: “Aí eu peguei no sono… Quando eu acordei de manhã, que eu fui lá ver, a comida estava igual. Igual, assim, mas a colher estava do lado, não estava enfiada mais no arroz, estava meio caída, assim, mas a comida não estava mexida”. Estranho, né? — E aí a Marilda fez isso mais umas quatro, cinco vezes… — Coragem, né? — 

Ela botava ali um arroz, feijão, uma verdura pra ela um pouco… E jogava fora. Ela falou pra mim: “Andréia, eu jogava fora… Não botava muita comida, mas botava arroz, feijão e uma verdura… A gente também não tinha uma carne, uma coisa pra comer, era carne, arroz e verdura que a gente comia, né?”. Ela fez isso umas noites até que a mulher parou de aparecer… Marilda ainda trabalhou, morou nessa casa sozinha, porque ninguém queria ocupar o quarto dessa mulher… Depois ela conseguiu um outro trabalho e saiu de lá, né? — Porque se você não trabalhava lá, você tinha que sair da casa.— Não sabe mais se alguém ocupou aquela casa ou não, mas depois que ela fez isso da comida, a mulher não apareceu mais. Ela acha que todas aquelas noites que ela viu a mulher que já estava morta saindo, e ela viu a mulher, era porque ela tinha fome, ela estava acostumada com os horários, né? E não conseguia comer, não conseguia, óbvio, fazer nada. Então ela falou: “Andréia, não sei se o prato de comida ela via ali, se ela conseguia fazer alguma coisa, mas o prato não estava nunca mexido… E só dessa primeira vez eu botei a colher dentro do arroz e como depois a colher estava meio jogada do lado, eu deixei a colher do lado”. 

E, assim, nunca a comida sumiu, né? Ela pegava e jogava fora. Ela foi fazendo isso até que um dia ela não escutou mais a mulher andando pela casa, abrindo a porta do quarto e nada. E aí eu falei: “Marilda, mas você não, sei lá, você não queria mudar para outro alojamento, outra micro casinha?”, ela falou: “Andréia, eu ia ter que dividir com outra pessoa um quarto… Um quarto já era minúsculo, com duas pessoas no mesmo quarto… Por causa disso, eu falei: ‘não, vou ficar aqui'”. E aí ela até acostumou, mas nunca ninguém quis ocupar aquele quarto onde essa mulher morreu. Ela não sabe depois, né? Mas enquanto ela estava lá, ninguém ocupou, Marilda ficou sozinha no quarto. Então, eu não sei se foi a comida que fez a mulher ir embora ou a atenção que a Marilda deu para ela, não sei, mas como ela não era uma pessoa muito boa, enfim, não sei… Então, essa é a história que aconteceu aí na juventude, Marilda era novinha, 17 para 18 anos, assim, muito nova. O que vocês acham?

[trilha]

Assinante 1: Olá, nãoinviabilizers, aqui quem fala é Ju, de Saquarema, Rio de Janeiro. Marilda, do céu, mulher… Que coragem você teve… Eu não ficaria um segundo nessa casa. [risos] E olha que eu sou candondoblecista, hein? Vou te falar, você cuidou direitinho dessa senhora que morava com você, porque é assim mesmo que a gente faz na Candomblé, a gente cuida, a gente alimenta as energias, os espíritos que já fizeram passagem, enfim… Parabéns aí por seguir a sua intuição e parabéns pela coragem… Mulher, eu fiquei arrepiada do inicio ao fim ouvindo essa história, falei: “misericórdia, eu teria dividido o quarto com alguém, não é possível… Mas é isso, um abraço”. 

Assinante 2: Oi, pessoal, meu nome é Ingrid e eu falo de BH. E, nossa, o que mais baqueou nessa história foi como a Marilda foi uma pessoa muito corajosa, não só de ter que permanecer ali no mesmo ambiente que um fantasma, mas também por lidar com isso, né? [risos] Colocar comida ali, saber lidar com isso e não surtar… [risos] Mas é aquela coisa, né? Tem certas pessoas que são tão ruins que dá mais medo quando estão vivas do que quando estão mortas, isso é o mais me deixou chocada nesse caso… Que mulher péssima viu, mas tomara que tenha  encontrado a luz. Beijo, gente.

[trilha]

Déia Freitas: Essa é a história da Marilda, comentem lá no nosso grupo do Telegram, sejam gentis aí… — Deus me livre… — Um beijo e eu volto em breve.

[vinheta] Quer sua história contada aqui? Escreva para naoinviabilize@gmail.com. Luz Acesa é um quadro do canal Não Inviabilize. [vinheta]