título: brejo
data de publicação: 02/04/2026
quadro: luz acesa
hashtag: #brejo
personagens: dona neuza

TRANSCRIÇÃO

[vinheta] Shhhh… Luz Acesa, história de dar medo. [vinheta]

Déia Freitas: Oi, gente… Cheguei. Cheguei para um Luz Acesa. E hoje eu vou contar para vocês a história da Neuza. — A Neuza quando era jovem morava em Ribeirão Preto, eu não mudei o lugar, tá? Mantive Ribeirão Preto porque várias pessoas dessa região, na época, viram a mesma coisa. Então, de repente, alguma outra pessoa pode escrever para mim com história parecida. — Então vamos lá, vamos de história. 

[trilha] 

Neuza, quando mocinha, ia muito a bailes… Anos 70, tinha uma prima dela — que a gente pode chamar aqui de “Sueli” —, então ia a Neuza e a Sueli ali para os bailes, dançavam com os moços e voltavam para casa. Nada demais, assim, elas trabalhavam, trabalhavam em tecelagem… Assim, uma vida tranquila de jovem, moçoilas aí dos anos 70. E a Neuza me disse que eles eram bem caipiras, assim, ela falou: “Andréia, eu era muito caipira. [risos] Então, assim, a gente ia pro baile, dançava ali umas modinhas no baile e voltava pra casa. Era isso, assim, caipirada mesmo”. Porque a Neuza falou: “Às vezes a gente fala dos anos 70, né? E já pensam uma coisa mais descolada, mas não, era caipira, caipira, caipira, tipo Chico Bento”. 

Neuza ia sempre nos bailinhos aí com as amigas e tal, até que um dia Sueli não quis ir ao baile, no dia seguinte ela tinha coisa cedo para fazer com a mãe e Neuza foi com outras amigas. E era um baile em Ribeirão Preto um pouco mais afastado de onde elas moravam ali, né? Então elas tinham que andar muito mais pra chegar nesse baile. — Elas andavam a pé assim, terra batida, às vezes você levava o chinelinho na bolsa pra pôr o sapato só lá no lugar do baile. — Foram, o baile era um sábado, começou umas nove e elas tinham que estar em casa até uma hora da manhã. E como elas iam voltar? A pé… — Todas. Elas estavam, sei lá, umas seis, sete moças, a pé. — Tinha uma estradinha ali de terra, todo mundo levava seu chinelinho, na volta calçava o chinelinho e vinha que vinha. Essa estradinha que elas tinham que passar, era escura, não tinha iluminação assim… E o que elas faziam? Sempre uma delas levava uma vela e fósforo para voltar com a vela na mão. — Como se fosse uma procissão… Então, sempre uma levava uma vela. Se eu estou de longe e vejo aquele monte de moça vindo assim, arrastando chinelinho com a vela na mão, já corro, né? Porque tudo escuro… Você só vê uma pessoa com a vela… —

Para iluminar um pouco ali, às vezes apagava no caminho a vela, uma vez elas tentaram levar aquela que tem o vidro em volta, mas aí é muito ruim para carregar, então a vela você botava ali na sua bolsinha, tiracolo, pequena e tranquilo, né? — Você sabe como é vela de procissão? Que tem uma coisinha em volta, onde você segura, tem tipo um aparadorzinho, você segura assim a vela e ela tem um negócio para não pingar a cera na sua mão. Então é isso, vela de procissão… Eu não sei aí se no lugar onde vocês moram tem outro nome, ou se existe isso, aqui em Santo André é vela de procissão. — Neuza voltando do baile com as amigas, elas estavam em uma galerinha e Neuza sempre ficava um pouco para trás. Ela era um pouco mais baixa que as outras, um pouco mais gordinha, então ela falou: “Andréia, meu condicionamento físico não era bom e eu ficava sempre um pouco mais para trás”.

A primeira que está lá na frente com a vela, você vai ficando aqui no escuro, mas você está seguindo, você está acostumada, você não tem medo do escuro ali. E você está acostumada e está ouvindo a voz das suas amigas e você está vendo ali um pouco da iluminação da vela. — Você tem que andar rápido, porque é uma estradinha de terra que você tem que andar bastante. — Ela estava concentrada, olhando meio que para o chão, naquela escuridão, mas como disse Neuza: “O seu olho acostuma” e ela foi andando, andando, olhando ali para o chão, acompanhando as meninas e ela falou: “Andréia, eu tenho certeza que a menina que estava na minha frente estava a um palmo de mim. No máximo, um palmo e meio. Tanto que uma ou duas vezes eu acelerei um pouco o passo e pisei no chinelinho dela e ela reclamou. Então, assim, eu era a última da fila, mas eu estava muito perto”. 

Todas indo, às vezes conversava, às vezes tinha um pedacinho que tinha que subir um pouco mais inclinado e todo mundo ficava quieto para poupar o fôlego ali, mas ela estava junto com as meninas. De repente, Neuza andando, ela começou a reparar que estava escuro igual, mas estava um silêncio agora. Ela não conseguia escutar nem o chinelinho da amiga dela da frente. — Então, assim, foi muito… Não teve uma transição, tipo, está acontecendo uma coisa, mudou para outra coisa, foi muito natural. — Quando Neuza viu que estava muito silêncio, ela levantou a cabeça e, conforme Neuza levantou a cabeça, ela percebeu que ela não estava mais naquela estradinha… — E não tinha como, gente, era barranco de um lado e mato do outro.,, Não tinha como a Neuza estar num lugar como ela estava. —

Ela estava num lugar como se fosse um descampadom com cerca em volta, uma cerca de madeira muito rústica, feita de troncos e tal, não tinha como ela estar naquele lugar. Era o chão de terra igual da estradinha, mas não era mais a estradinha. Neuza levantou a cabeça e parou, porque assim, ela conseguia enxergar para frente uns 50, 70 metros e não tinha ninguém… Ninguém. Você olhava em volta, não tinha ninguém, parecia que ela estava no meio de um sítio assim, no meio de um pasto, mas não era pasto porque não tinha grama, era terra. Neuza se desesperou e começou a correr para frente: “meu Deus, eu perdi as meninas”. E, conforme ela foi correndo, ela passou daquele lugar que tinha as cercas de madeira, o chão de terra e começou a ver algumas pessoas… Ela primeiro viu uma senhora, uma velha, mas muito, muito, muito velha, abaixada, toda de preto… Ela não conseguia ver o rosto dessa senhora. 

Ela chegou perto da senhora para pedir informação: “minha senhora, eu estou perdida, me ajuda”, e a senhora tipo [efeito sonoro de grunhidos] e não falou nada… “Meu Deus, eu ainda estou em um lugar que eu não conheço ninguém” e, conforme ela foi andando, ela percebeu que ela estava em um lugar que as pessoas eram muito velhas, muito enrugadas e ela não conseguia ver os pés das pessoas. As pessoas pareciam que elas não estavam no chão. Eu falei: “Mas elas estavam de calça, de roupa?”, ela falou: “Andréia, era como se fosse um pano, assim. Era muito estranho perecia que aquelas pessoas estavam flutuando muito perto do chão, mas não estavam no chão… O lugar tinha um cheiro de brejo…”, eu não sei como é cheiro de brejo e ela falou: “O cheiro do brejo é uma mistura de lama com quase um cheiro de musgo, de mofo, assim. Tinha cheiro de brejo o lugar”. 

E aquelas pessoas pareciam que estavam ali andando para lá e para cá, mas assim, não fazendo nada, meio que, meio zumbizando assim. E aí ela ficou com medo de pedir informação, passou essa parte onde tinha essa senhora e tinham umas 10 pessoas circulando e continuou andando naquele lugar de terra e voltou para um espaço que não tinha nada… E agora só tinham umas árvores grandes e mortas… Ela falou para mim: “Andréia, Ribeirão Preto não tem esse tipo de  árvore, de coisa”. Quando ela estava andando nessas árvores ela viu uma criatura… Quando a Neuza bateu o olho, ela pensou que era uma aranha muito grande, mas depois ela viu que era um homem que tinha os braços e as pernas muito grandes e ele estava em um daqueles troncos de árvore. Neuza paralisou e este homem ele não estava vendo a Neuza, mas ele estava ali esperando alguma coisa, ou ia pular em alguma coisa. 

E aí a Neuza parou, porque assim, ela estava a uma distância, sei lá, de uns cinco metros desse homem e ela parou, porque ele tinha o braço muito fino e comprido e as pernas muito finas e compridas e ela falou: “Não era uma aranha, mas ele estava com uma roupa preta, estranha”. E aí ela viu que ele pulou, quando ele pulou na outra árvore, ele viu a Neuza, porque ele estava na árvore mais perto da Neuza, ele foi para mais longe e virou… Quando ele virou, Neuza viu que ele tinha um rosto de homem, só a parte branca do olho e, no lugar da bocam um nada… Como se fosse um buraco, sem queixo. — Eu não sei explicar isso. — A Neuza falou assim: “Pensa: ele não tinha nariz, ele tinha só o olho, a parte branca do olho, assim, onde era a boca sem queixo, tinha um buraco, enorme”.

Conforme ela olhou para ele e assustou, ele veio muito rápido para cima da Neuza e a Neuza desmaiou. Quando a Neuza acordou, ela estava de volta naquela estradinha, agora já eram 5, quase 6 horas da manhã e era uma estradinha que era movimentada porque passava muita carroça… A Neuza estava toda arranhada. A família da Neuza, a família das amigas, todo mundo procurando, porque a Neuza sumiu, as meninas seguiram, de repente, alguma ali falou: “cadê a Neuza?”, e aí elas tentaram voltar um pedaço, mas assim, não acharam a Neuza e foram correndo para casa para avisar os pais, os irmãos mais velhos e tal, para o povo sair procurando a Neuza no meio daquele mato. Neuza apareceu na beira da estradinha ali, eles passaram por ali e procuraram a Neuza dez vezes, várias pessoas diferentes e ela estava toda arranhada, sentindo o corpo dolorido… 

Algum vizinho que estava procurando a Neuza passou e achou a Neuza. Levaram a Neuza para casa e ela não sabia explicar, porque ela falou: “Eu não sei como eu fui parar naquele lugar que eu fui, eu não sei o que era aquele lugar e eu não sei como é que eu voltei, porque eu desmaiei quando essa coisa, essa criatura veio para cima de mim” e ela estava toda arranhada. E não era um mato assim que tinha na estradinha, né? Um mato que tinha espinho ou que ela rolou e tinha ribanceira, essas coisas… Não tinha, ela estava em cima, estava na estradinha, no ponto praticamente que ela sumiu. A Neuza acha que ela foi arranhada por essa criatura. — Assim, costas, gente, pescoço, braço, perna, arranhado… Tanto que cogitaram até que podia ser uma onça, mas a onça ia só unhar e não ia comer uma perna, um bracinho, uma coisinha da Neuza? —

E ela ficou por muito tempo com medo porque um dos arranhões nas costas da Neuza demorou muito para sarar, ficou muito infeccionado. E aí fazia o, era uma época que onde a Neuza morava, enfim, né? Gente mais pobre, assim, não tinha acesso a médico e tal e acabaram levando a Neuza numa benzedeira, pra pôr um macerado de erva ali, né? E aí a mulher falou: “Eu vou te dar um preparo para você botar nessa ferida. E, fora isso, você vai fazer umas outras coisas aqui espirituais, porque isso aí que está no seu corpo, esse machucado aí não é daqui”. E aí a Neuza nem lembra mais as coisas que ela teve que fazer, né? Porque tem muito tempo isso, mas ela teve que fazer umas coisas espirituais porque aquele arranhado não fechava porque tinha sido feito por alguma coisa que não era daqui. — Uma criatura, né? —

Além dessa criatura estranha, de braço e perna comprida, o que ficou na cabeça da Neuza, assim, até hoje, é esse cheiro de brejo… Ela falou: “Andréia, é um cheiro muito característico que eu espero nunca mais voltar para aquele lugar, mas se um dia acontecer alguma coisa e eu voltar, é um cheiro que só tem lá, assim”. Nem sei, a gente não sabe que lugar é esse, mas ela falou: “Era um brejo, era uma coisa estranha, mas também não parecia um purgatório, nada disso assim. Era um brejo e tinha essa criatura no brejo e essas pessoas muito, muito velhas, muito envelhecidas”. E a Neuza agora, ela falou: “Andréia, pode ser coisa da minha cabeça, pode ser influência de filme, porque, né? Já sou uma senhora e tal, já assisti, já vi muita coisa nessa vida, mas eu tenho a impressão que aquela criatura, se eu ficasse lá, ela ia me deixar velha, enrugada, igual aquelas pessoas que estavam lá andando zumbi, assim”. Porque ela falou que a criatura veio com a boca aberta, assim, pra cima dela pra, sei lá, sabe assim? Sei lá, sugar energia, pegar a juventude? Não sabemos. O que vocês acham?

[trilha]

Assinante 1: Olá, nãoinviabilizers, meu nome é Daiana, eu falo aqui de São Paulo, em Pirituba. Nossa, essa história me deixou com uma sensação de que eu estava vendo Stranger Things, né? Uma realidade super paralela, mas assim, eu não tenho nenhum relato de alguma experiência dessa.,, Eu tenho algumas histórias que meu avô contava do interior de Minas, mas nada comparado a isso. Eu não sei o que pode ser isso, gente… Não tenho a mínima ideia, sei lá, mas assim, socorro… Deus que me livre passar por um troço desse daí… Eu hein. Deus que me livre. 

Assinante 2: Oi, nãoinviabilizers, Daniele de Londres. Como uma pessoa sem crenças, eu gosto muito do Luz Acesa porque a maioria das histórias, não todas, né? Que são de assombração, premonição, me fazem ficar com aquela pulguinha atrás da orelha… Aquele: “será?”, eu tento racionalizar e muitas vezes ainda fica o mistério, e é isso que eu acho formidável nesse quadro. Mas quando vem a história de Setealém, gente, ela teve ali um piripaque, ela estava exausta, ela não tinha o condicionamento físico, estava com sódio baixo, deu uma baixa de açúcar, tropeçou, pode ter batido a cabeça, se desorientou, pode ter se arrastado… Ela pode ter sido realmente atacada por alguém, né? Uma pessoa que fica rondando por ali, ou às vezes atacada por um bicho, enfim, ou alguém arrastou ela de volta, mas parece que uma explicação sobrenatural sempre é mais fácil de aceitar, né? Então, hoje pra mim é não. 

[trilha]

Déia Freitas: Comentem lá no nosso grupo do Telegram. Sejam gentis com a Neuza. — Deus me livre. — Um beijo e eu volto em breve. 

[vinheta] Quer sua história contada aqui? Escreva para naoinviabilize@gmail.com. Luz Acesa é um quadro do canal Não Inviabilize. [vinheta]

Quando ela contou essa história para algumas pessoas, muita gente riu, mas algumas pessoas de Ribeirão Preto Falaram que já tinham visto essa criatura também… De olho branco, inteiro branco, perna e braço comprido, vestido de preto e com a boca sem queixo, só um buraco.,, E aí fica aqui: Se você é de Ribeirão Preto, se você já viu essa criatura, escreve para mim. É isso.