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título: ecológico
data de publicação: 03/02/2025
quadro: picolé de limão
hashtag: #ecologico
personagens: solange e jairo

TRANSCRIÇÃO

[vinheta] Picolé de Limão, o refresco ácido do seu dia. [vinheta]

Déia Freitas: Oi, gente… Cheguei. Cheguei para mais um Picolé de Limão. E hoje eu vou contar para vocês a história da Solange. Então vamos lá, vamos de história. 

[trilha]

Cerca de um ano e meio a Solange conheceu um cara — que a gente vai chamar aqui de “Jairo” — e o Jairo cara bacana, às vezes eles têm questões de namorado, enfim… Só que a Solange tem um estilo de vida e o Jairo tem outro estilo de vida. — E aqui a gente vai falar quando a pessoa é legal, o relacionamento é até ok, mas tem coisa que não bate e que eu acho que, sei lá, a longo prazo pode azedar. — O Jairo é muito conectado à natureza e à preservação da natureza. — O que é muito, muito, muito bacana. — Só que ele tem algumas questões — que são muito importantes, a gente não está aqui para debater o estilo de vida dele, a gente está aqui porque a Solange encontra dificuldades para conviver em determinados momentos aí com o Jairo. Lembrando que agora eles são só namorados, mas é um namoro que tende a evoluir para um casamento, para morar junto. — 

O Jairo, ele não usa sacola plástica para nada… — Isso é muito bacana, gente, só que algumas coisas ficam complicadas para a Solange. — Por exemplo, se você vai numa farmácia e você precisa comprar algumas coisas com certo volume e você não levou a sua ecobag, você tem que levar as coisas na mão, porque ele não aceita sacola plástica.  Ele não aceita que quando a Solange está com ele, ela use sacolas plásticas. Isso parece uma bobagem, mas, por exemplo, um exemplo: Um dia eles saíram, estava chovendo, eles usaram a sombrinha ali, o guarda—chuva da Solange e, quando eles chegaram no shopping, ela queria fazer o quê? Sacudir a sombrinha, colocar na sacolinha e botar na bolsa. [risos] E aí ele não deixou, ela teve que ficar segurando a sombrinha ali um pouco molhada e eles ficavam revezando, porque ele seguravam um pouco também. Aquela sombrinha não secou o shopping todo. — 

Então assim, parece que é uma coisa banal? Sim, mas era só uma sacolinha ali que resolvia. [risos] Ai, Solange, desculpa. [risos] Essa questão da sacolinha eu acho contornável, eu falei para Solange, falei: “Existe alguns saquinhos que são térmicos, você pode levar sempre um saquinho térmico na bolsa, que aí é reutilizável e tal”, mas ela falou assim para mim: “Andréia, as vezes a bolsa é uma bolsinha pequena que cabe ali só a sombrinha, o saquinho térmico é mais duro e tal… E aí mesmo assim ele vai querer ver a composição do saquinho térmico e isso enche o meu saco um pouco”, mas eu acho que isso é contornável. —

Uma vez eles foram numa padaria e, geralmente, a padaria tem saco de papel, né? Para pôr o pão, mas algumas tem um saco de papel pra pôr o pão, mas algumas tem algumas coisas que tem saco de papel que tem um plástico transparente que dá para você ver o pão? Aquele saco ele não aceita. [risos] Então, um dia eles foram numa padaria que tinha esse saco, que tinha essa parte com plástico, e aí eles saíram da padaria cada um segurando um pãozinho em cada mão pra não gastar o saco. [risos] — Aí é complicado, né? [risos] Porque aí não fica higiênico, né? Você carregando o seu pão na sua própria mão, porque ele estava sem o saco dele de pano, que ele tem um saco de pão de pano, que é ótimo também… Mas às vezes e se você está sem seu saco de pão? [risos] — E isso aqui a gente está falando de um dia, a Solange falou pra mim: “Andréia, imagina isso todo dia, você ter que pensar em cada coisa, em cada plástico que você não pode ter”. E, gente, o Jairo está errado? Não tá, mas o pão na mão complicou para a Solange, entendeu? O guarda—chuva… Porque não é uma vez, é sempre. —

E aí agora aqui o inaceitável para mim, e aí mais uma vez eu vou dizer: A gente não está questionando o Jairo… Na casa dele só se dá descarga na hora de dormir. [risos] Ele mora sozinho, mas, por exemplo, quando a Solange dorme lá de final de semana, acordou e fez um xixi… É um xixi em cima do outro. Fez cocô? É um cocô em cima do outro. — E aí não dá pra mim, gente… Porque você concorda comigo que se você está lá fazendo o seu cocô, ele cai durinho, faz “tibufe”, aquela água, volta e bate na sua bunda, ali tem mijo e cocô de outra pessoa junto, que bateu na sua bunda de volta… Como é que faz? Ele não aceita que dê descarga. — A descarga é dada ali a hora que eles vão dormir, tipo, sei lá, dez da noite, onze da noite, você vai e dá uma descarga… E às vezes uma descarga só não dá conta, porque você fez cocô duas vezes, ele mais duas vezes… [risos] Fica aquela pilha… [risos] — Gente, essa não dá para mim… Desculpa, Planeta, mas essa não dá para mim… —

Aí, por exemplo, o banho: O banho são três minutos. E três minutos dá para você? Molhou, ensaboou, enxaguou… Mas e quando você quer lavar a cabeça? Aí você tem que tem que molhar, fechou… Ensaboou, botou shampooo, abriu, corre, [risos] tira espuma, fechou, passou o creme… — Eu, por exemplo, eu fecho o chuveiro para desembaraçar o cabelo, enfim, eu faço isso já, mas eu não fico cronometrando se vai dar três minutos e ele é muito rígido assim com essas coisas de água e tal… E aí a Solange, coitada, quando ela vai para lá de final de semana, ela fala: “Andréia, eu já vou com o cabelo lavado porque não tem condição, não consigo”. — Microondas ele é contra, então na casa dele não tem microondas… Entre várias questões, ele acha que acabou propiciando que as pessoas também usem mais plástico, joguem mais comida fora, porque quando você faz a sua refeição ali mais fresco, você tende a fazer menos e comer na hora. — Gente, é um estilo de vida que você precisa estar nesse pique também para levar e a Solange gosta de fazer marmitinha de plástico, gosta de Pôneiware, gosta do microondas. Eu amo meu microondas. Amo. Então, assim, como é que você vai morar com um cara desse se você já não está aguentando de final de semana? E tem uma questão também, porque assim, por exemplo, eu não como carne, mas eu não obrigo ninguém a não comer carne. Até hoje eu nunca namorei um cara que não comesse carne, eu nunca obriguei meus namorados a não comer carne, porque cada um tem a sua vida, tem essas coisas, eu tenho as coisas que eu acredito que eu não posso impor pras pessoas. —

Ele também não come carne, mas ele sempre está falando para a Solange que ela tem que parar de comer. Então, assim, isso se torna chato… E aí ele não come carne talvez não pelos mesmos motivos que eu, ele tem toda uma explicação que é e é bem isso mesmo, que o gado, enfim, esse tipo de criação, assim, impacta muito no planeta… Então você precisa plantar muita soja para alimentar o gado e, enfim, nã nã nã… Mas se ele, por exemplo, se ele for para um lugar que tem peixe e ele consiga ele pescar o peixe dele, ele come o peixe que ele pescou, entendeu? — Então assim, eu acho o Jairo, gente, muito coerente dentro das coisas que ele acredita. Mas por exemplo, se quando ela quiser comer um peixe ela vai ter que ir no pesque e pague pegar? [risos] Porque, assim, ele impõe as coisas assim pra ela.  Eu falei pra Solange: “Mas de que jeito que ele impõe?” e não é que ele obriga ela a fazer, mas ele te explica de um jeito que você fica sem graça, [risos] você fica sem graça de fazer… Você fala: “Pô, eu que vou ferrar o planeta? O cara está tentando, eu tenho que tentar também, entendeu?”. —

E aí a Solange, ao mesmo tempo que ela gosta muito dele, tem final de semana que ela não consegue ir na sexta e voltar no domingo… Ela vai na sexta e quando é sábado à tarde ela está voltando pra casa porque ela quer fazer cocô num vaso sanitário sem nada boiando, entendeu? [risos] Quer pegar sua sacolinha plástica…  Eu não sei… Eu acho, assim, a idade te dá muita experiência, mas a Solange também já está com 30 anos, ela já tem uma experiência, o Jairo tem 36… E a gente aprende com o passar do tempo que somente amor não é suficiente para o convívio do dia a dia. Quando você convive diariamente com alguém, algumas coisas você precisa ceder, outras coisas a pessoa cede, sem que você perca a sua essência, lógico… Precisa ser uma convivência colaborativa. Tem várias coisas que somente amar uma outra pessoa para morar junto não dá certo. E essas coisas, por exemplo, da descarga e tal e do banho cronometrado, ele não abre mão… Porque ele tem razões para isso. 

Eu acho que não vai dar certo, gente… Eles são compatíveis na questão de não querer filhos, porque a Solange não quer filho e ele não quer impactar o planeta com mais um ser humano, enfim, então nisso eles são compatíveis, né? Mas e todo o restante? A Solange, que é uma pessoa que come carne, ela come carne na rua, na casa dela, mas na casa dele não, mas se eles casarem, por exemplo? E ele tem casa própria… Então, o movimento natural seria a Solange ir morar com ele na casa dele e na casa dele não entra carne. A não ser que ele pesque… Que ele só come peixe, né? Então aí você vai ter que sair pra pescar? [risos] Sabe? E eu perguntei pra Solange do cheiro que fica no banheiro, né? Porque fica aquela urina acumulada o dia todo e ela falou que realmente fica um cheirinho, não fica com um cheirão, não parece um banheiro de rodoviária, mas fica um cheiro, né, gente? Aquela urina curtida e você vai e joga um sabugo lá… [risos] Um cagando por cima da bosta do outro… Ah, gente, desculpa… Isso para mim é não. 

Não acho que o Jairo esteja errado nas coisas que ele pensa e do jeito que ele quer viver a vida dele, mas eu também percebo que ele tem fortes convicções e que ele não está aberto a fazer nenhuma concessão. Então aí precisa ver também, do ponto de vista de relacionamento, como é que você vai casar com uma pessoa que não está disposto a ceder nada para você, né? Então, eu respeito aí o jeito que o Jairo quer viver, mas pô, você sair da padaria com quatro pãozinhos na mão, [risos] equilibrando… Ai, gente… Sabe? Eu entendo, mas não dá pra mim… E pelo jeito, para Solange, a longo prazo morando junto, também não vai dar. Porque você começa a ficar com ódio… Você começa a ficar com ódio. Então, a pergunta  que eu deixo aqui é: Só o amor basta? Porque a Solange ama o Jairo e ela disse que o Jairo também a ama e tal, mas e o restante?  Eles são bem incompatíveis em estilo de vida, né? A Solange, como ela disse, ela é uma patricinha classe C e ele é todo natureza com um pouquinho mais de condição financeira que ela, muito pouco. Então, em termos de classe social, eles são compatíveis sim, mas o estilo de vida é totalmente diferente, né? 

Ela queria trocar o celular dela, que tá bom, mas ela queria um com a câmera melhor e ele fez todos os questionamentos possíveis, assim, de por que ela queria causar aquele impacto e tal, trocar o telefone… — Ele está errado? Ele não está errado, porque a gente vive numa sociedade de consumo descartável, mas seria uma conquista para ela trocar o telefone. E aí você fica sem graça de fazer, aí ela falou… Ó o pensamento dela: “Vou trocar por um que eu consiga manter a minha capinha, porque ele nem vai ver que eu troquei”. Então quer dizer, se você vai comprar um celular escondido porque o seu namorado acha que você está consumindo demais e nã nã nã, sabe? — Então você não é livre para você comprar o seu celular? E ele tem toda razão sobre impacto, sobre o consumo descartável das coisas e tal, mas complica, né, gente? Dá uma complicada. Esse é o dilema da Solange: Ela ama o Jairo, mas ela não consegue conviver diariamente com o estilo de vida dele. — E aí, como é que você vai fazer se você vai casar com o cara e morar na mesma casa? Eu acho que dificilmente dá certo. —

Então ela escreveu pra gente pra falar isso, assim, se ela está errada, se tem alguma fórmula para manter os dois juntos… Olha, para mim é não. A parte de um cagando por cima do outro… [risos] É um cocô por cima do outro. Aquela aguinha volta, gente, dependendo de como cair ali, respinga na sua bunda e acabou. Não dá para mim. O que vocês acham?

[trilha]

Assinante 1: Oi, nãoinviabilizers, aqui é a Bárbara de São Paulo. Eu acho que o Jairo não é ecológico, ele é neurótico. Pesquisas científicas já apontam que o maior problema do impacto ambiental que estamos vivendo é pelas decisões de bilionários e de grandes empresas, ou seja, a nossa ação individual ela impacta muito menos. É importante a gente reduzir danos? Sim, é importante evitar usar plásticos, não desperdiçar água, mas em contingências, por exemplo, esquecemos a sacola do pão, não vai fazer diferença. Então, o Jairo ele tem uma neurose, ele quer que a Solange acompanhe a neurose dele e isso se chama controle. O Jairo pra mim é um controlador. Então, assim, Solange, pensa bem se você quer casar com uma pessoa assim, imagina como vai ser no dia a dia. Eu não quero nem imaginar que me dá angústia. Então, abraço e boa sorte. 

Assinante 2: Olá, nãoinviabilizers, sou Tati, sou de São Paulo, mas moro em Madri. Um casamento ele é feito com concessões e a gente tem que ceder um pouquinho, porque ninguém é igual, ninguém pensa da mesma maneira e, quando se tem duas pessoas com o estilo de vida tão diferente, e que provavelmente Jairo não vai abrir mão de muita coisa, eu não vejo futuro… Porque, assim, se namorando você já vai com o cabelo lavado, já não aguenta ficar o fim de semana inteiro e volta pra sua casa, imagina isso casado ali, dia a dia, 24 horas por dia, fazendo um cocô em cima do outro e aquela aguinha voltando na sua bunda. Como diz a Déia: Para mim é não. Meu, carrega aí sua sacolinha pelo menos pra não ter que levar o pão na mão. Um beijo. 

[trilha]

Déia Freitas: Comentem lá no nosso grupo do Telegram, sejam gentis com a Solange. O Jairo tem nome aqui porque eu não acho que ele esteja errado, né? A única coisa que me incomoda um pouco é essa falta de flexibilidade em ceder um pouco para a Solange, mas a Solange também me diz que ela não é uma pessoa que ela exigiu nada dele, então também não sabemos se ela exigisse, se ele mudaria, mas eu acredito que não, porque ele tem razão nas coisas, ele tem lógica nas coisas que ele acredita, né? Um beijo e eu volto em breve. 

[vinheta] Quer a sua história contada aqui? Escreva para naoinviabilize@gmail.com. Picolé de Limão é mais um quadro do canal Não Inviabilize. [vinheta]