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título: velas
data de publicação: 03/02/2025
quadro: luz acesa
hashtag: #velas
personagens: dona arminda, joana e dona benedita

TRANSCRIÇÃO

[vinheta] Shhhh… Luz Acesa, história de dar medo. [vinheta]

Déia Freitas: Oi, gente… Cheguei. Cheguei para mais um Luz Acesa. E hoje eu vou contar pra vocês a história da Dona Arminda. — Obrigada aí pela carta… “Carta”, [risos] pelo e-mail da sua neta, Isabela. — Bom, então vamos lá, vamos de história.

[trilha]

A Dona Arminda hoje tem 81 anos… — Olha que coisa mais fofa…  — E a Dona Arminda vem de uma época onde os pais dela e muitas pessoas que ela conhecia, todo mundo trabalhava numa mesma fazenda, ali na colheita das coisas… E ela era criança, então as crianças ficavam soltas, assim. Era uma época que vez ou outra ia uma professora  lá na fazenda, na parte onde tinha as casas dos trabalhadores, ensinar um pouco, alguma coisa. — Ela não se lembra muito disso, porque só depois, quando ela já estava mocinha, que realmente ela foi aprender a ler, enfim… — Era uma época que as crianças elas brincavam muito, subiam nas árvores, brincavam num rio que tinha ali do lado da fazenda e que fazia parte da fazenda, né? Mas elas tinham a parte certa para brincar no rio, porque enfim, a correnteza, criançada…

Então, os adultos iam trabalhar e as crianças, enquanto não tinham idade para ajudar — porque com dez anos ali você já ia também para a lavoura ajudar seus pais a fazer, cada um tinha tipo um lote, uma parte que era responsável, então quem tinha mais filhos colocava os filhos lá também para ajudar, né? —, então, até ali os dez anos era a época de você brincar igual maluco. E a Dona Arminda tinha muitas amiguinhas ali, muitas crianças como ela… Ela estava ali com seus oito anos e tinham crianças menores e crianças um pouco maiores e depois você já ia trabalhar. — Bem cruel também, né? Uma criança de dez anos na lavoura, mas infelizmente até hoje com a falta de fiscalização e tal isso ainda acontece. — Um belo dia a dona Arminda, chamaremos aqui de “Armindinha”… Armindinha saiu para brincar e ela deu falta de uma das meninas, a Joana, que tinha a idade dela. — Oito anos. — Ela viu que a Joana não estava ali e falou: “Será que Joana está doente? Porque, assim, não tinha o que fazer, Joana não tinha idade ainda para ir para a lavoura, então ela estava ali brincando ou ela estava em casa fazendo algum trabalho de casa, porque as crianças também já faziam as coisas em casa. 

Era uma vila de casinhas, né? Casas pequenas, casas não tão bem cuidadas, que o dono da fazenda lá disponibilizava para os funcionários. — A troco aí do sangue dos funcionários, né? Aquele trabalho precarizado, sem direitos, enfim, não vamos entrar nisso… — Armindinha foi lá e encontrou a mãe da Joana — que a gente pode chamar aqui de “Dona Chica” —, encontrou a Dona Chica chorando e não na lavoura, porque ela tinha que ir, né? A Joana tinha os irmãos maiores que iam com o pai e com a mãe e Dona Chica tinha ficado. Por quê? Porque a Joana, no dia anterior, quando foi umas sete da noite, que ela chamou as crianças ali para jantar, a Joana não veio… Eram ali trabalhadores da lavoura, sem nenhuma instrução, com muito medo de perder o emprego, porque perder o emprego significava perder a moradia, você tinha que sair da fazenda, né? Então, ali a Dona Chica não quis fazer um alarde e, sei lá, avisar “minha filha sumiu” e ela ficou ali rezando, passou a noite rezando e a Joana não apareceu. — Agora já tinha passado um dia, né? Essa notícia se espalhou ali pelos trabalhadores da lavoura e tal… —

E a galera se organizou para procurar a Joana depois do trabalho, digamos, eles acabavam ali as coisas que eles faziam na fazenda umas 16h, de colheita, de plantação, e aí eles combinaram isso, que depois das 16h eles iam procurar pela Joana… Começaram a procurar e nada, nada, nada de achar a Joana. Ninguém sabia, pensavam: “Será que ela caiu no Rio? Será que, sei lá, uma onça pegou?”, sabe? Tinham muitas possibilidades… “Ai, será que ela foi mais perto da estrada e alguém raptou?”, ninguém tinha um sinal da Joana. Nada, nada, nada, nada… E Armindinha ali muito mal, porque era uma das colegas dela, de fato bem amiga dela e a Armindinha começou a ficar tensa nesse primeiro dia e não conseguiu dormir. Como ninguém sabia se alguém estava raptando crianças, sei lá, alguma coisa, os pais também da Armindinha também não deixaram ela sair ali da casinha e ela ficou na janela. O lugar onde eles moravam tinham muitas estrelas — provavelmente também uma época, a gente está falando há mais de 70 anos, que a poluição era menor, então você também conseguia ver mais estrelas, né? —, Não tinha luz elétrica nas casas, nada assim, então o pessoal tinha ali uma vela, uma lamparina de querosene e na casa dela já estava tudo apagado, mas ela estava na janela querendo ver a Joana, quem sabe a Joana aparece, já que ela não podia sair para procurar, porque a Armindinha, se deixassem, ela saía para procurar a noite. 

Quando foi ali noite bem caída, que devia ser mais ou menos lá para uma hora da manhã, ela viu meio que um clarão se aproximando de onde ela estava e ficou uma distância de uns dez metros. E era Joana… Só que Joana conversava com Armindinha sem abrir a boca… E o que Joana falou? Joana falou: “Armindinha, eu estou bem, mas eu preciso de uma ajuda sua… Pede para sua mãe falar com a Dona Benedita, que é a Dona Benedita vai me achar”. Armindinha ficou muito assustada, parecia que a Joana estava muito bem, assim, estava alegre, mas ela via que era um fantasma… — Armindinha teve noção ali que era um fantasma e, na hora, ela começou a chorar, porque se era um fantasma, a amiga dela estava morta, né? — E agora como é que ela ia falar para a mãe dela que ela viu a Joana e pediram para falar com a Dona Benedita? Dona Benedita também morava ali, naquela vila de colonos e era benzedeira da vila. — Então, gente, uma época que onde eles moravam não tinha acesso de médico, então quem era praticamente a médica ali daquela vila era a Dona Benedita, que fazia uma garrafada, fazia um emplastro ali pra você botar numa ferida, tudo com ervas, com folhas e tal e era a Dona Benedita que fazia isso e que também benzia. Aqui na minha rua tinha a Dona Rosa, a gente ama ir lá benzer na Dona Rosa. —

E de manhã a Armindinha tomou coragem e contou para mãe, falou: “Eu fiquei na janela, não conseguia dormir e eu vi a Joana”, e aí ela falou ali na frente de todo mundo, de manhã, antes deles saírem para a roça, bem de madrugada, tipo às 05:30 da manhã, e aí a mãe já veio para bater nela, sabe aquela coisa? “Menina, essas coisas não se falam”, e aí ela falou: “Não, mãe, eu estou falando sério. Eu vi a Joana e a Joana pediu para a senhora falar com a Dona Benedita, que a Dona Benedita vai achar ela”. E aí a mãe — que a gente pode chamar aqui de “Dona Maria” —, Dona Maria, mãe de Armindinha aí viu a seriedade da coisa, porque até então Dona Benedita não tinha sido incluída nessa busca, nessa conversa, porque ela era a pessoa do além, do esotérico, sabe? Da coisa da espiritualidade. E ninguém queria pensar que Joana pudesse estar morta até aquele momento. E aí a Dona Maria, mãe de Armindinha foi falar com a Dona Benedita. Quando ela chegou, ela levou junto a Armindinha, porque já que a Armindinha que viu “então você vai falar exatamente o que aconteceu para a Dona Benedita”.

Parecia que a Dona Benedita, talvez Joana tenha ido falar com ela também? E aí a Dona Benedita falou assim: “Tá bom, tá bom… Pode ir lá, pode trabalhar, que hoje a gente acha a Joana”, mas com uma cara assim meio triste, já do tipo tendo a certeza que Joana tava morta, né? Como é que foi encontrada a Joana? E isso pra mim é muito louco. Dona Benedita pegou umas velas… Sabe quando você… Como chama aquele negócio? Sabe um negócio de vidro que você coloca em volta da vela para o vento não apagar a chama? Mas é aberto em cima e fechado embaixo, assim, é como se fosse um copo para você botar a vela. Ela pegou uns copos, botou umas velas pequenas acesas dentro desse copo, o copo aberto em cima, porque senão, se fechar ali, apaga a chama… E aí chamou um canoeiro lá, uma pessoa que levava, se tivesse que atravessar o rio, você pegava a canoa lá, vamos por, do Seu João. Chamou o Seu João e falou: “Seu João, preciso da sua ajuda… Nós vamos sair com a canoa aqui no Rio e com essas velas”, as velas todas no fundo da canoa, acesas, dentro desses copos.

E todo mundo já em volta do rio e a mãe da Joana já chorando muito, porque já entendia o que ia acontecer ali e ficaram remando por ali, por ali e, de repente, num ponto, as velas todas se apagaram… E aí Dona Benedita falou: “É aqui… É aqui que está a Joana”. E aí já vieram os homens, dois se amarraram com corda ali numa árvore para poder mergulhar — tudo rústico, gente… Não tinha equipamento, não tinha nada — para saber se era ali que que estava a Joana. E a Joana tava… Afogada, enroscada em alguns galhos, umas plantas e tal. E aí eles resgataram o corpo da Joana. E aí a Dona Arminda falou para mim que isso é uma coisa que até hoje alguns lugares fazem: Se tiver um corpo afogado numa represa, no mar já não dá para fazer, porque enfim, mas numa represa, numa lagoa, num rio, você bota a vela acesa pra navegar que, onde tiver o corpo, a vela vai apagar… E ela falou que isso não falha, não falha… E aí resgataram o corpo da Joana, foi aquela choradeira, enfim, o dono da fazenda lá providenciou um lugar ali dentro da fazenda mesmo, onde seria, sei lá, um cemitério. — Não tinha tipo um cemitério da cidade, da prefeitura, não… — E aí foi feito um túmulo pra Joana ali mesmo na fazenda.

A história podia acabar aqui, né? Mas ela não acaba aqui. Entre os colonos, entre as pessoas que trabalhavam, uma turma achava que a Joana tinha morrido afogada e outra turma achava que era impossível, porque primeiro que ela nadava muito bem e, segundo, ela não entraria 19 horas da noite no rio… — Mas a gente está falando aqui de uma época que não tinha a perícia, não tinha legista, foi uma coisa que nem a polícia foi chamada… Sei nem como era a polícia na época dela, há mais de 70 anos e tal… — O que aconteceu ali? Ela gostava muito de subir nas árvores, então assim, quanto mais alta a árvore, mais era um desafio para Joana e ela subia e descia… — Porque subir é muito fácil, gente, inclusive eu tenho uma história que o bombeiro teve que me ajudar a sair da árvore com a minha mãe embaixo com o chinelo, mas descer que é o problema… Porque você sobe, sobe, sobe… Eu amava também subir em árvores e aí você olha pra baixo e você fala: “E agora?” porque tem uma arte de onde você põe o pé pra descer, diferente de subir, né? — 

E ela gostava muito de subir nas árvores. — Muito, muito, muito, muito… — Acontece que depois do sétimo dia ali, que eles fizeram uma missa ali, na fazenda, né? Coisas começaram a acontecer… Um dos colonos começou a ficar muito doente e ele nunca levantava a cabeça — nunca levantava a cabeça, só olhava para baixo, para baixo, para baixo — e quando perguntavam para ele, ele falava que era porque ele não queria olhar para as árvores… E ele muito doente, muito atormentado… Até que um dia este colono apareceu morto. Foi encontrado na cama dele com um rosto, assim, de horror e só então a Dona Benedita disse que a Joana tinha contado para ela que aquele colono é que tinha matado a Joana. E Dona Benedita falou: “Ele tentou abusar da menina Joana” — Joana não cedeu, e aí ele bateu a cabeça da Joana numa pedra — “a Joana ficou por aqui até ela conseguir justiça”. Ele via a Joana nas árvores. — Por isso que ele estava andando só de cabeça baixa. —

Dona Benedita contou depois que o rapaz morreu porque provavelmente ela também tinha medo dele, né? Mas ele morreu eu espero que de uma maneira dolorosa e de susto falavam, porque a cara dele estava, assim, como se ele estivesse muito horrorizado… E eu acredito que nem fosse Joana, podiam ser os próprios demônios desse cara assombrando ele, né? Porque, como dizem os evangélicos, como é que? “O diabo ajuda a fazer, mas não ajuda a esconder”, é isso? Então pode ser que ele estava assombrado pelos próprios demônios, porque a menina Joana já tinha aparecido para Dona Armindinha toda bonita, toda da paz, não acho que ela ia ficar tipo um obsessor em cima do cara… Eu acho que foram outros espíritos, e aí ele deduziu que fosse a Joana. — E eu falando aqui como se eu acreditasse em tudo, [risos] enfim, é só uma teoria, tá? — E essa é a história da Dona Arminda e de quando o corpo da Joana foi encontrado, com essa coisa da vela, que eu fiquei muito impressionada, muito impressionada… O que vocês acham?

[trilha] 

Assinante 1: Oi, pessoal, oi, Déia, meu nome é Carlos, eu falo de São Paulo. Luz Acesa é sem dúvida o meu quadro preferido, mas infelizmente histórias como essa me deixam muito triste. A gente tem que lembrar que são histórias reais, infelizmente um crime aconteceu e uma criança foi morta. Imagina você ter que ver o espírito da sua amiga ali pedindo ajuda? Isso é realmente muito triste. Histórias como essa me deixam cada vez menos cético em relação ao outro mundo. O lance das velas… Socorro, o que foi isso? O cara não conseguindo olhar para cima porque tinha algo encarando ele… Sofreu pouco, né? Mas enfim, pessoal, um beijo. 

Assinante 2: Oi, nãoinviabilizers, aqui é Paula de São Paulo. Oi, Déia, oi, Dona Arminda, eu fiquei toda arrepiada, principalmente quando a Déia contou que as velas apagaram no lugar que a Joana foi encontrada morta. Mas ainda bem que vocês tinham uma Dona Arminda, uma mulher de fé, uma benzedeira que pôde localizar e a mãe da Joana pode aí dar um enterro para sua filha. E eu fiquei muito feliz sim que esse agressor durante o resto da vida dele ele foi assombrado… Se não foi pela Joana, foi por outros espíritos que assombraram sim, ele morreu da maneira que tinha que morrer. Não pagou em vida, mas com certeza pagou depois de morto. E é isso, Dona Arminda, um grande beijo e até mais. 

[trilha]

Déia Freitas: Então é isso, gente, comentem lá no nosso grupo do Telegram, sejam gentis aí com Dona Armindinha. — E se você aí tem um avô, uma avó, bisavô, uma bisavó, com histórias legais assim, de Luz Acesa, histórias de terror, enfim, escreva… Converse com a sua vó, com seu vô, pega ali o depoimento deles e depois eu converso com eles ali por telefone e a gente conta a história aqui, tá bom? — Então é isso, gente, um beijo e eu volto em breve. 

[vinheta] Quer sua história contada aqui? Escreva para naoinviabilize@gmail.com. Luz Acesa é um quadro do canal Não Inviabilize. [vinheta]

Deus me livre.