título: ranzinza
data de publicação: 06/02/2025
quadro: amor nas redes
hashtag: #ranzinza
personagens: penélope e dona estela
TRANSCRIÇÃO
[vinheta] Amor nas Redes, sua história é contada aqui. [vinheta]Déia Freitas: Oi, gente. Cheguei… Cheguei para um Amor nas Redes e hoje eu vou contar para vocês a história da Penélope. — Eu estava com saudade de Amor nas Redes, vocês não estavam? — Então vamos lá, vamos de história.
[trilha]A Penélope, travesti, depois de muito juntar dinheiro, fazer muito cabelo, conseguiu aí dar entrada na sua casa própria — no seu apartamento — e ela estava muito feliz. Penélope, que já morava de aluguel há um certo tempo, já tinha saído de casa faz tempo, tinha uma maneira de agir quando ela chegava pra ocupar ali uma casa que ela alugou: Ela ia nos vizinhos sempre se apresentar, falar que ela era uma travesti, que ela era cabelereira e que ela não trabalhava com prostituição, que ela tinha outras amigas travestis que frequentavam a casa dela vez ou outra, mas nunca para a prostituição. — Por que ela fazia isso? — Porque ela teve problema em dois lugares que ela passou — a gente sabe como as pessoas são horríveis e preconceituosas —, então ela já se antecipava e depois que ela se apresentava em cada apartamento, para cada família, ela não tinha problema…
Alguns podiam nem olhar na cara dela, mas também não enchiam o saco. — Então essa é uma política que a Penélope adotou e que para ela estava ótimo. E, a partir do momento que ela deu entrada e comprou o seu apartamento, pensa, ela só teria que fazer isso mais uma vez aí na sua vida. — Penélope comprou um apartamento num prédio de quatro andares, sendo dois apartamentos por andar — apartamento de três quartos, então um apartamento bom, espaçoso — e ela falou: “Bom, assim que eu me mudar, vou começar lá do quarto andar” — ela morando ali no terceiro andar, um prédio com elevador —, “vou descendo, começo lá em cima, vou me apresentar e falar que não trabalho com prostituição”. — Eu acho que a Penélope não deve satisfação nenhuma da vida dela pra ninguém, mas cada um sabe onde o sapato aperta e o que tem que fazer para se sentir mais segura, mais protegida e essa é a dinâmica da Penélope. —
Com três dias que Penélope se mudou, ela começou a fazer isso. Então foi lá nos dois apartamentos do quarto andar, se apresentou, desceu no terceiro, no segundo, tudo certo, assim… Tinha gente que era a mais simpática, gente que: “tudo bem, ok”. No andar dela ela já viu que tinha uma senhora, porque ela já tinha visto a senhora colocar o lixo — a gente está falando de uma história que já tem 20 anos, nessa época, essa senhora tinha uns 70 anos —, então a Penélope foi lá se apresentar… Isso era umas seis horas da tarde, a Penélope nesses dias aí para fazer a apresentação ela saía mais cedo do seu trabalho para também não ficar batendo na porta dos outros muito tarde, né? [efeito sonoro de campainha tocando] Bateu ali na porta daquela senhora e falou: “Oi, boa noite… Eu sou a Penélope, sua vizinha aqui de porta, e eu gostaria de me apresentar para você”. A mulher interrompeu e falou: “Boa noite, meu nome é Estela, prazer” e já ia fechando a porta… A Penélope falou: “Não, não, deixa eu terminar de falar, vai ser rapidinho… Eu só gostaria de dizer que eu sou cabeleireira, sou travesti e não trabalho com prostituição. Tenho amigas travestis que frequentam a minha casa, mas nenhuma envolvida com prostituição”.
Estela, cruzou os braços e falou: “Por que você está me falando isso?”, “não, porque eu costumo chegar a me apresentar para as pessoas saberem mais um pouquinho sobre mim”. E aí Dona Estela virou pra ela e falou: “E você sabe o quê das pessoas do prédio? O que elas falaram para você?”, “Não, nada… Eu só passei para me apresentar”. Ela falou: “Então, por que você está dando informação da sua vida, sem que ninguém tenha pedido, e você não sabe nada das pessoas do prédio? Aqui tem pessoas horríveis nesse prédio”. Dona Estela falou: “Eu não quero saber da sua vida… Você é minha vizinha? Prazer, boa noite” e fechou a porta… A Penélope ficou arrasada, porque nos outros andares ela não teve problema com ninguém, ela ia ter problema justo com a sua vizinha de porta? Foi para a casa dela, nem conseguiu jantar, ficou muito preocupada, mas falou: “Seja o que Deus quiser… Eu comprei esse apartamento”, quando ela se apresentava ela falava isso, que ela comprou — que ela não alugou — e ela passou aquela noite sem dormir, agitada, pensando nisso…
Penélope acordou como sempre acordava às ali, 07h30 da manhã, Penélope tinha um gatinho, cuidou ali, fez as coisas… De repente, a campainha dela tocou… Muito cedo. Era alguém ali do prédio, ela não liberou o interfone para ninguém… O prédio não tinha porteiro, mas você tinha que liberar, tinha dois portões ali para liberar, né? E aí ela olhou e viu que era sua vizinha de frente, que estava com alguma coisa na mão. Ela falou: “Ai, meu Deus, já vai começar cedo”, ela abriu a porta e Dona Estela estava com um bolo na mão. Dona Estela estendeu um bolo inteiro, quentinho, feito na hora. Dona Estela estendeu e falou: “Toma”… Olhou pra ela e falou: “Oi?”, “É, toma… É um bolo. Você não come bolo?”, Penélope falou: “Não, não, eu como sim, como bolo”. E aí ela botou o bolo na mão da Penélope, com um prato dela, um bolo inteiro desses com furo no meio, sabe? — Bolo simples. Amo… Huuum, com um cafezinho… — Virou as costas e entrou no apartamento dela. Penélope com aquele bolo quentinho na mão, mas pensou: “Essa mulher? Será que ela envenenou esse bolo? Vou ser esperta”, passou um café, foi lá, bateu na porta de Dona Estela e falou: “Eu fiz um café, vamos lá comer bolo?”, Dona Estela olhou pra ela e falou: “Mas tem açúcar ou sem açúcar esse café? Que agora tem essa de tomar café sem açúcar… Eu tomo café com açúcar”, “Não, tem açúcar”.
Então lá foi Dona Estela tomar o café com bolo. Dona Estela quieta, elas tentando fazer uma pergunta ou outra, Dona Estela respondendo, assim, muito mal… — Não mal assim, mas seca, né? — E falou: “Muito obrigada, tava bom o café”, Penélope falou: “Obrigada pelo bolo, eu vou trocar de prato” e ela falou: “Não, pode terminar de comer, depois você me dá o prato”. Alguns dias se passaram, ela não viu mais ali a Dona Estela e ela encontrou uma outra moradora fofa ali do prédio, que morava lá no quarto andar, e falou: “E aí, você já encontrou a velha?” e ela falou: “Velha?” e ela: “É, que mora no seu andar. Insuportável… Ninguém gosta dela aqui. Ela é muito chata, ela não fala com ninguém, ela é ranzinza” e ela: “Ah, eu encontrei comigo foi tudo bem, assim” e ela: “Nossa, foi tudo bem? Nossa, ninguém gosta dela”. Penélope quis saber um pouco mais da fofoca, mas falou que não é que ela implicava ou que ela causava, ela só era uma pessoa que é desagradável, as vezes não dava bom dia… Ranzinza… Sabe gente ranzinza? Ranzinza. Penélope ficou meio assim, porque falou: “Poxa, a mulher me deu um bolo, né?”, mas nem comentou isso com a vizinha…
Ali naquela conversa ela descobriu pela vizinha, porque ela não teve abertura para perguntar isso pra Dona Estela, que a Dona Estela era sozinha, que o marido dela já tinha morrido fazia uns dez anos, que agora ela estava com setenta e poucos anos, tinha uma filha que era casada e que morava numa cidade perto e que vira e mexe estava lá, mas que não morava mais lá, enfim… — Ficou sabendo disso pela vizinha. Sabe fofoca assim de prédio, né? — E aí acabou aquele bolo e Penélope falou: “E agora? Eu vou devolver esse prato vazio? Não posso”. Penélope sabia fazer ali uma torta, e aí ela falou: “Bom, vou fazer aqui a torta que eu sei, que é uma torta de legumes e vou levar e devolver no prato dela uns pedaços de torta”. Assim fez… Foi lá, fez a torta quentinha ainda, bateu lá na casa de Dona Estela, que a campainha não funcionava. Dona Estela saiu e falou: “Oi?”, “Ah, seu prato”, ela falou: “Ah, tá… O que é isso?”, “Ah, é torta de legumes”. Ela olhou e falou: “Hum, obrigada”, pegou a torta, fechou a porta. [risos] — Até rimou, né? [risos] Pegou a torta e fechou a porta. —
Penélope riu e ela voltou ali para o apartamento dela. Isso passou um mês, dois… Às vezes Dona Estela ia lá, já tinha dado pra ela o bolo, outra vez tinha feito suco e falou que tinha feito muito suco, que errou na conta, então levou uma jarra de suco pra Penélope e, de uma terceira vez, levou uma planta, porque ela falou que quando ela tinha ido lá comer bolo ela achou o apartamento deprimente porque não tinha plantas e depois que ela deu a planta na mão da Penélope, ela disse: “Vê se não deixa morrer”. [risos] Então a Penélope agora falou: “Andréia, além de ter que cuidar do meu gato, eu tinha que cuidar da planta pra não deixar morrer e a Dona Estela, sei lá, jogar na minha cara que eu não sabia cuidar nem de uma planta”. Chegou o dia dela fazer uma minifesta ali na casa dela, com as amigas dela e iam ali botar cabelo, cílio, fazer a unha… Uma festa de garotas. — Amo… — Era sábado, tipo três da tarde, então a música não tava muito alta, mas elas estavam conversando, elas estavam rindo quando, de repente, umas quatro e pouco da tarde, a campainha toca. [efeito sonoro de campainha tocando] Quem que era? Dona Estela, ela falou: “Bom, agora a Dona Estela vai reclamar que a gente está falando alto, tá conversando…”, a Penélope já tinha dado uma bronca nas meninas, tipo: “Vocês estão falando alto e tal”.
E aí ela foi lá e tocou a campainha e Dona Estela estava com uma saco na mãe e esse saco tinha bobs. — Ela devia estar ouvindo, sei lá, o que elas estavam fazendo, que uma fala de cabelo, outra não sei o quê, ela sabia que a Penélope era cabeleireira e ela tava com um saco na mão e esse saco tinha bobs. Bobs de colocar no cabelo, sabe aqueles rolinhos? Você sabe que é um bob, né? — E aí ela falou pra Penélope: “Toma, eu não uso mais… Faz muito tempo que eu não coloco o bobs no cabelo e acho que vocês vão precisar aí, vocês podem usar meus Bobs”. E aí uma amiga da Penélope, [risos] que a gente pode chamar aqui de “Divine” — Divine… — A Divine veio e falou: “Amiga, a gente não usa mais bobs, a gente tem escova modeladora, olha isso aqui” e puxou Dona Estela pra dentro, pegou a escova modeladora, pegou um spray com água e fez uma onda no cabelo de Dona Estela. — Uma única onda. [risos] — Dona Estela olhou no espelho e falou: “É, bom, mas com a cara péssima” e saiu, [risos] foi embora. [risos] Todo mundo riu e ficou naquelas, elas usaram o bobs, tiraram até umas fotos e tal e passou…
Passou uma semana, passou outro final de semana e quando foi na terça do outro final de semana, segunda—feira, a Penélope trabalhava porque ela tinha que comprar as coisas pro salão, então tudo que ela tinha que fazer de burocrático e tal, ela fazia de segunda. Na terça ela não abria o salão, ela abria de quarta a sábado e um sábado por mês ela só atendia até duas horas da tarde. — Era o estilo de vida dela pra não morrer de trabalhar, enfim… — E aí, numa terça era a noite já, por volta das sete horas, toca a campainha dela [efeito sonoro de campainha tocando] e é a Dona Estela. Dona Estela gostaria de saber onde era o salão, que ela queria marcar para fazer aquelas ondas no cabelo dela com a escova modeladora. E aí a Penélope falou: “Você não precisa ir até o meu salão, eu posso fazer, eu tenho uma escova modeladora aqui, que é a que eu uso, eu posso fazer no seu cabelo. Entra aí.”, e aí Dona Estela falou: “Não, não quero te atrapalhar, você acabou de chegar”, ela falou: “Entra aí, eu vou comendo alguma coisa aqui, a gente vai conversando e eu vou modelando seu cabelo”.
E aí ela modelou o cabelo ali de Dona Estela e Dona Estela falou: “Ah, ficou muito bom”, mas sabe assim, séria? E aí ela perguntou pra Penélope: “Penélope, você viu? Meu cabelo está metade de uma cor, metade da outra. O que eu faço? Eu deixo tudo branco ou eu volto com a minha cor?”. — A gente está falando de uma história de quase 20 anos, hein? Não sei se era moda usar o cabelo já assim, branco, platinado e tal? — Penélope falou: “Olha, dá para a gente fazer uma coisa que o seu cabelo vai ficar branquinho e, se você cuidar e modelar, vai ficar lindo” e já deu um modelo de escova tipo para ela comprar, se ela quisesse ter a própria escova dela e tal. E ela falou: “Você sabe que eu quero? Que já está metade branco”, já estava mesmo, sabe? Tava quase na metade, quase na orelha branco e pra baixo, assim, mais ou menos até em cima do ombro e tava de uma outra cor e tal. Ela falou: “Nossa, vai ficar muito melhor, porque seu cabelo ficou bonito, mas com essas cores assim, o contraste que tá, não fica tão bom”, Penélope também procurando muito as palavras, mas assim, cabelo de senhorinha Estela horrível. E ela “Ah, eu quero fazer, quanto custa?”, Penélope falou: “Então, pra você não custa nada. Custa um bolo… Quando aas meninas vierem aqui, você faz um bolo pra gente”.
E aí foi combinado, quando chegou no domingo Dona Estela foi lá e ela cortou aquela parte que ainda estava com com cor, que tinha tintura ali, deixou um chanelzinho abaixo da orelha e ficou linda, ficou linda… Parece que o cabelo branco rejuvenesceu Dona Estela, porque agora… — Ela tinha o cabelo mal—cuidado de duas cores ali, sem corte e agora ela estava com corte, o cabelinho todo modelado, branquíssimo, mas não aquele branco manchado, aquele branco de rico, porque Penélope disse: “Eu sou boa, eu sou boa”. — E aí Dona Estela se achou maravilhosa, achou ótimo, foi pra casa naquele domingo mesmo e fez o bolo. E aí levou o bolo lá e falou: “Não, as meninas só vem aqui no último sábado do mês, que é quando eu fecho o salão mais cedo e nã nã nã” e ela falou: “Não, esse bolo aqui é um bolo extra”, virou as costas, deixou o bolo lá e foi embora. E aí nasceu uma amizade… Dona Estela, ranzinza, mal humorada, amicíssima de Penélope… — Cabeleireira alto astral, sabe? [risos] Maravilhosa. — E elas com uma amizade única, assim, a ponto de uma fazer comidinha pra outra, Penélope cuidava do cabelo, das unhas, de tudo ali da Dona Estela…
E essa amizade cresceu tanto a ponto de Dona Estela apresentar a filha, a família da filha para Penélope, também criar essa amizade… — A gente pode chamar a filha aqui de Maryangela. — E criar essa amizade ali entre elas, né? Então, as vezes tinha almoço de família na Dona Estela com Maryangela, marido, filhos e Penélope. Quando elas tinham ali uns dez anos de amizade, era um sábado desses sábados que ela saia mais cedo, ela estava arrumando as coisas porque as meninas vinham mais tarde para chegar lá e tal, ela escutou uma movimentação na casa da Dona Estela, as meninas foram chegando, estava estranho, ela resolveu bater lá e um cara que se dizia da Net tava empilhando as coisas da Dona Estela para levar… E aí ela sacou que Dona Estela talvez agora não estivesse com a cabeça tão boa, sabe? E ela: “Estelinha, quem que é esse? Por que ele está levando suas coisas?”, e aí a hora que percebeu ali que era um golpe, as meninas todas tinham chegado… [risos] Enquanto Dona Estela ligava para a polícia, meio confusa, assim, as meninas deram um pau no ladrão. [risos] Até a polícia chegar e a polícia chegou, enfim, uma situação inusitada, né? Aquelas meninas todas montadas, alegres, coloridas, lindas e bravas, né? Bateram no cara…
Enfim, foi todo mundo pra delegacia, aquela coisa. E, a partir dali, a Penélope falou pra Maryangela: “Olha, você não pode deixar sua mãe com cartão aqui, o cara tava com o cartão…. Então, hoje em dia a gente consegue comprar as coisas pela internet. Aqui perto tem tipo um sacolão com mercado que eles entregam, então você pode fazer uma conta lá, ela é do bairro, todo mundo conhece a Dona Estela, então eles podem trazer as coisas pra ela. Eu posso trazer as coisas pra ela e depois a gente acerta, mas não deixa ela com cartão, com dinheiro aqui… A não ser um dinheirinho, se ela quiser ir ali na padaria, essas coisas, porque é complicado. Eu não estou aqui o tempo todo, né? E se ela abre aí o portão pra alguém… Enfim, né?”. E surgiu essa preocupação na Penélope, né? Até que chegou um ponto que Dona Estela esqueceu uma panela no fogo, então, foi uma coisa maior e um vizinho sentiu o cheiro, enfim… Não pegou fogo, graças a Deus, no apartamento ali. E aí Penélope convenceu Maryangela a ir morar com Dona Estela, agora Dona Estela já estava com oitenta e poucos anos, né? E aí Maryangela, que morava na cidade vizinha, se organizou, o marido e tudo, pra vir morar ali. O apartamento de três quartos, então Dona Estela não precisava sair do quarto dela. A Maryangela veio com logo com o marido e ocupou um quarto, o quarto menor ficou para os dois filhos… Um filho já estava já saindo e indo para a faculdade, então deu tudo certo, né?
E aí que Penélope conseguiu descansar a cabeça, ficar com menos preocupação. E a Penélope falou pra mim: “Andréia, se a Maryangela não viesse, porque Dona Estela, Estelinha já estava num ponto de não conseguir morar sozinha mais… Eu ia entrar na justiça pra pedir a guarda da Dona Estela. Não precisava me dar um real, nada, eu ia bancar Dona Estela e ela ia morar comigo no meu apartamento. E aí eu levava ela todo dia pro salão, a gente ia e voltava juntas… Ela ficava lá me ajudando no salão”, porque Dona Estela já ia de vez em quando, né? Mas era aquela coisa assim meio informal e tal, né? Quando Maryangela foi morar com ela ficou combinado isso assim, que quando Maryangela fosse sair e não pudesse estar em casa e tal, que Dona Estela ficaria lá no salão. — Quem aí fica lá, tem as outras meninas e todo mundo pode dar uma olhada… E ela fica lá de assistente, alguma coisa… — Isso funcionou por anos assim… Tinha dias que a Maryangela estava em casa e Dona Estela falava: “Não, eu quero ir para o salão”. Virou um trabalho pra ela, sabe? E aí a Penélope falou: “Andréia, daqui a pouco as pessoas vão achar que eu estava escravizando a idosa, não pagando… Mas também eu pagava pra ela como se ela fosse uma assistente e sempre que ela ia eu dava um dinheirinho pra ela e tal, mas ela ficava ali, servia um café… Não é ela era assistente, ela chegava a hora que ela queria e ia embora a hora que ela queria também, né? E às vezes a Maryangela não podia buscar, tinha que parar as coisas aqui do salão e levar porque ela ela queria ir embora”, enfim… Um parente, virou um parente, [risos] né, gente?
Essa durou quase 20 anos, Penélope lembra com muito amor de Dona Estela. Um dia, Maryangela foi acordar Dona Estela e Dona Estela não acordou. E aí foi um baque, um baque para Penélope… — Um baque, gente… — E ela falou: “Andréia, muito engraçado, um velório… Assim, pensa: Todas as travestis que você puder imaginar que frequentavam o meu salão amavam a Dona Estela. Estavam todas no velório, todas lindas, montadas e chorando. E todo mundo lá também, os parentes e tal, falando: “meu Deus, a turma da Estela”. [risos] E foi realmente um baque que Penélope pensou até em se mudar, né? Porque tudo lembrava a Estela. Mas ela tinha uma afinidade muito grande também com a Maryangela… E, pô, você está num prédio que você se dá com todo mundo, ninguém te enche o saco, o apartamento é bom, espaçoso, três quartos, o seu vizinho da frente é ótimo, que agora era a Maryangela, ela falou: “Ai, Andréia, não mudei, fiquei aqui… Mas muita coisa ainda me lembra a Dona Estela e esse amor que nasceu entre a gente”, porque Dona Estela era muito ranzinza, mas amava muito a Penélope, fazia tudo pela Penélope… Na frente da Penélope ela não falava, mas pra Maryangela ela falava: “Vai lá buscar, não sei, tal coisa na casa da sua irmã”, falava que tinha duas filhas e que a outra filha dela era a Penélope.
Defendia a Penélope na rua e Penélope descobriu depois de Dona Estela morta já, que uma vez ela fez um barraco numa farmácia lá do bairro, porque a moça foi falar da Penélope e ela falou: “Penélope é mais mulher que você”, gritou, derrubou, coisa da farmácia, [risos] foi um caos defendendo aí a sua filha Penélope. — E ranzinza, hein? E chata… [risos] E braba… Mas amava Penélope e Penélope também amava muito aí Dona Estela, eu achei uma história muito fofa e uma história que enche o nosso coração de amor de ver que quando não se tem preconceito, a gente consegue ter relações melhores com todo mundo. — O que vocês acham?
[trilha]Assinante 1: Oi, nãoinviabilizers, quem fala é Bianca, de Porto Alegre. Essa história me fez pensar que pessoas ranzinzas existem muito provavelmente porque elas não encontraram almas doces e delicadas e queridas que nem a Penélope, que foi incrível desde o início se apresentando para todo mundo, querendo ter uma boa relação com os vizinhos… Isso diz muito sobre quem você é e me inspira muito a ser uma pessoa assim também, uma pessoa melhor, uma pessoa preocupada e dedicada para os outros. Isso faz uma diferença enorme no mundo. São pessoas como você que fazem do mundo especial. Então, muito obrigada pela sua história, me emocionou demais.
Assinante 2: Olá, nãoinviabilizers, eu sou o Léo, de Lorena, interior de São Paulo. E, nossa, histórias que tem personagens travesti mexem muito comigo… História linda dessa, eu chorando enquanto faço o almoço, porque realmente é a imagem de viver uma vida em que você cada casa que você passa, você tem que expor sua vida e sua intimidade para vizinhos, para tentar ter um pouquinho de paz e um pouquinho de respeito ali naquele ambiente… Aí você bate na porta de uma senhorinha ranzinza, que quase que bate a porta na sua cara [risos] e dali seja uma história tão linda dessa, cara… Que lindo, que lindo, que lindo… Ai, eu tô apaixonado. Muito sucesso para você, Penélope, que você continue sendo feliz e encontrando pessoas cheias de amor para te dar, assim… Ai, meu coração tá quentinho, que delícia de história. Amei, amei demais. Obrigado, Déia, obrigada, Penélope por compartilhar a história tão bonita. Abraço.
[trilha]Déia Freitas: Já amo Penélope, já amo Dona Estela e é isso, gente… Comentem lá no nosso grupo do Telegram, sejam gentis aí com Penélope. Dona Estela era realmente ranzinza, não tem jeito… Era sim. Mas também era muito amorosa com quem ela gostava, com quem ela não gostava, ela não olhava nem na cara, não dava nem bom dia. Essa era Dona Estela, mas nunca foi ruim, tá? Penélope falou aqui: “Não quero ninguém falando mal da minha mãe no grupo, porque ela nunca foi ruim, nunca fez maldade, só olhava de cara feia e não falava bom dia”. Então é isso. [risos] Um beijo, gente, e eu volto em breve.
[vinheta] Quer sua história contada aqui? Escreva para naoinviabilize@gmail.com. Amor nas Redes é um quadro do canal Não Inviabilize. [vinheta]