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título: carpete
data de publicação: 21/10/2024
quadro: luz acesa
hashtag: #carpete
personagens: matias

TRANSCRIÇÃO

[vinheta] Shhhh… Luz Acesa, história de dar medo. [vinheta]


Déia Freitas: Oi, gente… Cheguei. Cheguei pra mais um Luz Acesa. E hoje eu vou contar para vocês a história do Matias. Então vamos lá, vamos de história.

[trilha]


O Matias é um engenheiro que trabalha na pavimentação de estradas e rodovias e a empresa que ele trabalha é alocada aí para vários lugares do Brasil e até alguns lugares fora do Brasil. Quando tem uma obra para iniciar, o Matias tem que estar junto, tem que acompanhar pelo menos aquele início da obra até ele ir para outra obra. Geralmente a empresa ou aluga uma casa ou um apartamento para ele ficar, né? Tem a galera mais, assim, a peãozada mesmo, que vai ficar num outro tipo de alojamento — a gente já vê aí que também rola um recorte socioeconômico aí, [riso] os engenheiros tem direito a um apartamento, a uma casa e a galera que vai trabalhar realmente ali botando asfalto, eles montam um alojamento —, o apartamento ou a casa que a empresa alugar é onde você vai ficar, né? — Então você também não escolhe não escolhe onde você quer ficar… Você já vai com um endereço pronto de onde você vai permanecer aquele 30 a 40 dias. —

O Matias foi alocado pra iniciar a obra da pavimentação de uma estrada no interior, vamos dizer, aqui do Mato Grosso… — Não é Mato Grosso, mas vamos botar Mato Grosso. — Matias foi lá pro interior do Mato Grosso e, assim, Matias que nunca — nunca — presenciou nada sobrenatural, nada… A mãe do Matias conta para ele que quando ele era bem nenenzinho, ele ficava olhando para as paredes e rindo… Às vezes pegava, por exemplo, uma bolinha ou uma caneta e falava para alguém que não existia na frente dele: “Toma”, sabe assim? Como se ele estivesse conversando com alguém, enfim… A mãe do Matias — que a gente pode te chamar aqui de “Dona Yara” —, Dona Yara sempre achou que o Matias, quando criança, via coisa. Mas aí cresceu, o Matias nunca viu nada, enfim, nunca nem acreditou em nada. Quando o Matias chegou na casa que foi alugada pra ele, era uma casa… Era ele e um outro engenheiro, só que o outro engenheiro viria só depois que ele fosse embora. — Então, o Matias ia ficar ali 45 dias e depois o outro engenheiro que ia dar sequência na obra é que viria o Matias. O Matias ele sempre inicia a obra. —

Primeira coisa que o Matias achou estranho: Era uma casa pequena, relativamente pequena, dois quartos pequenos, sala, cozinha, banheiro e toda a casa, inclusive o banheiro, tinha carpete… E um carpete mais alto ainda, um carpete fofo, sabe? E o Matias ficou sem entender. A sorte é que a casa tinha ar—condicionado, mas se ele andasse descalço, era muito quente assim, porque tinha um carpete grosso no chão. E Matias, além de achar aquilo de extremo mau gosto, achou péssimo… — Como que uma casa nesse calor com carpete no chão? — Matias também ficou sabendo que quem colocou esse carpete tinha sido o inquilino anterior. O inquilino anterior tinha ficado na casa um ano. Ele fica sabendo isso pelo vizinho, o vizinho só falou isso, parecia que não queria muita conversa com Matias e, enfim, passou. Naquele primeiro dia o Matias estava muito cansado, nem desfez direito as malas, né? Ele tinha deixado as coisas meio que espalhada pelo quarto, deitou, apagou e acordou de manhã…

Matias foi para a obra — segundo dia que ele ia para obra — e resolveu voltar pra almoçar em casa. O Matias tem o hábito de cozinhar a própria comida… No primeiro dia que ele chegou a noite, ele já tinha feito algumas coisas e deixado pronto para o dia seguinte. —Para ele poder almoçar em casa, que ele gosta de almoçar a comida dele, comida mais caseira, enfim… — Quando Matias chegou, ele percebeu que a mala dele, que estava no quarto, estava no corredor…  [efeito sonoro de tensão] Só que o Matias ficou em dúvida…  — Ele ficou em dúvida, de repente, ele foi procurar alguma coisa, esqueceu onde estava a mala, enfim… — Foi lá e fez o prato dele… — Essa casa era uma casa mobiliada, né? — Ele botou no micro—ondas, era um micro—ondas mais antigo, então que demorava para esquentar comida e ele ficou por ali… Quando Matias está na cozinha esperando o prato dele esquentar, ele percebeu na sala uma sombra. Matias na hora correu até a sala… — Se fosse eu, corria ao contrário, mas ele correu para a sala. —

Ele não viu a sombra porque a sombra passou pela parede, né? Então saiu da parede… Mas no chão, no carpete, ele viu  — era um carpete fofo — pegadas.  Como se tivesse alguém que ele não está vendo andando naquele carpete fofo. Na hora, o Matias não entendeu, porque ele não tinha ninguém na frente dele e ele tava vendo o carpete afofar com pegadas de uma pessoa, assim, pesada… Ele resolveu voltar pra cozinha, na cabeça dele aquilo não aconteceu. Matias foi, tirou o prato dele do microondas, colocou o prato em cima da pia para poder fechar a porta do microondas — porque ele pegou o prato com as duas mãos, era um pratinho caprichado, né, Matias? —, quando o Matias botou o prato na pia, fechou o microondas e virou [efeito sonoro de tensão], na frente dele tinha um homem enorme… — Enorme, assim, de pesado e alto. — E esse homem estava todo sujo de carvão. — Pra você ter uma ideia do tamanho desse cara, o Matias tem 1,80 e o rosto dele dava no peito do cara. —

O Matias foi levantando a cabeça pra olhar pra esse cara — porque até então era um homem que invadiu a casa dele —, o cara tava com os dentes todos podres e o olho só tinha a parte branca, que eu não sei o nome da parte branca do olho… — Então, “partezinha branca do olho”. — Na cabeça do Matias: “O cara deve ser uma pessoa em situação de rua, cega, que invadiu minha casa”… Quando o Matias fez menção de pegar no braço, pra sei lá, ajudar e falar: “Olha, eu estou aqui…”, alguma coisa nesse sentido, esse homem desapareceu da frente dele. O Matias olhou para a mão e a mão do Matias estava suja de carvão. Esse era o único indício de que aquilo tinha acontecido, mas ainda assim o Matias ficou pensando: “Poxa, será que eu botei a mão em algum lugar aqui que estava sujo?” e meio que jogou aquilo pra conta da mesma coisa do carpete que ele tinha visto. Matias almoçou tranquilo e voltou a trabalhar… Fim da tarde, Matias voltou para casa, tomou um banho e, a partir daí, várias coisas começaram a acontecer. 

O Matias via o carpete pesado agora com marcas de pegada — então, pensa, gente… Você ver o carpete afundando — em várias direções, parecia que não tinha só uma pessoa andando por aquela casa, parecia que tinham várias pessoas… Este homem enorme que ele viu, ele não viu mais, mas uma noite ele viu um outro homem… Dessa vez pequeno, também sujo de carvão e chorando, muito magro, assim, chorando… Matias não tinha como mudar de casa, não tinha como conversar com alguém para contar o que estava acontecendo porque nem ele acreditava no que estava acontecendo. E aí ele foi tentar falar com um outro vizinho… E aí o vizinho — que a gente pode chamar aqui de “Seu Ramires” — deu a letra para o Matias, falou: “Olha, esse bairro aqui todo era um lugar de extração de carvão, essas coisas e depois virou um bairro residencial… E muita gente daqui vê coisa. A gente acha que são mineiros que morreram ou soterrados ou, de alguma forma, morreram aqui presos em algum lugar, sei lá, numa mina de carvão, alguma coisa assim, né?” e Matias ficou em dúvida, falou: “Será?” e ele falou: “Bom, aqui todo mundo já viu alguma coisa… Tem épocas que fica bem pior. A casa onde você está é a casa que mais acontece… Tanto que o meu compadre, que morava nessa casa, alugou para um outro compadre nosso que conseguiu ficar um ano e ele colocou o carpete porque as pegadas eram tão fortes no chão, no piso, que ele ficava ainda mais assustado. Então, com o carpete, ele conseguia fingir que nada estava acontecendo e ele conseguiu ficar nessa casa por um ano”.

O Matias disse que um dia ele chegou e tinha uma mão de carvão na parede… Às vezes estava andando pela casa, fazendo uma coisa ou outra e tinham mais pessoas andando pela casa junto com ele. O Matias ficou por 30 dias nessa casa, foi chamado pra voltar antes e o engenheiro que foi substituir o Matias, ficou nessa casa dois dias, passou mais três dias dormindo no carro e falou na empresa que se ele não fosse realocado para outro lugar — ele não queria ficar nem mais na cidade — ele ia pedir as contas. E aí a empresa, sei lá, em vez de conversar com ele, alguma coisa, realmente deu as contas para ele. E aí o Matias teve que voltar para essa casa que já estava alugada por temporada, porque o cara se demitiu… Ele voltou pra essa obra e ficou mais dois meses… — Passando por isso, assim… — Em nenhum momento o Matias pensou em chamar padre, chamar… O Matias não é nada religioso, ele queria só resolver o problema… Depois ele acabou achando a solução do carpete muito boa, porque pensa você escutando passos o tempo todo… — Pelo menos o carpete ali segurava a onda da galera. —

E a vez que ele ficou mais assustado, foi uma vez que ele tava tomando banho, assim, e era um banheiro que não tinha box… — Sabe assim que você depois tem que puxar água com rodo e tal assim? — A única parte que não tinha carpete era a parte do box, porque ali perto do vaso já tinha carpete, então molhava, era um caos… Mas era assim. Um dia ele tava no banheiro e ele virou de costas, assim se esfregando, sei lá, quando ele virou de frente de novo, o banheiro era pequeno, tinha umas seis pessoas, uns seis homens, todos sujos de carvão nesse banheiro… E aí ele assustou porque parecia que esses homens estavam vindo pra cima dele. E aí o Matias falou: “Andréia, aí eu tive um apagão. Eu não sei bem o que aconteceu depois, sei lá… Depois eu dormi”. Eu falei: “Então quer dizer que você desmaiou de susto?” [risos] Ele não admite… Matias não admite que desmaiou de susto, mas acho que ele desmaiou de susto. E aí acordou e sei lá, né? Foi pra cama… Ele aguentou firme e concluiu lá o trabalho e eu falei pra ele, falei: “Por que você não vai dormir no alojamento com a galera?” e falou: “Ah, porque aí eu vou tirar a privacidade dos caras, né? Eles já têm o esquema deles e tal. Então eu falei: “Também não vou estragar a estadia dos outros aqui, né?”

E ele falou: “Eu até podia, sei lá, eu pagar do meu bolso um outro lugar, mas achei desaforo também”, e aí o Matias resolveu conviver aí com esses homens… Eram só homens dentro da casa que ele estava. E que louco isso do carpete, né? Num lugar quente assim… E meio que resolveu, né? Então o cara que tava antes, que ficou um ano, também conviveu aí com esses fantasmas, sei lá, assombração. — Você vê o trabalhador? Trabalhador precarizado… Porque, né? Trabalhar com carvão, os caras todos sujos, pensa em que condições que eles morreram, né? Agora eles deviam ir assombrar, sei lá, o dono da mina, da mina de carvão, do negócio de carvão, né? Tinha que assombrar lá os chefes, não o pessoal da classe trabalhadora, porque o engenheiro Matias também é da classe trabalhadora. — Eu fico imaginando o quanto é assustador é você olhar para um carpete assim no chão e só ver ele afundando, as pegadas… Com o barulho mais, assim, fofinho, né? Só olhando, olhando e vendo essas pegadas tão indo para longe de você ou tão vindo na sua direção… Porque tem isso. 

Perguntei para o Matias se nenhum espírito tocou nele e ele falou: “Parece que eles não tinham força assim… Eles só andavam, andavam, andavam e se lamentavam” e teve uma vez que ele viu lá aquele que era um cara mais franzino, assim, chorando. Então, será que eles achavam que eles estavam na mina ainda trabalhando? Muito louco isso, né? O que vocês acham?

[trilha]


Assinante 1: Oi, Déia, oi, nãoinviabilizers, aqui é a Raquel que fala de Portugal. Quando uma pessoa morre, no Espiritismo é explicado que ela morre na situação que ela estava e, nesse caso, os trabalhadores da extração de carvão morreram extraindo o carvão. O que é muito triste, porque com certeza eles estavam numa num trabalho muito insalubre e esse trabalho às vezes tem até escravidão no meio, então não era uma coisa muito leve, não. Óbvio que você não ia expulsar os espíritos daí em dois, três dias, porque precisava de um trabalho enorme nessa casa. Então, se eu fosse você, tinha ido lá para o alojamento, ficar lá com os caras, dizer: “Ô, peço licença, mas aquela casa mal assombrada, não quero ficar lá sozinho. Posso ficar aqui?”, [risos] você podia até ser zoado, mas é melhor ser zoado do que dormir com os espíritos na casa e morrer do coração, [risos] que acho que aconteceria isso comigo. 

Assinante 2: Oi, gente… Aqui quem fala é o Vinícius de Belo Horizonte. E essa história do carpete me deixou muito cismado pelo fato de ser uns fantasmão grande e, pelo jeito forte, e assustador… O que me chamou a atenção nessa história é que, pelo que se sabe, esses espíritos acabam só ficando vagando por ali e a gente vê muitos relatos do Luz Acesa que a terra é habitada por gente viva e por gente morta. Mas essa percepção que o Matias tem desses espíritos me fez pensar que isso poderia provocar uma interação desses espíritos ali com ele e é justamente aí que pega a minha cisma… Se são grandes e pesados desse jeito, eu fico imaginando se eles se tornam agressivos. Eu mesmo daria um jeito de me proteger e, principalmente, ficar longe dessa casa, se possível até mesmo dessa cidade. 

[trilha]

Déia Freitas: Então, essa é a história do Matias, comentem lá no nosso grupo do Telegram. Sejam gentis. — Deus me livre… — Um beijo e eu volto em breve.


[vinheta] Quer sua história contada aqui? Escreva para naoinviabilize@gmail.com. Luz Acesa é um quadro do canal Não Inviabilize. [vinheta]