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título: casa roxa
data de publicação: 02/12/2024
quadro: luz acesa
hashtag: #casaroxa
personagens: milton, clebinho e marcelo

TRANSCRIÇÃO

[vinheta] Shhhh… Luz Acesa, história de dar medo. [vinheta]

Déia Freitas: Oi, gente… Cheguei. Cheguei para um Luz Acesa. E um Luz Acesa com zona cinza. Hoje vou contar para vocês a história do Milton. Então vamos lá, vamos de história.

[trilha]

Milton se mudou aí para uma cidade de Minas Gerais e, quando ele estava procurando casa, ele rodou bem até achar uma casa boa, porque ele queria casa, ele não queria apartamento o Milton… E aí ele achou uma casa de três quartos muito boa, muito espaçosa e que tava com um valor, assim, de aluguel, vai… Digamos que o aluguel da casa — numa casa de interior, cidade pequena — fosse, sei lá, R$1.500, a casa tava por 900 de aluguel. — Estranho, né? — Mas era uma casa muito boa, espaçosa, arejada e o Milton falou: “Bom, é aqui que eu vou ficar os próximos três anos”. Pra não exagerar, o Milton foi lá e fez o contrato com a imobiliária de um ano de aluguel, né? — Pra ir pagando mensalmente e tal. — Deu ali o depósito, fez tudo certinho… — E o que era bom numa casa grande? — O Milton tinha muitos amigos que moravam aí na capital de onde ele tinha vindo e tal e carnaval, feriado, já tava todo mundo empolgado pra ir aí pra casa do Milton. — Casa que ele tinha ali alugado. —

Milton fez a mudança dele e na primeira semana aquela bagunça, caixa para todo lado e Milton foi se ajeitando… E a primeira coisa que ele arrumou foi o quarto, pelo menos ele ia estar com a cama ali com as coisas ajeitadas, pra ele poder descansar e durante a semana e arrumando as coisas. O Milton tava de férias, ele trabalhando no sistema de teletrabalho, em casa, então fazendo seu home office… Então, como ele estava de férias, ele tinha tempo para fazer as coisas, então ele falou: “Bom, eu vou encaixotando as coisas com calma E vou primeiro tirar as coisas do quarto, que assim eu já fico… Eu já tenho um lugar para dormir quando eu estiver cansado”. assim o Milton fez e arrumou as coisas ali do quarto e deixou as outras caixas espalhadas pela sala e cozinha… E os outros dois quartos o Milton falou: “Bom, a hora que a galera vier, a gente faz aí uma vaquinha, compra uns colchões, umas coisas”, porque também ele não tinha grana pra mobiliar dois quartos ali pra galera, né? Então ficou combinado que a galera que vinha todo mundo ia fazer um rateio, comprava uns colchões e botava pelo chão e era isso… Milton ajeitou as coisas que deu, deixou aqueles outros dois quartos completamente vazios, com as portas fechadas e foi para o banheiro tomar banho. 

Enquanto Milton tá lá tomando banho, [efeito sonoro de água caindo] ele percebeu um barulho de caixas e de portas… E ele se assustou, porque ele tava sozinho na casa, mas a porta  da sala e da cozinha que dava para o quintal e a porta da frente da sala dava para uma varanda, estava aberta… Porque, sei lá, cidade do interior, ele falou: “Agora aqui eu vou ter um pouco de tranquilidade”, o Milton ali embaixo do chuveiro, isso era umas 17h da tarde, ele falou: Meu Deus do céu, meu primeiro dia aqui e já entrou bandido?”, e aí ele se enrolou na toalha e resolveu trancar a porta do banheiro, porque Milton falou: “Eu não sou valentão, [risos] não ia encarar bandido nenhum… Meu celular tava ali comigo, mas assim, laptop da empresa e essas coisas iam roubar”. E aí aquele barulho de caixa caindo e de porta batendo durou uns 20 minutos… Milton, recém chegado na cidade, ficou com receio de ligar 190 e não ligou… Quando ele viu que estava tudo silêncio, ele já se preparou pra sair e, de repente, achar tudo revirado. — Ele quis dar tempo para o bandido ir embora… Na verdade, o Milton não queria o confronto, nem dele com os bandidos, nem de, de repente, chegar a polícia e rolar tiro, enfim, né? —

Falou: “Bom, dos males o menor, que aí eu fico sem as coisas, enfim”. Quando ele saiu, ele percebeu que as portas dos dois quartos estavam fechadas, a porta do quarto dele, que antes estava aberta, agora estava fechada e, quando ele abriu, ele tinha deixado o quarto bem arrumado… O quarto estava todo revirado. A roupa de cama tinha sido arrancada, uma caixa que ele tinha deixado no chão de coisas pessoais dele, do lado da cama, estava de cabeça para baixo. E as caixas da sala e da cozinha estavam também todas espalhadas. Só que nada tinha sido levado… O laptop dele, que estava em cima da mesa da cozinha, estava lá. E aí o Milton ficou sem entender o que tinha acontecido ali, olhou a casa toda, viu que não tinha ninguém ali dentro, trancou as portas, foi terminar o seu banho e ficou naquela: “Meu Deus, será que algum vizinho entrou aqui, revirou, não achou nada de útil”. E na hora, depois que ele tomou banho, ligou para a mãe dele, a mãe dele já ficou aflita, preocupada e tal… Passou… 

Quando deu ali umas sete horas, o Milton resolveu ir até uma pizzaria que tinha no final da rua dele comprar uma pizza, Milton foi até a pizzaria e chegando lá, como ele não conhecia ninguém, ninguém conhecia ele, o dono da pizzaria perguntou: “Onde você está morando e tal?” e ele falou “Eu estou morando ali naquela casa roxa…”. — Que era uma casa meio lilás, assim, mas ele falou “casa roxa”. E aí o cara falou: “Ah, sei… Você está morando lá? Há quanto tempo você está morando lá na casa roxa?”, e aí ele falou: “Eu cheguei hoje cedo, eu vim aqui semana passada e tal pra fechar as coisas, mas me mudei mesmo hoje cedo” e falou: “Ah… Você se mudou hoje… E o que que você tá achando?” e, assim, o tom de voz do cara da pizzaria era muito estranho. E aí o Milton falou: “Ah, tá tudo bem assim”, ele resolveu não falar que alguém tinha entrado na casa dele e revirado… — Eu já tinha contado para todo mundo, enfim… Mas ele ficou quieto. — E aí ele foi e pegou a pizza dele, o cara ainda deu um refrigerante pra ele de brinde e falou pra ele, falou: “Boa sorte”, — “Boa sorte”? —

E aí, Milton voltou para casa e quando Milton saiu, ele trancou a porta da sala. Quando ele voltou, a porta da sala estava aberta… E aí já estava escuro, a casa que o Milton tinha deixado toda acesa, estava toda apagada, e aí sim o Milton resolveu chamar a polícia. [efeito sonoro de sirenes de polícia] A polícia demorou 20 minutos pra chegar, o Milton ficou do outro lado da rua com a pizza na mão, refrigerante na mão, tremendo… A polícia chegou, o pessoal da rua dele saiu para ver o que estava acontecendo e a polícia entrou na casa e não achou nada e nem ninguém. E aí sim o Milton foi contar o que tinha acontecido… Só que ali a vizinhança começou a fofocar, assim… E uma vizinha — que nem era vizinha de muito perto dele, era tipo, sei lá, da outra ponta da rua — falou pra ele, falou: “Eu já vou ser sincera com você, que pode ser que, sei lá, que você não acredite… Mas essa casa estava fechada há mais de três anos porque ela é assombrada”. E aí o Milton deu uma risadinha nervosa, porque a polícia já estava ali com ele… E aí o policial, PM da cidade, falou pra ele, falou: “É verdade, meu irmão, essa casa aí tem muita história”.

Primeiro dia do Milton na casa, ele sozinho, sabendo do fato que a casa era mal—assombrada… Só que ele não quis saber mais coisa. — Eu já ia querer perguntar tudo para vizinha para saber com o que eu ia encontrar pela frente. — Milton entrou com a pizza, a pizza já fria, ele já sem fome, refrigerante já quente… Milton guardou a pizza na geladeira e o refrigerante e “agora vou dormir”, porque isso já tinha passado, sei lá, quase duas horas… Já era quase dez horas da noite… Milton deitou umas dez e pouco da noite e, assim que ele deitou, um pouco antes ele conseguir pegar no sono — sabe quando você já está quase? —, bruscamente as cobertas que estavam na cama, ali em cima do Milton, elas foram arrancadas… E Milton tava dormindo com a luz acesa, o Milton tinha instalado persiana dessas que é a veneziana que chama, assim, toda listradinha, assim, com buraquinho que dá pra você ver para a rua. Ele tinha colocado essa persiana e ele viu alguém fazer… Sabe quando você passa o dedo pra cima e ela levanta? Todas aquelas abinhas levantam e descem? Ele viu alguém fazer isso com o dedo nas persianas. 

Milton estava deitado, petrificado… Isso era a primeira noite do Milton na casa. Milton com muito medo, puxou a coberta de novo que estava no chão pra cima dele… E fez… Sabe quando você faz como se você fosse um rolinho primavera? [risos] Milton se fez de rolinho primavera e depois de muito tempo, ele pegou no sono com a luz acesa mesmo e dormiu. No dia seguinte, ele ligou na imobiliária e a imobiliária disse que não poderia devolver caução e que tinha multa no contrato, enfim… O Milton ia ter que ficar naquela casa. Isso era o segundo dia e, a partir daí, o Milton começou a ver uma mulher dentro daquela casa. E como era essa mulher? Ela tinha seus 60 anos, ela tava com um vestido preto, assim, mais ou menos até o joelho e com um xale preto nos ombros e com uma blusa, assim, meio bege, meio cremezinha… Só que essa blusa creme estava muito suja e ela andava pela casa… E ela tinha uma respiração… — Sabe a respiração de quando você tá brava? — E ela andava assim pela casa… O Milton começou a fazer uma rotina de acordo com como ele via essa mulher dentro dessa casa roxa… 

Se ela estava, por exemplo, andando na sala, o Milton desligava a TV e ia para o quarto. Milton que não rezava, não fazia nada, aprendeu a rezar Pai-Nosso, Ave Maria e o Credo, né? “Creio em Deus Pai” e rezava toda noite. Ele disse que quando ele rezava, ele não sabe se isso fazia com que ele dormisse melhor, se era um placebo ou se realmente essa mulher não aparecia pra ele. Só que era tudo muito assustador… E o Milton ele não tinha dinheiro para pagar a multa nem pra se mudar. — E agora aqui a gente entra na zona cinza. — Paralelo a tudo isso, Milton ia falando pra galera dele, pros amigos, que estava tudo bem, que tudo ótimo, que a cidade era ótima e que tudo era perfeito e nã nã nã… Por quê? Porque quando Milton se mudou pra lá, dois amigos dele, que a gente pode chamar aqui, sei lá, de Marcelo e Clebinho, falaram: “Milton, se lá for legal, a gente está com nosso aluguel aqui pra vencer, a gente não renova o contrato e vai morar com você”. Milton viu ali uma oportunidade de não passar medo sozinho… Então ele começou a falar muito bem da casa, de tudo para esses amigos, para o grupo ali de amigos e quando deu ali um mês de Milton aterrorizado com aquela mulher naquela casa, os amigos disseram que iam morar lá com ele. — Também eram amigos que trabalhavam de home office e iam passar esse ano com o Milton lá naquela casa. —

A primeira vez que ele tinha visto aquela mulher foi uma vez que ele estava na cozinha fazendo, sei lá, fritando um ovo, e quando ele virou para trás para pegar alguma coisa na geladeira, a mulher estava em frente a geladeira bufando, com muita raiva… Os amigos vieram, eles pagaram… — Então, assim, dividiram a caução e tudo… Então assim a galera ia ter que ficar lá aquele ano. — E no primeiro dia, Clebinho já foi arrumar as coisas no quarto dele, porque ele levou só mobília de quarto, essas coisas, e eles tinham distribuído as coisas de cozinha que eles tinham, porque eles moravam juntos, né? O Marcelo e o Clebinho. Então eles venderam algumas coisas e tal, porque o Milton já tinha a maioria das coisas. Então, assim que Clebinho terminou de montar as coisas no quarto dele, que ele foi dar uma relaxada na cama, ver um vídeo no celular, no pé da cama dele, apareceu essa mulher com o xale no ombro, nervosa… Clebinho já viu de cara, porque antes o Milton só via as coisas mexendo, não via mulher, né? Ela levantou a beirada do colchão, como se quisesse jogar o Clebinho para fora do colchão. 

E como ela se materializou na frente da cama, o Clebinho viu que ela não entrou pela porta, porque a porta estava fechada… O Clebinho já começou a gritar… E aí o Milton, nessa hora, em vez de contar o que ele sabia, ele fez bem o sonso e deixou rolar… Clebinho também não tinha muita opção, porque já tinha devolvido o apartamento e tal… Marcelo era o que menos via coisas, então Marcelo falou que um dia ele tava lá sentado, comendo na cozinha e alguém, que deve ser essa mulher, porque o Marcelo não via essa senhora, só quem via era o Milton e o Clebinho, alguém bateu no copo dele e o copo dele voou longe, assim… Jogou o refrigerante no chão, caco de vidro, enfim… O Marcelo via coisas pontuais, assim… Então ele não ficava tão assombrado, né? Mas Clebinho ficou tão assombrado com a história que chegou uma época que ele falou: “Eu vou pagar o aluguel, não vou furar, sou firmeza e tal, mas eu vou voltar a morar com a minha mãe, porque eu não aguento mais ficar aqui”. E o Marcelo e o Milton ficaram na casa, cumpriram um ano de contrato… — Ainda bem que ele não fez contrato de três anos, né? Foi só de um ano… — E depois disso eles saíram. 

E o boato que corria ali no bairro, porque depois quem foi atrás para saber o que estava acontecendo, era o Marcelo… Era que uma mulher tinha sido abandonada pelo marido naquela casa e essa mulher, ela tinha ficado muito com muita raiva do marido e ela tinha se enforcado naquela casa roxa. Se essa é a história real, não se sabe, foi o que o Marcelo conseguiu apurar… E até hoje os amigos, talvez não agora, porque Milton disse que ia contar para os amigos que ele já sabia que a casa era mal—assombrada… Até então ele não tinha contado e tinha feito o sonso, mas quem se afetou mais foi o Clebinho mesmo, que foi morar com a mãe e continuou pagando o aluguel direitinho. — E a zona cinza é essa, né? Que o Milton… Eu jamais faria isso com meus amigos… Eu ia contar e, sei lá, talvez pedisse uma força, pra galera me ajudar a pagar a multa e depois ia devolvendo aos poucos, sei lá, alguma coisa assim, sabe? Pra eu sair da casa e não pra chamar duas pessoas que, sei lá, eu amo e considero pra morar comigo numa casa mal—assombrada. Então, assim, eu não concordo com o que o Milton fez, mas ele falou: “Andréia, eu nem pensei direito assim… Foi mais uma questão de sobrevivência, porque eu estava muito assustado e ter dois amigos meus assim, bem chegados, junto comigo, eu achei que a gente pudesse enfrentar aquilo melhor”, mas eu ainda acho que então você tinha que ter contado, falar: “Vocês vêm morar aqui comigo, mas a casa é mal assombrada, beleza? Vamos fazer isso junto?”. Eu acho que tinha que ser assim, sei lá… — O que vocês acham?

[trilha]

Assinante 1: Olá, nãoinviabilizers, Ceci, dos Estados Unidos. Milton, se alguém fizesse isso com você, como é que você se sentiria? Espero que o karma te encontre e te abrace bem forte, tá? Que seus amigos estejam melhores do trauma que passaram, especialmente o Clebinho. O primeiro zona cinza que eu fico com raiva do ser. [risos] Sacanagem. Mas cada um, cada um, né? Beijos. 

Assinante 2: Oi, Déia, oi, nãoinviabilizers, aqui é a Raquel, falo de Portugal. Milton, pra quê que existe inimigo se tem tu? [risos] Meu Deus do céu… Coitado do Clebinho, nunca mais vai conseguir ficar num quarto sozinho e nem morar sozinho porque viu essa mulher. Tu também vacilou. Tu devia ter perguntado pra vizinha qual era a história, pra polícia, sei lá, a galera ali sabia a história e tu em vez de perguntar qual era a história, ainda chama os amigos por morar numa casa mal assombrada. Coitado, ainda traumatizou o Clebinho. Ê, Milton, essa malandragem aí, esse vacilo, eu não concordo. 

[trilha]

Déia Freitas: Comentem lá no nosso grupo do Telegram, sejam gentis com o Milton… No final deu tudo certo, todo mundo ficou bem, mas o Clebinho voltou a morar com a mãe esse um ano e foi firmeza, pagou o aluguel, pagou tudo certinho, porque ele não deu conta de ficar lá com essa mulher brava andando pela casa. Então é isso, gente, um beijo — Deus me livre —, e eu volto em breve. 

[vinheta] Quer sua história contada aqui? Escreva para naoinviabilize@gmail.com. Luz Acesa é um quadro do canal Não Inviabilize. [vinheta]