título: casamento precoce
data de publicação: 29/01/2026
quadro: alarme
hashtag: #precoce
personagens: amanda

TRANSCRIÇÃO

Este episódio possui conteúdo sensível e deve ser ouvido com cautela.

[vinheta] Atenção, Alarme. [vinheta]

Déia Freitas: Oi gente… Cheguei. Cheguei para mais uma história do quadro Alarme, o quadro onde, além de contar histórias, a gente presta um serviço à comunidade. — E hoje eu não estou sozinha, meu publiii. — [efeito sonoro de crianças contentes] Quem está aqui comigo hoje é o UNFPA, atuando em mais de 150 países para promover os direitos e as escolhas de mulheres, meninas e jovens. O UNFPA é a agência da ONU para a saúde sexual e reprodutiva que busca garantir que todas as pessoas tenham acesso a informações corretas sobre seus corpos e direitos, serviços essenciais de saúde e proteção contra a violência. O casamento precoce ou casamento infantil é um assunto muito sério e uma grave violação de direitos humanos.

O casamento precoce ou casamento infantil não pode e não deve ser encarado como algo natural ou culturalmente aceitavel. 640 milhões de mulheres e meninas no mundo se casaram antes dos 18 anos. No Brasil, o Censo de 2022 registrou 1.14 milhões de jovens de 10 a 19 anos vivendo em algum tipo de casamento. Desses, mais de 34 mil jovens tinham de 10 a 14 anos. Apesar do casamento ser legalmente proibido para menores de 16 anos desde 2019, essa prática persiste, principalmente em uniões sem registro civil ou religioso, que ainda assim configuram uma violação dos direitos humanos. Cerca de 69% das crianças são pretas ou pardas e a região nordeste concentra 39% dos casos, seguida do sudeste com 25% e do norte com 17%.

E as consequências são severas, como o maior risco de violência sexual e física, abandono escolar, gravidez precoce, complicações obstétricas e perda de autonomia para decidir aí o próprio futuro. O UNFPA enfrenta essas questões de forma direta, alcançando milhões de mulheres, meninas e jovens todos os anos, acreditando que somente quando todas as pessoas tiverem acesso a informações corretas, cuidados de qualidade e liberdade para fazer escolhas com segurança e dignidade, é que poderão realizar seu pleno potencial e assim ajudar a construir um futuro melhor para todo mundo. Faça a sua doação para o Fundo de População das Nações Unidas e seja parte dessa missão que salva vidas. — Eu vou deixar o link certinho aqui na descrição do episódio. — E hoje eu vou contar para vocês a história da Amanda. Então vamos lá, vamos de história.

[trilha]

A Amanda foi criada pela sua tia avó — tia da sua mãe biológica —, a mãe da Amanda não conseguiu criar a filha por questões financeiras e também algumas questões emocionais, então ela achou melhor deixar com a Heloísa. — Essa tia-avó. — Amanda foi muito bem criada, considerando a Heloísa sua mãe. Quando Amanda fez 15 anos, ela resolveu morar com a sua mãe biológica e, na mesma época, ela conheceu um rapaz chamado Jackson. Jackson, trabalhador, tratava a Amanda muito bem, eles riam muito juntos… Era um relacionamento que tinha tudo para dar certo, só que nessa época, a mãe da Amanda era muito fanática religiosa. A mãe biológica da Amanda descobriu esse namoro e falou: “Não, ele é uma pessoa fora da nossa igreja, eu não aceito esse namoro. Acabou… Olha, eu vou mandar você lá pra sua bisavó, lá em Pernambuco, Dona Celinha”. 

Ela entrou em contato com o pai biológico da Amanda — com quem a Amanda não tinha contato nenhum — e pai da Amanda foi lá e ameaçou o Jackson. Amanda foi viver lá com sua bisavó, Dona Celinha, né? E, na época, era muito fã de uma banda específica de rock. — Vamos dar um nome para essa banda de rock? Black Pônei. — E a Amanda resolveu entrar aí para um fã clube… Ela conheceu muita gente e, entre essas pessoas, ela conheceu um cara, só que esse cara tinha 48 anos. — Era 33 anos mais velho que a Amanda, que tinha 15 anos. — Só que ela conheceu esse cara pela internet só, porque ela morava em Pernambuco e ele em São Paulo. O cara morava em São Paulo e, se ela marcasse alguma coisa com o cara um dia, ela poderia ver o Jackson de novo, mas tinha um empecilho, ela era criada ali por Dona Celinha e ela não tinha grana para fazer essa viagem e também onde ela ficaria?

A mãe dela e a tia avó Heloísa tinham uma casa no interior de São Paulo, não era perto da capital. E aí, lá no fã clube, né? Uma moça falou: “olha, Amanda, se você quiser, eu pago a sua passagem. Eu não tenho como pagar hospedagem, essas coisas pra você aqui, mas eu pago uma passagem pra você vir aí de Pernambuco pra São Paulo”. Amanda aceitou e pensou: “bom, eu vou para a capital, tento primeiro mandar uma mensagem para o meu ex e depois eu vou dormir no interior, na casa da minha tia lá e vejo o que eu faço”. Amanda chegou em São Paulo, marcou com o Jackson num shopping, eles se reencontraram, mas foi muito estranho… Eles se beijaram, mas o Jackson não conseguiu ficar com a Amanda lá, porque ele tinha muito medo do pai da Amanda. — A Amanda não sabia o grau de ameaça que o pai dela, biológico, que não a criou, tinha feito no Jackson. —

Jackson, apavorado, falou: “Amanda, eu vou embora… Não tem como, não dá”. Amanda ficou mal, se sentiu magoada, porque o Jackson, tipo, foi embora correndo… Amanda pegou o celular e ligou para aquele cara, que agora já estava com praticamente 49 anos, pra ir buscar ela no shopping. Ela falou: “Olha, eu queria fazer alguma coisa, estou em São Paulo, vamos fazer alguma coisa? Estou aqui no shopping”. Não falou que tinha encontrado o Jackson, nada… E o cara falou: “claro” e cara foi lá, buscou a Amanda e levou pra casa dele. — Amanda 16, o cara 49… — Lá eles ficaram bebendo bebida alcoólica — Sim, o cara deu bebida alcoólica para Amanda, uma menor — E começaram a se beijar. E Amanda estava a fim? Estava, só que o cara não conseguiu ter uma ereção e falou: “ai, Amanda, olha, melhor então eu levar você pra casa da sua tia, que é aqui perto, mas é no interior, né? E tudo bem, não consegui, não sei o que tá acontecendo” e o cara ficou constrangido.

Nas próximas semanas, ficaram fazendo os passeios por São Paulo, os rolês, enquanto a Amanda tentava esquecer o Jackson. Passou um tempo com esse cara, quando foi fevereiro, ela tinha que voltar para Pernambuco porque ia começar aula e ela estava no ensino médio… E ali quando ela foi voltar, ela percebeu que ela tava envolvida com esse cara, que ela estava gostando dele. Choraram na despedida… — Ela 16 anos, ele 49 anos, um senhor chorando ali com a garotinha. — A Amanda passou a conversar novamente com esse cara somente pelas redes sociais, mas agora todos os dias. Assim com aquela coisa de sofrido, de “ai, estamos separados”. Dá ali um tempinho, ele já pediu a Amanda em namoro, mesmo que virtual ali, né? Foram namorando ali pela internet até poder encontrar de novo. O tempo foi passando e a Amanda conseguiu um emprego que pagava um salário mínimo, que era integral e a Amanda teria que estudar à noite.

Tinha quase 17 anos, então ela ia ter um emprego o dia todo e estudar à noite, super corrido. E aí, este cara começou a cobrar a Amanda: “Ah, você não conversa mais comigo, você não me dá mais atenção” e a Amanda estava o quê? Cansada, porque ela tinha um emprego, jornada 6×1, sabe? Integral e estudando a noite ainda. E este senhor começou a ter crise de ciúme, “não, porque você não conversa mais comigo, você agora só trabalha, só estuda, deve estar com alguém aí, com algum menininho”. — E, gente, Amanda, uma garota de 17 anos, como que você não vai querer sair, namorar, passear? Você tem um namorado que é 33 anos mais velho que você, que mora em outro estado, que namoro é esse? Com esse cara te enchendo o saco… — Amanda foi desencanando, vivendo a vida dela, trabalhando, estudando, e sim, Amanda acabou saindo ali com um cara, um namorico… — Da idade dela, que é uma coisa que ela tinha que fazer, namorar, passear, se divertir com gente da idade dela. —

Só que aí o cara já não tava aguentando mais e falou: “olha, Amanda, eu quero pagar uma passagem então pra você vir pra São Paulo pra gente se ver aqui, né? Pra gente ficar junto um pouco”. A Amanda topou… Já tinha terminado o ensino médio, ela teria um recesso ali do trabalho, por conta das festas de final de ano, então seria uma época ideal, né? Pra encontrar esse senhor aí, que era o seu namorado virtual. Amanda foi e, gente, foi tudo bem… Eles passaram um tempo distante, a Amanda tinha tido aquele namoradinho, mas ela falou: “Bom, acho que eu gosto dele”. Só que o cara ainda estava obcecado e, no último dia da viagem, quando a Amanda já ia voltar para Pernambuco, esse cara pegou o celular da Amanda, foi fuçar o telefone dela e acabou achando uma troca de mensagem dela com aquele carinha que ela ficou. O cara cheio de ódio tacou o celular da Amanda na parede e foi pra cima dela… O cara bateu na Amanda, xingou a Amanda de tudo quanto é nome e, enquanto este homem de 50 anos batia nessa garota de 17 anos, ela só pensava: “Eu não posso deixar ele pra cozinha, porque se ele tiver acesso a uma faca, ele vai me matar”. 

O cara fez a Amanda tirar as roupas, tirou fotos da Amanda nua… —  A Amanda chorava muito. Tinha sido espancada pelo cara e mandou pra mãe biológica, a religiosa… — Ela começou a pensar que talvez fosse tudo culpa dela: “Poxa, se o cara tá falando que eu sou essa pessoa horrível, traidora e que eu tô errada, talvez eu seja…”. Amanda era muito imatura, a gente está falando aqui de uma garota de 17 anos. Sem traquejo emocional nenhum, diante daquele homem vividão de 50 anos, passou a se sentir culpada e a falar: “Bom, se eu sou essa pessoa horrível, eu tenho que pedir perdão pra ele… Eu tenho que dar um jeito, então, desse relacionamento dar certo”. Voltou pra Pernambuco porque ela tinha que voltar, né? Ela tinha um trabalho, né? E ela passou a pedir perdão e a se humilhar pro cara.

E esse homem, com a cara de pau toda dele, falou: “Então eu vou aí para Pernambuco e vou te buscar, buscar suas coisas para a gente casar e morar aqui no meu apartamento”. Quando esse homem chegou na casa da Amanda, que a Dona Celinha e a Heloísa e toda a família viu esse cara, todo mundo ficou em choque… Porque agora não era mais um passeio, né? Não importa a história que ela contava ali pra Heloísa e pra Dona Celinha: “Ah, vou passear em São Paulo, nã nã nã”, ela não falava que ela tava com um homem de 50 anos, né? O cara era mais velho que até alguns tios da Amanda. A família dela ficou estarrecida e o cara foi esperto, porque faltavam poucos dias ali pra Amanda fazer 18 anos e, mesmo com a família perplexa, Amanda pegou suas coisas e foi pra São Paulo com o cara. Segundo ele, casados. — Informalmente, mas sim, casados. —

Os primeiros meses foram até que tranquilos, a Amanda estava procurando emprego e ela conseguiu num call center como recepcionista… Esse cara tinha dois filhos que eram bem mais velhos que a Amanda e os filhos não aceitavam bem a Amanda, queriam defender o pai achando que a Amanda estava ali para dar um golpe no pai. O pai era rico? Não. Você mora junto, pô, você esqueceu uma toalha em cima da cama e a Amanda comentava algo assim, o cara falava: “Eu esqueci a toalha molhada em cima da cama, mas você me traiu”, qualquer briguinha… Nisso ele já tinha todas as senhas e acesso a todas as redes sociais da Amanda. — Ela não tinha privacidade nenhuma… Essa era uma condição dele, porque já que ele não confiava, né? — Tinha dias bons e dias não tão bons, porque ele ficava jogando na cara e ela tinha que ficar pedindo perdão, né? 

E aí, gente, banda Black Pônei: “Meu Deus, vai ter um show em São Paulo da banda Black Pônei” e a Amanda estava muito empolgada, o senhor estava muito empolgado também e a Amanda tinha muitas amigas nesse fã clube… Ele falou: “Chama suas amigas, não tem aquelas três que você gosta mais? Chama elas para ficarem e dormirem aqui no apartamento pra gente ir no show todo mundo, elas dormem aqui, não tem problema”. — Tudo garota da idade dela, tá? — O show foi incrível e as meninas iam dormir lá, tipo, sei lá, um final de semana inteiro. Estava todo mundo na sala, uma hora a Amanda foi para a cozinha e uma das meninas estava lá, sei lá, fazendo uma caipirinha e este senhor, na frente da Amanda, agarrou essa outra jovem e tascou—lhe um beijão e olhando pra Amanda disse: “bom, agora sim estamos quites”. 

A Amanda se sentiu humilhada, foi no quarto, fez uma mochila e saiu chorando… Só que a Amanda tinha pra onde ir? Não tinha. Ela, em vez de sair do prédio, não tinha porteiro noturno, ela ficou na mesa do porteiro, embaixo da mesa do porteiro, na guarita ali, escondida com a mochilinha dela. O cara saiu para procurar a Amanda na rua, não achou que ela estava dentro do prédio, na guarita e as meninas mandaram mensagem pra Amanda, dizendo: “Olha, a gente não vai ficar aqui, a gente vai pra um hotel”. As meninas foram embora, a Amanda aproveitou pra ir pra casa do interior, que a Heloisa tinha ali, né? Mas não tinha como ela ficar naquela casa do interior e ir trabalhar todo dia. A distância não dava, a grana não dava… Mesmo trabalhando, ela dependia muito financeiramente desse cara já. 

Com três dias que ela estava no interior, ela teve que voltar a trabalhar e voltou a morar com esse cara. Primeiro ele falou que estavam quites, depois ele continuou falando que foi uma traição, jogando na cara da Amanda, e agora ele começou com um discurso de: “Tá bom, então agora que a gente tá casado, eu vou te dizer tudo que você tem que melhorar, porque sim, Amanda, você tem muito a melhorar”. A Amanda sempre teve o sonho de fazer faculdade de jornalismo e em 2017 a Amanda finalmente conseguiu entrar numa faculdade de jornalismo. Lá, ela ficou de cabeça mais aberta, conheceu mais gente, outro ambiente… Foi muito bom pra Amanda começar a faculdade, só que agora ela tinha um emprego, um relacionamento péssimo e a faculdade. Amanda entrou num piloto automático, ela ia ali estudando, trabalhando e vivendo aos trancos e barrancos com esse cara. Até que em 2018, a pessoa que criou a Amanda, que deu todo o amor e carinho, Heloísa, faleceu… E a Amanda ficou tão abalada com a perda da Heloísa que ela precisou começar uma terapia para elaborar esse luto. 

Com o tempo, ela foi tocando no assunto do relacionamento dela com aquele homem muito mais velho que ela. Ali na terapia, ela foi percebendo cada vez mais que aquela relação não era para ela. Agora já era 2019, um ano que a Amanda estava fazendo terapia e tentando se fortalecer para sair daquele relacionamento. E o cara, percebendo que a Amanda estava mudada, só que a Amanda não estava traindo ele, não estava com ninguém, pegou o celular da Amanda e viu a conversa da Amanda — conversa, gente, normal de faculdade — com um amigo dela de faculdade, só que era um homem. O cara ficou transtornado… E ele falava pra Amanda: “Ah, é isso que você quer? Você quer mais homem?” e tentava baixar a calça do pijama de Amanda, tentando estuprar Amanda. Amanda tentando falar pra ele: “calma, não, não precisa disso”, pro cara sair do quarto, porque o cara queria estuprar a Amanda, queria arrancar a calça do pijama dela, sorte que ele não conseguiu. 

A Amanda já sabia que aquele relacionamento não era pra ela e ela fazia um tempo que só conseguia transar com ele quando ela bebia. — Pra se sentir anestesiada e não sentir o cara, então pensa… — Depois disso, a Amanda realmente decidiu se separar, mas ir para onde? Tinha a faculdade dela, ela não tinha como se manter sozinha e o cara, interessado em outras novinhas, falou: “Tudo bem então, a gente se separa… Então sai da minha casa”. Só que a Amanda não tinha como sair dali e aí eles combinaram de ficar, mesmo separados, na mesma casa até que Amanda conseguisse um lugar pra morar. Mesmo separado, o cara monitorava ainda as redes sociais da Amanda e depois de um tempo, o cara falou pra Amanda assim: “Olha, então, eu tô aí com uma namorada nova e ela vai morar aqui, então eu preciso que você saia. Senão ela vai morar aqui com a gente”. 

E não é que ele levou a garota para morar lá? E a garota tinha 17 anos… Ele já tava agora com 52, 53, a Amanda agora já tava com 20… — Ou seja, ela já estava velha para ele, então agora ele não queria mais o casamento, queria agora casar com essa de 17 anos que ele levou para morar lá. — A Amanda, enfim, conseguiu sair desse apartamento e esse relacionamento com este senhor é uma coisa que Amanda ainda trata em terapia. Em 2020, ela reencontrou o Jackson, eles reataram o namoro e se casaram. — Vocês já sabem tudo o que eu penso em relação a essas grandes diferenças de idade…. A gente percebe o quanto isso foi tóxico e foi danoso para uma garota de 17 anos, né? E o cara começando um novo ciclo com outra garota de 17 anos, agora ele mais velho ainda. A Amanda tem um relacionamento ótimo com o Jackson, ele respeita muito a Amanda, a história, entende e respeita essa história turbulenta que ela teve. — Agora a gente vai ouvir a Amanda e, na sequência, a gente vai ouvir a Ana Cunha, que ela é oficial de programa para a saúde sexual e reprodutiva e direitos do Fundo de População da ONU. 

[trilha]

Amanda: Oi, pessoal, aqui é a Amanda. Depois de muita terapia, de autoconhecimento, depois de muita ajuda das minhas amigas, eu tive o apoio e o ímpeto de simplesmente sair dessa relação. Era uma relação totalmente conturbada, que a gente tenta maquiar pra dizer que tá tudo bem, pra dizer que o amor suporta tudo… Não, o amor não suporta tudo. A gente tem que desmistificar isso, tirar isso da cabeça, porque o amor não te agride, de nenhuma forma. O amor não deixa você dormir com a cabeça no fim da noite e pensar que no dia seguinte o que vai ter de pressão pra você resolver, se você vai estar viva, se você vai ter o que comer, se você vai ter um teto pra ficar… Eu tive que crescer muito rápido, eu tive que lidar com situações de uma maneira muito superior e mostrar a maturidade que eu tinha naquele momento para me portar como tal. Tendo uma pessoa de 33 anos mais velha ao meu lado…

Muitas vezes eu que era madura da relação, então também exigia um pouco de sangue frio da minha parte. Hoje eu me encontro em paz comigo mesma, o essencial é se perdoar… A gente acaba se cobrando muito do porquê a gente não levantou e foi embora em determinadas situações e depois a gente entende que a gente não tinha força suficiente, a gente não tinha limite suficiente e, quando a gente não basta, a gente entende que só quem faz o nosso limite somos nós mesmos. Eu demorei para entender a minha história e me perdoar, mas o que fica de lição é que em certos momentos da vida a gente cria ciclos comportamentais e o importante é a gente romper esses ciclos e entender o que a gente é. 

Ana Cunha: Olá, eu sou a Ana Cunha. Quando a gente fala em casamento ou união precoce, a gente não está falando só daquele casamento no papel formal… A gente está falando também de situações em que uma criança ou adolescente passa a viver formal ou informalmente com um parceiro. No geral, são aí meninas e que podem estar com homens bem mais velhos. Essa diferença de idade, que também pode estar atravessada por outras questões, cria a simetria de poder em que o adulto pode decidir, controlar ou mesmo impor regras, enquanto a menina tem menos autonomia para dizer não, para fazer suas escolhas ou até para buscar ajuda. Quando essa relação vem acompanhada de dependência financeira, aí fica ainda mais difícil de romper essa situação. Pode ser que tenha uma promessa de amor, uma promessa de proteção ou de conforto, mas amor e conforto sozinhos, eles não vão garantir direitos e muito menos segurança. Relações saudáveis precisam de respeito, de igualdade, precisam de liberdade. 

A história mostra como que essas uniões podem evoluir para situações de violência. física e psicológica, com impactos profundos aí na saúde física e mental da adolescente, incluindo um sofrimento emocional, um adoecimento e até uso abusivo de álcool como uma forma de lidar com a dor. Isso não é escolha e nem destino, é violação de direitos. Se você percebe que uma adolescente está vivendo ou que está prestes a viver uma situação como essa, o primeiro passo é não julgar, é escutar, é acolher, deixar claro que ela não está sozinha. Até porque muitas meninas não reconhecem essas relações como violência, porque essas relações foram naturalizadas desde cedo. A escola, os serviços de saúde, o Conselho Tutelar, o CRAS, o CREAS, enfim, organizações da sociedade civil também podem ajudar a proteger e, no Brasil, toda situação de violência ou de violação de direitos envolvendo crianças e adolescentes, ela deve ser denunciada pelo Disque 100.

Se você é uma adolescente que está passando por isso, saiba que você tem direitos, a proteção contra qualquer forma de violência, ter direito de decidir sobre o seu próprio futuro… Nenhuma menina é obrigada a se casar ou a se juntar com alguém. Também não é obrigado a permanecer numa relação que limite os seus sonhos, ou que limite sua liberdade, ou até que coloque a sua vida em risco. É importante reforçar que uma união precoce, ela não vai definir o futuro de ninguém… Com apoio, com rede de proteção, com política pública, enfim, é possível romper esses ciclos de violência, é possível também retomar os estudos, reconstruir os projetos de vida, e aí o mais importante também, voltar a sonhar. O UNFPA trabalha para garantir que meninas e adolescentes tenham tanto acesso à informação quanto a serviços de saúde de qualidade, também as redes de proteção, para que elas e eles possam fazer suas próprias escolhas, que sejam escolhas informadas, mas que sejam escolhas livres, seguras e com dignidade. Falar de casamento de crianças e adolescentes é romper o silêncio, é proteger meninas hoje e garantir que elas tenham a chance de construir o futuro que elas desejam. 

[trilha]

Déia Freitas: Casamento precoce ou casamento infantil é uma grave violação dos direitos humanos e não pode ser encarado como algo natural ou culturalmente aceitável. Quando uma menina casa antes dos 18 anos, ela pode interromper os estudos, ter uma maternidade precoce, perder oportunidades, sofrer violências e isolamentos, ter dificuldades econômicas, além de sofrer impactos na saúde física e mental. Para o UNFPA, somente quando todas as mulheres, meninas e jovens tiverem acesso a informações corretas, cuidados de qualidade e liberdade de fazer escolhas sobre seus corpos é que poderão realizar seu pleno potencial e assim ajudar a construir um futuro melhor para todos. Faça agora a sua doação para a UNFPA e seja parte dessa missão que salva vidas. — O link está aqui na descrição do episódio. Valeu, UNFPA pela parceria. — Um beijo gente e eu volto em breve.

[vinheta] Quer a sua história contada aqui? Escreva para naoinviabilize@gmail.com. Alarme é mais um quadro do canal Não Inviabilize. [vinheta]