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título: descoberta
data de publicação: 03/02/2025
quadro: picolé de limão
hashtag: #descoberta
personagens: marly

TRANSCRIÇÃO

[vinheta] Picolé de Limão, o refresco ácido do seu dia. [vinheta]

Déia Freitas: Oi, gente… Cheguei. Cheguei para mais um Picolé de Limão. E hoje eu vou contar para vocês a história da Marly. Então vamos lá, vamos de história.

[trilha]

A Marly é uma mulher negra, casada com um homem negro. — Nessa história é importante que eu faça o recorte racial. — A Marly tem 36 anos e ela está casada há dez e eles têm duas crianças. — Uma de seis e uma de quatro. — E sempre o casamento dela foi ótimo, assim, nunca teve nenhuma questão, nada para pontuar, eles se conheceram na faculdade, terminaram a faculdade e se casaram. [efeito sonoro de sino soando] O marido da Marly trabalha num grande escritório de advocacia e a Marly é médica. Então, eles têm assim bons cargos, bons salários e bom relacionamento com as pessoas, eles têm uma turma boa, enfim… E tudo ia bem, até que cerca de um ano, este marido começou a ficar muito no computador. — Muito… —

E ele tem duas assistentes, nunca levou trabalho pra casa, então a Marly ficou desconfiada do tanto que ele ficava nesse computador. E o computador era um laptop que ele recém tinha comprado, última geração, então ele não deixava as crianças mexerem, ficar brincando e tal com o laptop, tinha o computador da casa, que era o que a Marly e ele antes usava e agora ele tinha esse laptop que ele usava no trabalho, trazia pra casa e ficava muito nesse laptop. Marly conhecendo o marido do jeito que ela conhece, sabia senhas mais ou menos que ele usava, tentou algumas vezes enquanto ele estava dormindo — e aqui algumas pessoas podem comentar “ai, nossa, mas ela invadiu a privacidade dele e nã nã nã”, bom, Marly não queria saber, o cara não estava saindo do computador, não dava a senha desse laptop pra ela e não deixava ela acessar —, ela sabendo das combinações de senha dele, conseguiu entrar.

E o que ela achou naquele computador? Primeiro que na parte de arquivos não tinha nada de trabalho, mas ele tinha várias pastas com vários arquivos de mulheres nuas, vários vídeos de mulheres nuas, vários vídeos de mulheres transando com homens. E  uma particularidade: Das 100 pastas, as 100 eram de mulheres loiras. Ele tinha variados tipos de cabelo, variados shapes ali de forma física, mas todas loiras. Nesse computador Marly também encontrou um Facebook, um Facebook que ele não mostrava o rosto, tinha só parte do peitoral dele e também só conversas picantes com mulheres loiras. O chão da Marly se abriu ali e ela entrou num buraco sem fundo. Primeiro que foi muito impactante para ela ver o marido, um homem negro, só ali interessado em loiras e ele casado com uma mulher negra. Marly pensou em esperar, ponderar, ver o que ela ia fazer, mas ela não conseguiu esperar… 

O marido estava dormindo e ela acordou ele aos tapas, falou que não ia devolver o laptop para ele e começou a perguntar o que era aquilo, o que era aquele Facebook, o que eram aquelas conversas, o que eram aqueles vídeos… E aí este marido começou a chorar e a dizer para Marly que ele sempre teve atração por mulheres loiras, mas que quando ele conheceu Marly, ela era perfeita, ela estava terminando a faculdade, começando a residência médica, mas sexualmente ele se atrai aí por mulheres brancas, especificamente mulheres de cabelo loiro. Marly chorou muito, ele também chorou muito… Disse que nunca tinha traído, mas que se sentia muito tentado e que nos últimos anos ali, talvez quatro, cinco anos, antes de transar com a Marly, ele precisava ver algum vídeo de alguma mulher loira. Marly ficou se sentindo um lixo, ele tentou de toda forma animar a Marly com conversas do tipo: “Mas você é a mulher que eu amo, você é a mulher ideal pra mim… A gente tem uma família e nã nã nã, atração não é importante”.

Ele falou que nunca tinha traído a Marly, que ele só via os vídeos para ficar excitado e conseguir transar com a Marly. — Isso é bem ofensivo, é bem repugnante, né, gente? — E por ele continuava tudo do jeito que estava. A Marly pediu um tempo para pensar, ela ponderou ali o casamento dela, todas as coisas e resolveu dar uma chance para ele. — Em que termos? — A Marly queria que ele parasse de ver pornografia. Ele aceitou, aceitou também que ela não devolvesse o laptop, que ficasse com o laptop para ela e tivesse acesso àquela conta e o casamento seguiu, a Marly muito mal ainda resolveu tomar uma atitude desesperada. Ela foi ao cabeleireiro e tingiu o cabelo de loiro. — Só que ela é uma mulher negra… — E quando ela chegou em casa, ele viu, ficou chocado, ela ficou bonita, mas ele falou que não era isso, que ele tinha atração por mulheres brancas de cabelo loiro… Não mulheres negras de cabelo loiro, tipo nem a Beyonce ele se sentia atraído, mesmo ela de cabelo loiro.

A Marly passou meses sem abrir aquele laptop, mas depois de um tempo ela abriu — e, o marido dela que é advogado, ele não é muito inteirado com tecnologias —  e pra surpresa dela tinham mais vídeos, tinham mais coisas ali nos arquivos. Por quê? Porque aquela conta que ela estava abrindo no laptop, era conta do celular dele, então ele continuava sim assistindo os vídeos e ele continuava sim acessando aquele Facebook. Marly sofreu mais uma vez, mas resolveu manter o seu casamento. Para a Marly, ela acha muito complicado agora com as crianças pequenas… Eu falei para ela: “Criança entende, gente… Se é para ficar num casamento que você está sofrendo, é melhor conversar com a criança, explicar a situação e cada um levar sua vida. A criança vai ter duas casas, talvez tenha um padrasto, uma madrasta, enfim”. Mas a Marly tentando aí manter o seu casamento foi relevando as coisas. Até que a gente chega agora a fevereiro desse ano…

O escritório do marido da Marly é muito grande e, quando faz aniversário reúne todos os associados e as família e assim foi feito… Numa chácara, então seria o final de semana ali dos associados com suas famílias e lá Marly percebeu olhares entre o marido dela e uma advogada que estava lá. — Loira. —

E a advogada foi sozinha, então a Marly não sabe se ela não tem família ou se ela não levou. Todos os advogados ali meio que se conhecem, essa advogada é nova no escritório e todo mundo veio falar com a Marly, com as crianças, menos ela… — Ela fingiu que Marly e crianças não existiam. — A questão é que várias vezes ao longo dos dias que eles ficaram lá nessa chácara, o marido dela sumia. Até o ponto da Marly ficar muito enciumada e, no sábado, cogitar pegar as crianças e ir embora, mas isso ia ser perfeito para eles, né? Porque ele ia ficar sozinho com ela, então a Marly resolveu não facilitar. Tinha monitor lá para as crianças, então ela não precisava se preocupar tanto assim com as crianças e ela ficou na cola do marido ao ponto de ele ficar muito incomodado e fechar a cara, chegar no domingo cedo e ele falar que queria vir embora. Desde então a Marly stalkeia essa advogada, ele posta poucas coisas no Instagram, mas as vezes ele posta e essa advogada curte tudo, faz gracinhas a ponto da irmã do marido, a cunhada da Marly escrever num comentário ali: “Que gracinha é essa, mano?” no comentário da moça. E aí ele foi lá e apagou o comentário. 

A  Marly não tem coragem ainda de sair desse casamento porque ela ama muito o marido e ela queria um conselho nosso, alguma coisa… Eu, sinceramente, gente, o meu conselho é: termina. Termina. Eu não vejo como manter um casamento desse. Ele jura que ele não traiu… Se não traiu até agora, está quase. E outra, ele verbalizou que ele não sente atração pela Marly e que não vai sentir, porque ele tem atração por mulheres brancas de cabelo loiro. Agora me diz por que esse infeliz casou com a Marly? Por que ela é médica? E a Marly ainda não está pronta para desistir desse casamento. Termina, conversa com as crianças, termina de boa por causa das crianças… Pega tudo o que você puder e é isso, vai viver sua vida. Ainda perguntei para a Marly, falei: “Mas e aí lá no hospital, não uns médicos gatos?” [risos] e ela falou: “Tem, Andréia, dão em cima de mim, mas eu sou uma mulher casada, eu não quero trair meu marido. Eu quero, sei lá, que a gente volte a ser o que era antes”. Mas aí eu te pergunto: O que era antes? Porque você descobriu, mas antes ele já era assim. Então, o que é esse antes? Que agora não dá para você “des—descobrir”, já descobriu.

Marly por conta da profissão dela faz terapia e a terapeuta da Marly, que também é uma mulher negra, concorda comigo, que não tem muito caminho a se seguir, né? Ela está lutando por um casamento que… Cadê esse casamento? O que vocês acham?

[trilha]

Assinante 1: Oi, nãoinviabilizers, aqui quem fala é a Carol do Rio de Janeiro. Marli, minha amiga, sinto muito que você esteja passando por isso. Eu também sou uma mulher preta, eu também já estive nesse lugar de estar num relacionamento com um homem que consome a pornografia com mulheres brancas e com corpos totalmente diferentes do meu, é uma dor que nos atravessa de todas as formas possíveis. A dor de nos sentirmos um lixo, a dor de não nos sentirmos desejadas pelo nosso próprio parceiro e os gatilhos de toda uma vida que vem a tona. Traumas que só nós mulheres pretas já passamos e eu precisei de muita terapia para sair desse lugar. Dói sair, mas dói ainda mais ficar, porque dor de amor passa, dor de estar num relacionamento assim é continua… Desculpa falar isso, Marli, mas seu marido já está te traindo. A traição não é só o contato físico, é a mentira, é a quebra do acordo. E para além de tudo, é preciso falar que seu marido flerta com racismo, mesmo sendo o homem preto, ele reproduz o racismo. Então não fique nesse lugar, porque isso adoece, nenhuma mulher merece passar por isso, nenhuma mulher merece viver um relacionamento onde a insegurança anda de mãos dadas. Um relacionament onde seu marido não sente atração por você, onde a sua autoestima é pisoteada o tempo todo. Marli, você não merece passar por isso, você merece mais, você é uma mulher independente, inteligente, vai ser feliz. 

Assinante 2: Oi, nãoinviabilizers, aqui é a Sandra, de Curitiba. De uma mulher negra para outra: Você quer mesmo estar em um relacionamento em que o seu marido precisa imaginar que na frente dele tem uma mulher loira, completamente diferente de você, para que ele sinta vontade de ter relações íntimas com você? Eu não gostaria de estar no seu lugar. Como diria a Nina Simone: A gente precisa aprender a se levantar da mesa quando o amor não está mais sendo servido. Eu espero que você tenha forças, que você consiga sair desse relacionamento para abrir os caminhos para coisas melhores. Por experiência própria te digo que sim, dor de amor passa e você ainda vai ser muito amada, muito valorizada. Espero que você tenha a sorte de ter amores tranquilos e que endeuse essa mulher linda que você é. E o seu marido, além de terapia, ele precisa estudar de letramento racial, porque será que esse fetiche dele por mulheres loiras é genuíno? Ou ele aprendeu que isso é bonito e que isso é sinal de status como a gente vê na nossa sociedade completamente racista, né? Cai fora, seus filhos vão entender e é melhor que você seja feliz e seja amada como você é. Um beijo. 

[trilha]

Déia Freitas: Comentem lá no nosso grupo do Telegram, sejam gentis com a Marly. Um beijo e eu volto em breve. 

[vinheta] Quer a sua história contada aqui? Escreva para naoinviabilize@gmail.com. Picolé de Limão é mais um quadro do canal Não Inviabilize. [vinheta]