título: exames
data de publicação: 19/12/2024
quadro: picolé de limão
hashtag: #exames
personagens: letícia, amiga, um cara, doutor duílio
TRANSCRIÇÃO
Este episódio possui conteúdo sensível e deve ser ouvido com cautela.
[vinheta] Picolé de Limão, o refresco ácido do seu dia. [vinheta]Déia Freitas: Oi, gente… Cheguei. Cheguei para mais um Picolé de Limão. — E hoje eu não tô sozinha, meu publiii. — [efeito sonoro de crianças contentes] Quem tá aqui comigo? — Quem? Quem? Quem? — A Wise. Com a conta PJ da Wise — a Wise Empresas — Você mantém o controle das suas finanças sendo pago aí na moeda da sua escolha e convertendo quando for melhor para você. Wise Empresas é ideal para você que tem uma empresa no seu nome — não importa o tamanho da sua empresa, tá? — E tem aí contratos com empresas internacionais e por isso recebe outras moedas que não o real. Com a Wise Empresas você pode receber dinheiro em mais de 40 moedas, basta escolher uma e você pode também sacar dinheiro para sua conta bancária instantaneamente, 24 horas por dia, tudo na mesma conta e sem pagar taxas excessivas de conversão. Tudo isso com suporte em português, 24 horas por dia, sete dias por semana. Wise Empresas, receba dinheiro, sem perder dinheiro. — Eu vou deixar o link certinho aqui na descrição do episódio. — E hoje eu vou contar para vocês a história da Letícia. Então vamos lá, vamos de história.
[trilha]A Letícia se formou em pedagogia, sempre trabalhou na área, sempre amou o que faz e ali fez mestrado, batalhou mais um pouco, concluiu um doutorado — que é uma coisa difícil — e depois que ela já tinha alcançado ali o que ela tinha se planejado para a carreira dela acadêmica, Letícia resolveu abrir o seu coração. Agora era hora de encontrar um amor, de encontrar alguém bacana pra dividir a vida. Ela já tinha tido alguns namorados, alguns sérios, outros não, enfim, coisas da vida. Letícia falou: “agora que já sou doutora, eu quero me casar”. — Pra isso você precisa ter aí [risos] uma outra pessoa, né? A não ser que você se case com Jesus. [risos] — E aí a Letícia começou a ir para barzinho com amigas… Ela não queria nada assim de aplicativo, ela queria pessoalmente, bater o olho e se encantar com uma pessoa, sabe?
E aí em um barzinho é mais difícil, ela foi desencanando e falou: “O que tiver que ser, gente, vai ser… Eu vou só aqui levar minha vida e esperar, ver aí o que pode acontecer”. A vida foi correndo normalmente, até que um dia uma amiga da Letícia ia num churrasco — sabe quando os amigos resolvem fazer um churrasco e alugam uma quadra de futebol, assim? E aí os sem camisa com os de camisa — e e uma galera de uma empresa que ia fazer isso, a amiga da Letícia trabalhava nessa empresa e cada um podia levar um acompanhante, e a amiga da Letícia falou: “Não, vamos lá, né? Vamos comigo”. Elas foram pra esse churrasco com futebol e tal e, quando a Letícia estava lá sentada vendo os caras jogarem ali a bolinha deles, tinha um cara mais pra lá assim que tava olhando pra ela… E era um cara muito bonito, ele estava olhando, assim, meio sorridente e a Letícia retribui o sorriso ali e o cara veio chegando mais perto, daqui a pouco estava sentado ali do lado da Letícia, eles conversaram bastante, rolou uma química imediata, — num domingo —, ele convidou a Letícia pra que eles fossem ao cinema à noite, a Letícia topou.
O cinema foi ótimo, eles trocaram o primeiro beijo e ali começou um romance. Letícia muito apaixonada, o cara também apaixonado, esse relacionamento foi crescendo… Letícia na área dela também crescendo, o cara trabalhando lá na mesma empresa que a amiga dela, amiga da Letícia trabalhando no RH, então a Letícia já falou: “Bate a ficha pra mim, ele paga pensão, tem filho, como é que é?”, “Aqui não tem nada que eu tenha pra te falar dele”. Continuaram saindo, o cara pediu a Letícia em namoro e esse namoro virou um noivado e este noivado, depois de três anos de namoro, virou um casamento com todos os amigos, todo mundo veio, todo mundo muito feliz, todo mundo bem animado com eles, enfim. E após aquela festa de casamento, eles foram para lua de mel. A lua de mel foi perfeita, agora a Letícia, além da carreira e do marido, queria também pelo menos ter um filho — botar uma criança no mundo —, eles voltaram daquela lua de mel e continuaram tentando engravidar, só que nessa época a Letícia estava com 37 anos então era um pouquinho mais difícil — acho que demora um pouco mais, não sei —, e aí ela foi procurar um médico pra fazer uns exames, ver se estava tudo bem e o médico que a gente pode chamar aqui de “Doutor Duílio”, falou assim para a Letícia: “Que exame você já fez, né? Como é que você está? Quer engravidar já? Quer se preparar para engravidar, como é que é?” “Eu queria engravidar já, porque eu já estou com 37 para 38, então acho que eu já estou numa idade boa e tal”, “Eu vou pedir aqui todos os exames possíveis, e aí você faz tudo e volta aqui”.
Tinha exame de imagem, tinha exame de sangue, um monte de exame, um monte… E aí rola uma pequena preocupação, né? “Será que eu consigo? Será que vai rolar? E se eu não puder ter filho? Por que eu não fiz esses exames antes? Porque agora também o cara quer ter filho”, sabe essa coisa assim? Surgiu essa questão. Fez todos os exames, baixou ali na internet, falou: “Imprimo ou não imprimo?” e não imprimiu. — O consultório do Dr. Duílio você podia mandar ali para a secretária e botava no seu prontuário. — Mandou todos os exames, só levou o envelope com as imagens dos exames de imagem que ela fez e foi pra consulta com o Dr. Duílio. E aí o Dr. Duílio viu aqueles exames e olhou de novo, olhou de novo… Ficou sério, pensativo e perguntou pra Letícia assim: “Onde você fez esses exames aqui eles te chamaram novamente?”, e aí a Letícia falou: “Sim, chamaram. Faltou ali alguma mostra, alguma coisa e eles me chamaram de novo e eu peguei, saiu o resultado hoje, eu já peguei e já era minha consulta… Eu não fui no laboratório, não voltei no laboratório”. E aí o médico comunicou a Letícia que ela tinha dado positivo para o vírus HIV. “Como eu posso ter HIV?” — O chão sumiu dos pés da Letícia, porque até então, como ela disse para mim: “Andréia, eu sou uma pessoa muito esclarecida, muito estudada, mas o impacto de ouvir que eu tinha HIV e, assim, as associações preconceituosas que a gente faz na cabeça”, ela meio que quase agrediu o Dr. Duílio ali e ele falou: “Calma, vamos entender o que está acontecendo”.
Fizeram o exame e o laboratório chamou novamente a Letícia para refazer o exame… — Existe um protocolo de retestagem, então eles fazem o exame e aí deu positivo… Eles testam aquela mesma amostra de novo e aí te chamam para pegar uma outra amostra. — Tinha dado positivo em tudo, Letícia estava com o vírus HIV. E aí o Doutor Duílio foi perguntando e ela assim, já pensando: “Meu Deus, eu que passei para o meu marido ou ele que me passou?”. Até a lua de mel eles sempre transaram com preservativo… Na lua de mel, quando o foco mudou para ter uma criança, eles passaram a ter relações sexuais sem preservativo. Letícia não tinha exame anterior para saber se ela já tinha o HIV ou não, mas ela teve pouquíssimos parceiros, como é que ela ia rastrear isso? — Chegar em quem passou o vírus para ela, transmitiu o vírus para ela ou, enfim, saber para quantas pessoas ela transmitiu sem saber… Ela teve poucos namorados, os casinhos que ela teve ela sempre transou com preservativo, enfim… —
A cabeça dela estava a milhão, e aí o Doutor Duílio falou: “Você não prefere chamar o seu marido aqui e eu dou a notícia para ele? Eu fico preocupado com você, fico preocupado com a sua integridade física também… Eu já vi casos onde um dos cônjuges é agredido, então se você quiser, você pode telefonar para ele vir aqui para o consultório”, eu achei o Doutor Duílio muito incrível, “eu vou pedir para minha secretária fechar mais um horário aqui e eu tenho só mais duas pacientes para atender, eu atendo, você fica na recepção e quando ele chegar, eu dou a notícia para ele. Vamos fazer assim?”. A Letícia, que estava sem chão, falou: “Vamos”, e aí ela mandou mensagem e pra ele, falou que tinha saído os exames e que o médico queria falar com ele. Este homem demorou para responder, mas disse que estava indo lá… Doutor Duílio atendeu as duas pacientes que ele tinha, e aí já seria horário de almoço, então ele ia ficar o horário de almoço ali a disposição da Letícia quando o marido chegasse e tal. E aí o cara chegou, Letícia muito apreensiva de saber que tinha passado o vírus HIV para o marido, enfim… E aí eles entraram no consultório do Dr. Duílio, o Doutor Duílio começou a falar e começou a explicar e, antes que ele falasse de fato, que ele fez todo um rodeio, uma preparação, enfim, o cara caiu no choro…
E aí o cara começou a chorar muito e a pedir desculpas… Ele já sabia que ele era portador do vírus, ele por muito tempo ficou indetectável… — Eu não consigo entender isso, gente, porque hoje uma pessoa com HIV ela vive a vida normal, não tem nem tanto remédio assim, não é como antigamente o coquetel, passava mal, não… Ela leva uma vida normal e ela fica com o vírus indetectável sim, só que para você manter o vírus indetectável você tem que tomar a medicação certinha, tem que fazer tudo certinho… E este cara, quando ele ganhou o parabéns lá do médico dele, que ele estava indetectável, enfim, que estava tudo certo, ele afrouxou nos cuidados, parou a medicação e agora tinha a questão também de ele estar casado, como é que ele ia explicar que ele tomava remédio todo dia? — Como que a pessoa faz isso, gente? Como? — E aí ele chorou, chorou, chorou, chorou e o que ele falou para o médico? O médico em choque ali… Porque ele falou: “Meu Deus, era uma coisa totalmente evitável, vocês podiam estar casados, vocês podiam estar planejando um filho normalmente, você tendo HIV e a Letícia não?”.
A família dele não sabe que ele tem HIV, as pessoas que sabiam era o RH da empresa — era a amiga da Letícia — e ele achou que a amiga tivesse contado e que a Letícia sabia, só que em nenhum momento ele pensou em conversar com a Letícia sobre isso, porque era melhor não tocar no assunto, entende? Ela foi tirar satisfação com a amiga, a amiga falou: “Pela ética eu não podia te contar isso… Eu não podia te contar isso. Até falei pra você, se você puxar na sua memória, eu falei pra você: “Usa preservativo, olha… A gente não sabe como tá aí o mundo, mas foi alguma coisa bem genérica, porque eu não tinha como te falar uma coisa dessa”. E aí o casamento acabou ali… Muito mais por causa da mentira do que pelo HIV em si, porque aí a Letícia foi estudar e foi com a ajuda do médico dela, do Doutor Duílio, ela procurou um infectologista, ela foi procurando os médicos e tal e hoje também Letícia é indetectável — e eu acredito que a gente tá muito próximo da cura do HIV, então a gente não pode tratar o HIV como uma sentença de morte, isso foi lá nos anos 80, agora a pessoa tem a mesma expectativa de vida que uma pessoa sem HIV, mas ainda assim, é sua responsabilidade, se você tem o vírus, é de alguma hora comunicar isso, no caso, sei lá, você vai ter filho com a pessoa. — Isso é uma coisa que precisa ser falado.
A gente precisa ter responsabilidade sobre o nosso corpo, as nossas coisas. Então, assim, você tem HIV, você sabe que você precisa se cuidar e que também você tem que ter um cuidado a mais com o outro para que isso não seja transmitido, você não precisa contar, mas esse cuidado precisa existir, né? Pela sociedade que a gente vive e tal, que a gente quer melhorar sempre, então eu acho que é um cuidado mínimo. E você que não tem HIV, precisa também ter essa responsabilidade de se cuidar, né? Não acho que que a Letícia em momento algum errou… Talvez só tenha vacilado de não ter feito esses exames pré—nupciais antes, mas eu acho que isso também não sei se adiantar, porque de todo caso, eles iam tentar ter um filho, né? O cara tinha que ter contado para ela. Tinha que ter contado… E aí, para vocês terem uma ideia de que como hoje é muito tabu essa questão do HIV, as pessoas têm muito medo de uma coisa que o tratamento é muito sério, responde muito bem e as pessoas realmente ficam bem e ficam indetectáveis, que a questão da Letícia aqui, além do fato do marido, agora ex, ter mentido para ela, é o fato da amiga não ter contado para ela, porque a questão em si do HIV ela já resolveu, ela toma medicação que ela tem que tomar, ela se cuida muito, ela tá indetectável, então a vida dela está seguindo e ela hoje tem um namorado fixo, que assim que o namoro foi ficando sério, ela contou…
E aí ele quis entender melhor, quis entender como ele podia, sei lá, pegar HIV, enfim, aquelas dúvidas que surgem e eles foram conversando, eles foram até o Doutor Duílio e conversaram com o Dr. Duílio. Então, sabe? O jeito que a Letícia agora conduz os seus relacionamentos é muito bacana, porque ela não esconde. Inclusive, ela está fazendo um movimento agora, muito interno dela, de revelar para todo mundo que ela tem o vírus HIV, pras pessoas verem como como ela está bem, como ela leva a vida, pra tirar um pouco dessa carga negativa, desse estigma, né? Mas é ainda um movimento que ela faz, porque ela sabe que ela vai sofrer preconceito, né? Então, é um movimento interno que ela está fazendo, mas que ela pretende transformar até em palestra, enfim… Abrir um canal para as pessoas que, como ela, descobriram assim, no susto, né? E o cara, ela não sabe mais do cara, ficou sabendo um tempo que ele tava bem doente, mas é aquilo, ele não se cuidava… Precisa cuidar. Não é porque ficou indetectável que você vai abandonar o tratamento, abandonar tudo e ela não quer mais saber dele e também ela rompeu com essa amiga, porque a Letícia acha que acima do trabalho dela no RH, ela tinha que ter avisado, ela tinha que ter falado… Lá atrás no churrasco.
E aí eu não sei, gente, tinha que ter falado? Que o marido está errado a gente já sabe, né? Inclusive, dependendo dos casos, isso pode dar um processo até criminal. O que vocês acham?
[trilha]Assinante 1: Oi, pessoal, eu sou Talita, de Maringá, Paraná, médica infectologista. Trabalho com HIV há muitos anos e infelizmente já ouvi muitas histórias parecidas com a história da Letícia. E a mensagem que eu quero deixar hoje é que pessoas que vivem com HIV e têm carga viral indetectável, ela é intransmissível… Isso significa que ela não transmite o HIV por nenhuma prática sexual, seja ela oral, anal, vaginal, nem se tiver ejaculação, nem se tiver uma IST associada. Uma das grandes certezas da medicina é que o HIV, que é indetectável, é intransmissível. Outra prevenção muito usada atualmente é o Prep, é um medicamento que toma—se todo dia, a pessoa que não tem HIV, para não contrair HIV, com eficácia de mais de 90%. Quero lembrar para vocês também que a camisinha é uma forma muito eficaz de não contrair tanto o HIV quanto a outras ISTS.
Assinante 2: Oi, gente, Bibiana de Florianópolis aqui. A história da Letícia ela me dá mais medo do que muito Luz Acesa, porque para mim é assustador pensar que alguém que a gente ama, confia e está disposta a dividir a vida, estaria disposto a colocar nossa saúde em risco dessa maneira. E eu digo isso porque, se não fosse o fato de a Letícia ir buscar os exames pró—ativamente pelo tema da gravidez, ela poderia ter vivido muito tempo com o vírus, sem saber, sem ter a oportunidade de buscar o tratamento adequado e viver a vida normalmente como ela faz hoje. Em relação à amiga da Letícia, concordo que como profissional de RH ela realmente não poderia ter exposto o marido da Letícia, mas como amiga, tendo essa informação privilegiada, quando a coisa começou a ficar séria, ela poderia ter estimulado a ela uma prática que é muito comum quando as pessoas vão começar a ter relações sexuais sem preservativo, que ambos façam os exames completos IST, por uma questão de controle, por uma questão de cuidado com o outro e, quem sabe, nesse ponto isso já poderia ter vindo à tona, eles já poderiam ter conversado, tomado as medidas necessárias, né?
[trilha]Déia Freitas: Chegou a hora de você se juntar aí aos mais de 600 mil clientes empresariais em todo o mundo que possuem aí uma conta na Wise Empresas, onde você que é PJ e tem contratos com empresas internacionais, terá seu negócio valorizado e o seu faturamento também. Wise Empresas é o primeiro e único provedor no Brasil a permitir que as empresas gerenciem seus ganhos internacionais em várias moedas, tudo em uma única conta. Abra agora a sua conta PJ na Wise Empresas. Wise Empresas, receba dinheiro, sem perder dinheiro. Clica agora no link que eu deixei aqui na descrição do episódio. — Valeu, Wise. — Um beijo, gente, e eu volto em breve.
[vinheta] Quer a sua história contada aqui? Escreva para naoinviabilize@gmail.com. Picolé de Limão é mais um quadro do canal Não Inviabilize. [vinheta]