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título: pisca-pisca
data de publicação: 25/12/2025
quadro: mico meu
hashtag: #pisca
personagens: pablo e catarina

TRANSCRIÇÃO

[vinheta] Ops. Mico Meu, haha. [vinheta]

Déia Freitas: Oi, gente… Cheguei. Cheguei para um Mico Meu. E hoje eu vou contar para vocês a história do Pablo. Então vamos lá, vamos de história. 

[trilha]

O Pablo, quando ele tinha aí seus 24 para 25 anos, ele conheceu uma garota muito legal, que a gente vai chamar aqui de “Catarina”. Começaram um namoro, Pablo ainda estava terminando a faculdade, a moça também, então eles se encontravam duas vezes na semana, mas era um namoro firme, um namoro bom, ninguém ainda tinha falado em namoro mais sério, até que foi chegando ali a época do Natal, entrou dezembro, e Catarina, muito sem jeito, falou para o Pablo: “Então, vai ter a festa de Natal na casa dos meus pais e eu gostaria muito que você fosse, mas assim, a gente não tem um pedido oficial de namoro, né? Mas eu queria só que você fosse, porque assim, eu sei que você ia passar sozinho. Então, assim, não precisa considerar isso um compromisso mais sério, eu só não quero que você passe o Natal sozinho”.

E o Pablo, assim, não tinha pensado em pedir Catarina seriamente em namoro, porque ele já achou que era um namoro sério, ele falou: “Meu Deus, Catarina, não, a gente tá namorando sério, sim… Lógico que eu quero ir conhecer a sua família e, quando der, a gente vai pro meu estado conhecer a minha família. Lógico que eu quero ir”. — Então, assim, já deu um “ufa” na Catarina ali, né? Tipo, “ai, nossa, né? — E a Catarina, agora que tinha passado esse obstáculo do namoro sério, falou que tinha um outro obstáculo… Qual seria o outro obstáculo? A família da Catarina é muito católica, então antes de comer qualquer coisa, eles rezavam um terço. — E um terço é bastante… Não é um rosário, mas é bastante coisa, né? — Tinha a ceia e depois ainda tinha alguém falava uma passagem da Bíblia, tudo isso aí, galera bem católica. 

Catarina falou: “Olha, eu sei que você não tem religião, então, se para você for um desconforto nessa parte, tem um quintal legal lá em casa, você pode ficar no quintal”, “não, imagina, eu fico lá quieto… Não vou rezar, porque também nem sei direito, mas fico lá, acompanho, não tem problema nenhum. Estou muito feliz de você ter me convidado”. Pablo estava feliz, ele ia passar o Natal na casa da Catarina… — Eles já estavam há uns seis meses juntos e agora oficialmente namorando sério. — No dia 24 de dezembro, Pablo, que não tinha carro, passou para pegar Catarina e eles iriam de ônibus… Eles estavam uns 120 quilômetros da casa dos pais de Catarina, então eles pegariam um ônibus rodoviário para chegar lá na casa… Eles saíram mais ou menos umas quatro horas da tarde para pegar o ônibus das seis, para chegar mais ou menos umas oito, dependendo do trânsito, porque véspera de Natal, umas nove, na casa da Catarina. 

Pablo estava muito feliz, muito animado… A família da Catarina não fazia amigo secreto, então você podia comprar presente para quem você queria da família ali, ia ter em torno de umas 20 pessoas… E o Pablo, para ser gentil, comprou um presente para a Catarina e umas flores para a mãe da Catarina, que a gente pode chamar aqui de “Dona Dorotéia”. Então, comprou flores ali para a Dorotéia, Dona Dorotéia, e um presente para a Catarina. E lá foram eles no ônibus, felizes, apaixonados, animados… O Pablo todo arrumado, ele resolveu pôr uma camiseta e um blazer, estava com um blazer meio bege, assim… E aí foram lá para a casa de Dona Dorotéia e Seu João. Quando eles entraram na rua dos pais da Catarina, de longe, Pablo viu uma casa com muitas luzes, muito pisca—pisca e ele mentalmente pensou: “Tomara que não seja essa casa”. 

Por que Pablo não queria que fosse aquela casa? Pablo tem epilepsia e luzes piscando são um gatilho para ele… Ele estava medicado? Estava. Não ia beber? Não ia. Então, assim, era muito difícil que ele tivesse uma crise, mas as luzinhas ali já eram um sinal que não era bom. Catarina sabia que ele tinha epilepsia? Sim, mas não sabia que as luzes piscando poderiam ser um gatilho para ele. E ele não falou… — Aqui era a hora que ele devia falar: “Catarina, então, você sabe que eu tenho epilepsia e pode ser que me dê uma crise com esse tanto de luz e tal, né?”, mas ele não falou nada… — A Catarina estava muito feliz e ele também estava muito feliz, ele pensou: “Bom, as luzes piscando elas devem ser do lado de fora da casa… Eu entro rapidinho ali e não saio mais. Não vou ver nada piscando muito”. Só que Dona Dorotéia, ela era Natalnática, [risos] então ela tinha pisca—pisca em tudo… 

Quando Pablo entrou na casa, a árvore tinha pisca—pisca, em volta dos pés da mesa de jantar tinha pisca—pisca. Na sala, fazendo um desenho de Feliz Natal, tinha pisca—pisca. A casa toda piscava. [risos] E o Pablo cumprimentou as pessoas e ficou meio que ali olhando para o chão. E aí o Pablo falou: “Andréia, uma coisa que eu não devia ter feito, assim, eu fiquei muito tenso… E aí também é uma coisa que pode me despertar uma crise… E eu sei quando eu vou ter crise porque meu corpo fica diferente” e ele não estava ainda, então eu falei: “Bom, eu vou levando”. Todo mundo feliz ali e aí chegou a hora do terço. Eles faziam um círculo, todo mundo participava, todo mundo com seu terço na mão, quem não estava com o terço ficava ali com as mãos em oração, enfim, você fazia o que você quisesse com a mão, desde que fosse uma coisa… [risos] Você não vai chupar uma laranja enquanto o pessoal está rezando o terço. [risos] Descascando uma laranja. Você fica ali, né? Enfim, não pode ficar no celular, não seja rude…

E aí ele ficou ali, cruzou os dedos e abaixou a cabeça, porque para ele era ótimo, porque ele não ia olhar para as luzes. Só que enquanto estava ali, o pessoal rezando, o Pablo foi sentindo o corpo dele mudar… Tentando já amenizar o que ele sabe que ia acontecer, que é a queda, Pablo foi deitando lentamente para o meio daquela roda e o povo rezando… Conforme ele caiu, ele já começou a ter a crise… Catarina sentiu que o Pablo foi escorrendo para o chão e se deitou… Na cabeça da Catarina, não fazia sentido, porque ela também não lembrou da epilepsia e, quando ela viu, ele já começou a crise, assim. Aí ela se ligou que era uma crise. Ela desceu para ajudar o Pablo e o terço enroscou num botão do blazer dele, alguma coisa assim, e o terço estourou em cima dele. Conforme esse terço estourou em cima do Pablo, que estava se debatendo ali no chão, as pessoas começaram a rezar ainda mais e mais alto… [risos]

Porque as pessoas não achavam que ele estava tendo uma crise epilética, que ele estava possuído por um demônio e a Catarina gritava: “Ajuda, ajuda, ajuda”. Ela não podia levantar porque ela estava segurando a cabeça do Pablo de lado, pra ele não bater a cabeça, enfim, né? E de olho ali pra ver, sei lá, se ele não ia engasgar com alguma coisa, engolir a língua… E ela não podia largar ele e ela só ficava falando: “Ajuda, ajuda” e, conforme ela ia falando “ajuda”, alguns saíram da roda com medo e ela via uma tia dela, que a gente pode chamar de “Gorete”, falando: “Não quebra o círculo, não quebra o círculo”, [risos] pra ninguém sair da roda. Mas teve gente ali que ficou com medo do demônio. E as pessoas foram fazendo um círculo menor em volta deles… — O que ele precisava? De ar, né? — Ele não voltava dessa crise, porque ele estava sufocado ali no meio… 

E agora ela não gritava mais “ajuda”, ela gritava: “Afasta, afasta, afasta”, até que ela foi segurando ele e a crise passou… Ele meio grogue ainda, deitado ali, e as pessoas rezando… Catarina não sabe em que momento da reza ela sentiu um molhado… Jogaram água benta no chão. [risos] E aí, quando passou tudo, estavam os dois ali molhados, ele muito ainda assim, né? Voltando, enfim… E aí volta com dor no corpo, enfim, né? Péssimo… Ele voltou ali e aí ele se ligou que ele teve a crise ali no meio e que todo mundo tinha orado e as pessoas felizes porque tinha dado certo de tirar o demônio do corpo do Pablo. [risos] E agora estava todo mundo feliz, comemorando, né? Que na noite de Natal um demônio foi expulso ali e o Pablo voltou meio mal e a Catarina falou: “Não, eu vou chamar um táxi e a gente vai embora, né?”, mesmo porque as luzinhas continuavam ali, ele não conseguia nem falar, nem avisar que eram os pisca—pisca, né? Que tinham iniciado aquela crise. 

E aí a Catarina chamou um táxi, ele acabou deixando os presentes lá na casa da Dona Dorotéia e eles foram embora… Aquela noite ela cuidou do Pablo ali e, no dia seguinte, eles voltaram na casa dos pais da Catarina para almoçar e ele se desculpou. — Eu acho assim, né? Não precisava nem se desculpar, né? — E precisou explicar o que era uma crise, que ele teve de epilepsia e tal… Uma parte da família, porque muita gente dormiu lá e ficou para o almoço, acreditou e outra parte achou que era demônio. E o presente do Pablo para a Catarina era um anel de compromisso… Eles depois de um tempo noivaram e casaram. E parte da família da Catarina, [risos] no casamento deles, porque eles resolveram casar também na época de Natal, fazer aniversário de começo de namoro firme e tal, estava receoso de ver ele no altar, com medo que ele ainda tivesse o demônio com ele, [risos] dele ter alguma crise no altar. 

E ele ficou com medo de ter uma crise epilética no altar e a galera fala: “Alá, o demônio voltou, né?”. [risos] Parte da família da Catarina até hoje nas festas, eles só se encontram nos natais, né? Ainda tem receio dele. — O Pablo e a Catarina eles disseram que isso já ajudou eles numa partilha que teve lá de bens, enfim, um rolo que deu e a Catarina falou: “Tudo bem, eu posso pedir para o Pablo vir aqui falar” e era com pessoas da família que achavam que ele tinha um demônio. [risos] Porque o Pablo tem o cabelo preto, é muito branco… Então, assim, ele tem meio que um shape demoníaco. [risos] Ele que está falando, tá, gente? Não sou eu. E aí resolveu lá a pendência familiar financeira, porque todo mundo tem receio dos demônios aí do Pablo. [risos] E o que desencadeou a crise dele foi o pisca—pisca, tanto que depois, a família sabendo, todo mundo sabendo, nunca mais teve pisca—pisca… 

Dona Dorotéia agora põe um monte de coisa prateada, dourada, com vermelho cintilante, porque luzinhas eles não usam mais. Então, eles estão casados até hoje, enfim, a vida está ótima aí. [risos] Mas parte da família da Catarina segue achando que Pablo tem aí alguns demônios junto com ele. [risos] O que vocês acham?

[trilha]

Assinante 1: Oi, nãoinviabilizers, tudo bem? Meu nome é Lireda, eu falo de Fortaleza, Ceará. Gente, eu cresci numa família católica que faz isso no Natal, que a gente reza e é aquela coisa, então eu imagino muito isso acontecendo e a minha família literalmente rezando uma pessoa e mandando sair de perto, coitado do Pablo, gente… [risos] Eu ri demais. Achei muito engraçado, mostrou muito a realidade de uma família católica no Natal. E é isso, ainda bem que tudo ficou bem no final. Um beijo pra todo mundo. 

Assinante 2: Oi, nãoinviabilizers, isso aqui é a Bruna de São Paulo. Assim como o Pablo, eu tenho epilepsia desde os 9 meses de idade, hoje eu tenho 34 anos, sou mãe, trabalho, tenho uma vida completamente normal. Assim como o Pablo, eu também sinto quando eu vou ter a crise, então eu sempre aviso minha sogra ou meu marido ou alguém que esteja próximo a mim que possa me ajudar, né? Penso que, neste caso, foi um livramento, né? Foi um livramento que essas pessoas ignorantes que não acreditam, que acham que ele tem algo de errado, que ele está com demônio, que vão ser felizes dentro da sua ignorância, longe dele, que não atrapalhem a felicidade do Pablo e de sua família. Então, boas festas a todos. Um beijo. 

[trilha]

Déia Freitas: Comentem lá no nosso grupo do Telegram. Sejam gentis aí com Pablo e Catarina. Um beijo e eu volto em breve

[vinheta] Quer a sua história contada aqui? Escreva para naoinviabilize@gmai.com. Mico Meu é um quadro do canal Não Inviabilize. [vinheta]