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título: tímido
data de publicação: 03/02/2025
quadro: picolé de limão
hashtag: #timido
personagens: valdir

TRANSCRIÇÃO

[vinheta] Picolé de Limão, o refresco ácido do seu dia. [vinheta]

Déia Freitas: Oi, gente… Cheguei. Cheguei para mais um Picolé de Limão. E hoje eu vou contar para vocês a história do Valdir. Então vamos lá, vamos de história.

[trilha]

O Valdir sempre foi um moço muito tímido e, quando ele estava ali na adolescência, ele se percebeu gay. Até tentou sair com algumas moças, mas não rolou. E era uma tortura para ele, como muito tímido, ele tinha até vergonha de ser gay. Até chegar ali aos seus 24 anos, o Valdir não tinha saído com ninguém. E aí, quando ele estava com 24 anos, que ele estava na faculdade — o pessoal tem outra cabeça, mais aberto —, um cara lá percebeu que ele era gay e foi a primeira vez que ele saiu com rapaz e foi ótimo. E aí ele conseguiu se soltar mais, enfim, achou ali uma galera boa e ficou com alguns rapazes da faculdade e iniciou ali, como ele diz, a vida dele de gay. [risos] O tempo passou, mas a timidez sempre perseguiu o Valdir… E o que o Valdir queria? O Valdir queria achar um cara bacana pra ter um relacionamento sério, pra casar, gente… Casar, de repente adotar uma criança.

E aí o tempo foi passando, ele foi… O Valdir também, muito assim, objetivo nas coisas dele, foi guardando um dinheiro, conseguiu dar entrada num apartamentinho — do Minha Casa, Minha Vida, um apartamentinho muito bom — e foi tendo as coisinhas dele, conseguiu comprar uma moto… Então ele já tinha ali o apartamentinho dele que ele conseguia pagar e a moto, já estava formado na faculdade, já tinha alguns anos e tal e agora só faltava um amor. E um dia, ele fez um curso e nesse curso tinha um chat do curso onde as pessoas conversavam e o rapaz começou ali a puxar assunto com o Valdir. Eles começaram a conversar, esse rapaz disse que estava passando por um período difícil de saúde, que ele estava se recuperando de uma leucemia que ele teve, que estava com muito medo de ter uma recaída, enfim… E eles ficaram inicialmente muito amigos, mas um sentimento foi nascendo ali, né?

E eles tinham feito esse curso juntos, foi ali que o rapaz viu o Valdir, mas o Valdir não tinha reparado muito nele. Não porque ele não fosse interessante, porque Valdir era muito tímido real e não ficava, assim, paquerando, enfim, olhando a galera. E aí eles saíram algumas vezes e esse rapaz, assim, mais fragilizado, o cabelo dele estava crescendo agora que ele tinha feito quimio, nã nã nã, enfim, aquele processo. E esse rapaz também estava com uma questão que como ele gastava ainda muito com remédios, ele estava com dificuldade para pagar o aluguel. Depois de uns quatro meses que eles estavam saindo e o rapaz muito chateado por conta dessa questão do aluguel, o Valdir convidou ele pra morar junto. — E aí, aqui, Valdir, você acabou de conhecer o rapaz… — E o rapaz ficou todo animado, mesmo com aquela saúde frágil, ele falou: “Não, eu vou. Se voltar minha leucemia, eu quero morrer nos seus braços”, aquela coisa… Ao mesmo tempo que ele gostava muito desse rapaz, ele ficava com essa angústia, “por que e se ele adoecer? É lógico que eu não vou largar ele, nada, mas eu vou perder o amor da minha vida”, porque ele achou que ali era o cara para casar. 

E aí o Valdir botou esse rapaz dentro de casa, ele não podia trabalhar porque ele estava se recuperando, né? Não recebia nada porque, enfim, não tinha carteira assinada, não pagava INSS, enfim, não tinha renda. — Então ele botou um rapaz que tava terminando um tratamento de saúde muito sério, sem renda, dentro de casa. — De início foi ótimo, mas aí as contas começam a pesar, né, gente? Mas o Valdir falou: “Não, Andréia, eu estava disposto, sabe? O cara estava se recuperando… Nem que demorasse um ano ali para ele, sabe? Voltar de novo a poder trabalhar, eu ia aguentar”. Depois de uns quatro meses morando juntos, esse rapaz chegou do médico e estava muito abatido, estava magro, e aí ele começou a chorar e falou que tinha voltado… O câncer dele tinha voltado e ele tinha agora que fazer uma quimio mais agressiva e que ele não queria que o Valdir visse ele daquele jeito e que ele queria voltar para o estado onde morava a mãe dele, só que ele ia precisar ter um dinheiro, né? Enfim, para se tratar, né? Mesmo que seja tudo pelo SUS, viva o SUS, tem todo o entorno, né? Então você precisa de uma alimentação diferente, enfim… 

O Valdir não tinha dinheiro em caixa, assim, não tinha um dinheiro para emprestar para ele, ele ficou pensando o que ele podia fazer, e aí o rapaz sugeriu que, como ele trabalhava perto, será que ele não podia vender a moto e emprestar aquele dinheiro para ele da moto? Valdir na hora “como que alguém faz um pedido desse?”, mas o cara estava morrendo, é claro que ele ia pedir, né? Sei lá, pra tentar ter um tratamento melhor, né, gente? E aí o Valdir ficou naquelas e falou: “Poxa… Eu estou com a saúde aqui em dia, tá bom, vou vender essa moto, vou dar o dinheiro para ele” e, até então, eram os dois ali, porque como eu disse, o Valdir muito tímido, o Valdir não abria as coisas da vida dele pra ninguém, né? E aí o Valdir foi lá, vendeu a moto e deu o dinheiro para ele. Era uma moto muito boa, então digamos que vai, sei lá, foi dez, doze mil a moto, sei lá, X. Ele pegou esse dinheiro e deu para o rapaz e o rapaz falou: “Vai dar pelo menos para uns meses, muito obrigada… Eu vou te devolver assim que eu trabalhar”. — Mas o Valdir já estava dando aquele dinheiro como perdido, gente, porque e se o rapaz piorasse, né? —

Era uma dívida ali que, sei lá, né? O cara tinha doença pra tratar, né? E se não desse certo? Então ele já deu aquele dinheiro pensando no amor mesmo e pensando: “Bom, eu vou te visitar, eu vou pegar férias, eu vou cuidar de você. Por que você não fica aqui?”, o cara não queria ficar porque ele queria… Ele falou: “Se eu for morrer, eu quero morrer junto da minha mãe” e é uma coisa compreensível, né, gente? E o cara foi pra casa da mãe e continuou ali conversando com ele. E aí naquela semana, Valdir começou a ir trabalhar a pé e viu que era um pouco meio longe, começou a pegar ônibus e aí ele pegava ônibus com uma moça agora que a gente vai chamar de “Gorete”. Gorete trabalhava com ele e Gorete pegava ônibus todo dia, mas nunca viu o Valdir no ônibus, né? E aí falou: “Ah, Valdir, o que aconteceu com sua moto? Roubaram? O que aconteceu? Você está de ônibus agora?”. E aí o Valdir começou a chorar porque ele já estava… Sabe quando você está com aquela coisa presa na garganta e você queria desabafar com alguém?

E aí foi desabafar com a Gorete, a Gorete ficou ouvindo, ouvindo, ouvindo e Gorete falou assim para ele: “Olha, Valdir, sei lá, de repente você pode achar que eu sou uma pessoa sem coração, uma pessoa ruim, mas eu não estou acreditando nessa história, não”. Aí o Valdir olhou pra ela, assim, até meio revoltado, tipo: “Você tá achando que eu estou mentindo para você?”, e aí a Gorete falou: “Não, estou achando que ele está mentindo para você, que esse cara está mentindo pra você, que não tem tratamento nenhum, não. Tá estranho isso aí”. Gorete plantou a sementinha. Valdir falou: “Não, ninguém faria isso… Ninguém faria isso. Imagina, ninguém faria isso”, mas ele ficou com aquela pulga atrás da orelha, passou o dia inteiro e, no dia seguinte, ele começou a pegar outro ônibus para não encontrar a Gorete, mas ele ficou com uma cisma. Resolveu pegar férias, avisou o rapaz que ia encontrar com ele, e aí o rapaz surtou… Falou: “Não, eu estou muito ruim. Não quero que você me veja assim. Eu estou muito ruim, eu estou muito ruim” e o Valdir falou: “Não, eu quero te ver” e ele falou: “Não, eu estou muito, muito, muito ruim” e não dava o endereço de jeito nenhum.

E aí o Valdir falou pra mim assim: “Andréia, um dia eu estava sentado no sofá, com a TV desligada mesmo, pensando na minha vida e eu comecei a pensar e, sei lá, parece que caiu realmente a ficha que eu tinha sido enganado de alguma maneira, mas eu não conseguia acreditar naquilo, né?”. E aí ele resolveu contratar uma detetive — uma moça, inclusive, que faz propaganda aí na internet, ela é detetive — e ela, em menos de uma semana, descobriu tudo: Ele morava com outro rapaz, nunca teve leucemia. Ela achou foto dele até, assim, na escola, assim… Ele sempre foi muito magro, era dele, sabe? Ser muito magro. E ele já tinha um boletim de ocorrência de estelionato, porque ele enganou a própria empresa que ele trabalhou dizendo que ele estava com câncer e tal e acabou pegando até uma grana da empresa. E, quando a empresa começou a pedir comprovantes, sei lá, né, gente? Ele falava que não ia dar porque ele não era registrado, então falava: “Mas vocês estão me exigindo coisas e vocês não me registraram e tal”, e aí descobriram que ele estava mentindo… E o Valdir ficou destruído… 

E ele — aqui eu não entendo muito, Valdir… —, ele não confrontou o cara… O cara continuou mentindo que estava mal, que estava mal, que estava para morrer porque ele queria sumir, né? E um dia não respondeu mais o Valdir, o Valdir perdeu esse dinheiro da moto… Ele falou para mim assim: “Andréia, foi muito difícil eu conseguir me abrir, abrir minha casa, abrir meu coração para uma pessoa e isso já estava tudo muito ruim eu sabendo que ele mentiu para mim e eu tinha medo do que ele ia me falar ou, sei lá, as coisas piorarem mais, sabe? Eu ficar mais machucado. Então, eu já tinha perdido esse dinheiro mesmo e eu resolvi não falar nada” e ele não confrontou, ele não falou nada, ele não fez B.O…. Ele falou: “Eu só me senti o cara mais bobo desse mundo, fiquei muito triste e não fiz nada”. E aí ele foi para terapia para tratar isso e tal, né? Até hoje ele faz terapia pra entender porque… — Eu também sou muito tímida, eu entendo ele… — Quando a gente se abre, a gente se sente vulnerável. Se você é muito tímido, muito fechado, assim, você se sente vulnerável e, de repente, vem essa pessoa para quem você se abriu, que você doou seu coração e te dá uma facada nas costas, sabe? Então foi muito duro para ele, muito duro… Então, até hoje ele trata desse assunto em terapia e trata dessa timidez também, mas ele ainda não conseguiu superar. O que vocês acham? 

[trilha]

Assinante 1: Olá, nãoinviabilizers, sou o Wel, sou daqui interior de São Paulo, Lorena. Comecei a viver minha vida de gay, como ele fala, [risos] também muito tarde, também por questão de timidez e por ter sido criado dentro do catolicismo… E foi muito difícil para mim conseguir viver minhas primeiras experiências e todas as primeiras foram muito traumáticas, eu encontrei um cara que me traía, encontrei o cara que me enganava, encontrei ele aí em diferentes pessoas, diferentes caras que foram passando na minha vida e cada um me apresentou partes desse mundo gay que para mim ainda eram muito desconhecidas. Demorou algum tempo para eu conseguir me organizar sentimentalmente para conseguir achar alguém que tivesse realmente o mesmo, a mesma vontade que eu de viver uma vida legal. E aí você vai perceber que essa pessoa vai aparecer naturalmente no seu caminho e que as coisas vão se ajeitar dentro de você quando você conseguir controlar um pouco mais sua timidez e conseguir se relacionar com pessoas mais legais e ter um leque maior de possibilidades. Até lá, desejo muita sorte e desejo que você encontre logo essa paz no coração. Abraço. 

Assinante 2: Oi, nãoinviabilizers, oi, Valdir, sou Bruno de Belo Horizonte, Minas Gerais. A vida de homossexual pode ser bem complicada desde o início do entendimento sobre a sexualidade até a gente conseguir achar um amor que possa compartilhar a vida. Infelizmente, tem muitas pessoas que são trambiqueiras que querem aproveitar dos outros, principalmente nesse contexto da timidez, de sermos mais fechado. Mas acho que, em todo caso, quando a gente está conhecendo alguém, namorando, que a gente conheça também a família, os amigos, o meio ali pra gente poder entender melhor o contexto, sabe? Quebrar um pouco dessa barreira de timidez, mesmo que seja difícil, que pelo menos complica um pouco a pessoa fazer uma atrocidade dessa… A gente não imagina que esse tipo de coisa pode acontecer, né? Mas você fez o que seu coração mandou diante dessa situação que envolvia a vida de alguém, né? Mas assim, espero que você encontre alguém muito especial e que vai te fazer feliz. Não mude sua essência, você é um cara muito especial, viu? E é isso.

[trilha]

Déia Freitas: Então, essa é a história aí do Valdir. Comentem lá no nosso grupo do Telegram, sejam gentis com o Valdir. Um beijo e eu volto em breve.

[vinheta] Quer a sua história contada aqui? Escreva para naoinviabilize@gmail.com. Picolé de Limão é mais um quadro do canal Não Inviabilize. [vinheta]