título: vala
data de publicação: 03/02/2025
quadro: mico meu
hashtag: #vala
personagens: natalino, seu durval e dona durvalina
TRANSCRIÇÃO
[vinheta] Ops. Mico Meu, haha. [vinheta]Déia Freitas: Oi, gente… Cheguei. Cheguei para um Mico Meu. E hoje eu vou contar para vocês a história do Natalino. — Ê, Natalino… [risos] — Então vamos lá, vamos de história.
[trilha]Essa história ela se passa ali no final dos anos 70. E o Natalino sempre foi muito arrumadinho, ele estava ali com seus 19 anos, já tinha servido o exército e sido dispensado, então agora era hora de procurar um outro emprego, porque antes do exército o Natalino trabalhou — de uma família pobre, então quando dava 13 anos ali todo mundo já ia para o trampo — e Natalino — com seus 19 anos ali — tinha uma entrevista de emprego na cidade. E onde ele morava? Ele morava na zona rural ali, então as casas eram muito espaçadas umas assim das outras e Natalino precisava de uma roupa boa para fazer essa entrevista de emprego, porque, assim, ele ia trabalhar num lugar assim que era da prefeitura… Então era um trabalho de escritório, diferente do que ele já tinha feito. — Quando ele era moleque ele carregava saco de farinha, esse tipo de coisa, então agora era um trabalho, poxa, trabalho gente finíssima. —
Ele já tinha espichado, já estava ali do tamanho do pai dele, o Seu Durval e o Seu Durval falou assim: “Natalino, eu tenho um terno, que é o terno que eu ganhei do meu patrão quando eu me casei com sua mãe…”, — então vamos botar um nome aqui pra mãe também. “Durvalina”, Durval e Durvalina. [risos] Amo — “você pode usar esse terno sem o paletó, você vai a camisa com a calça, com a minha meia, meu sapato, sem a gravata, para ir na sua entrevista de emprego, mas depois você vai com sua roupa, é só mesmo pra entrevista”. O Natalino ficou ali todo feliz: “Meu Deus, eu vou botar o terno do meu pai para eu fazer essa entrevista. Nossa, vai ser muito bom e nã nã nã”… E ele tinha que estar lá no centro da cidade às 07h e Natalino não queria atrasar, então ele tinha ali que sair pelo menos umas 05h30 de casa. Ele ia até um determinado ponto à pé e depois ali tinha tipo umas caminhonetezinhas que você ia atrás, tinha uns banquinhos… — Não era nem um ônibus, gente… — “Eu vou, vou levar essa sacolinha aqui para eu sentar na caminhonete do Seu Francisco ali”, porque era lá atrás mesmo, na carroceria que a galera aí sentada. — Mas ele pôs uns banquinhos assim, né? —
“Eu vou levar a sacolinha para sentar em cima para não sujar o terno do meu pai”. E aí ele pegou duas sacolinhas, que ele achou que uma era pouco, né? E, como disse o Paulo Vieira, o Paulo Vieira tem um esquete muito bom sobre o quanto o pobre gosta de sacola, [risos] é maravilhoso, [risos] dobrou bem assim e falou: “Não vou nem botar no bolso, que é para não estufar o bolso aqui, vou levar na mão, assim”, junto com a carteira dele de trabalho. Lá foi Natalino, cedo, rumo aí onde ele ia pegar aí essa carroceria de caminhonete para chegar no centro da cidadezinha dele ali. E aí, gente, Natalino tinha dois caminhos: Ele tinha um caminho que ele podia ir mais curto e chegar até a caminhonete ou ele podia ir por um caminho um pouco maior, mas que ele passava em frente a uma escola de costura ali de moças… E o que ele queria aproveitar? [risos] Ele tava muito bem arrumado, ele falou: “Pô, eu vou passar lá todo boneco, assim, todo gato, vou fazer uma presença com as moças ali”. Então ele resolveu pegar o outro caminho pra poder passar por essa escola de costura e chegar até lá onde ele tinha que pegar essa condução.
Lá vai o Natalino 05:30, dando 06:00 já e a escola de moças ali começava às 06h, que tinha algumas que faziam o curso antes de ir para o trabalho, enfim, era uma hora de curso, então 06:00, assim, umas 05:45, 05:50 já tinham as moças lá na frente, né? Então era a hora dele passar ali, fazer uma graça e logo depois já tinha ali a caminhonetezinha para ele subir na carroceria. Lá foi ele, bonitão, sapato do pai um pouco folgado, ele botou um jornal ali no bico — um clássico da pobreza — e lá foi ele… Lindo, se achando o máximo… E aí, qual que era a do Natalino? [risos] “Eu estou muito bem arrumado, eu vou assim, olhando para a frente, pisando firme”, quase como ele aprendeu no exército ali, né? E aí lá foi ele… E vai, caminha, caminha, caminha. Um pouco antes de chegar na escola de moças, ele tinha que passar, primeiro que a maioria era terra ali, né? Mas ele tinha que passar num lugar que tinha um matinho um pouco mais alto, ele ficou um pouco preocupado o Natalino, por que e se grudar alguma coisa na calça do pai ali embaixo, né? Mas ele falou: “Não, não, não vai dar certo. Vou passar, passo com cuidado e vou”. E ele passou já treinando como ele ia passar ali perto das moças.
Natalino, andou, andou, andou… De repente, o chão sumiu. No mato ali tinha uma vala… Uma enorme vala. Natalino sentiu… [risos] Ele falou pra mim: [risos] “Andréia, parecia que a minha alma ia sair do meu corpo, porque eu não via chão… Eu fui rolando” e ele foi rolando e caiu lá embaixo dentro da vala. Na hora o Natalino já sentiu a perna dele ali… Quebrada com certeza estava, a dor era imensa, ele quase não conseguia se mexer, quem dirá levantar, né? Aí quando ele se tocou que ele estava dentro da vala, qual foi a primeira coisa que ele pensou? “A roupa do meu pai”. [risos] “Misericórdia… A roupa do meu pai. Meu pai vai me matar. Vai acontecer um assassinato na minha casa. A roupa do meu pai…”. Com toda dor do mundo, ele conseguiu se virar e ele viu que tinha caído ali a carteira de trabalho dele enroladinha… Ele enrolou as duas sacolas na carteira de trabalho e deu um nózinho assim, né? Então caiu aquele pacotinho e ele tentando não rastejar para não sujar a calça, ele conseguiu chegar na carteira de trabalho e ele fez uma coisa que eu não sei, [risos] eu não sei… [risos] Talvez eu faria também… Ele desenrolou a sacolinha e começou a tirar a roupa. [risos] Com muito esforço, ele conseguiu sentar, tirou a camisa, olhou se a camisa não estava rasgada, não estava… — Graças a Deus, só estava suja. Isso Dona Durvalina podia resolver… –
E aí ele foi tirando a calça e uma dor, uma dor… E ele conseguiu tirar a calça, a calça não rasgou e não estava com sangue, só estava suja. Ele respirou fundo, falou: “ai meu Deus, Graças a Deus”, dobrou, colocou a calça, a camisa na sacolinha e lembrou que a meia e o sapato também era do pai. Tirou com muito esforço a meia e do pé esquerdo ele quase não conseguia tirar, porque ele estava com o pé quebrado, mas conseguiu…. Conseguiu tirar o sapato, a meia colocou na outra sacolinha e agora ele estava numa vala [risos] de cueca, com duas sacolas, com a roupa do pai e a carteira de trabalho. Isso era umas quase 06 horas e era uma vala muito funda, sei lá, ele falou… Eu não tenho muita noção de metros, mas ele falou que tinha pelo menos de 4 a 5 metros, a sorte foi que ele rolou, ele não despencou, ele rolou… Era como se fosse, assim, inclinada a parede, assim, da vala. E aí aqui a gente tem o jovem… Eu entendo totalmente o Natalino. Ele podia ter começado a gritar, concorda? “Socorro, socorro, caí na vala”, mas ele estava só de cueca, perto da escola das moças e Natalino ficou com vergonha de gritar. [risos] — Ê, Natalino… —
E ele ficou quietinho ali na vala, assim, na esperança que alguém passasse e visse ele ali na vala. Acontece que onde ele passou e caiu na vala as pessoas não passavam porque sabiam que tinha uma vala. Então, o tempo foi passando, o sol foi subindo, aquilo foi esquentando, a família dele não dava conta, não dava falta dele porque ele tinha ido pra uma entrevista de emprego, então sei lá, até a tarde, se ele aparecesse estava bom, né? De repente, as vezes o chefe contratou já e falou para ele ficar lá o dia, fazer a experiência e foi isso que Dona Durvalina pensou: “Ai, acho que ele conseguiu a vaga”, isso ela lá na casa dela. “Acho que ele conseguiu a vaga, que ele não veio, não veio nem para almoçar, deve ter ficado por lá” e ainda Dona Durvalina se arrependeu de não ter feito um lanche para ele levar, porque não sabia que ele ia ficar, que num tinha uma marmita, nada. Será que iam dar comida para ele? Enfim… E, enquanto isso, Natalino estava lá na vala. Deitado, sem fazer nada, pensando no pai dele, que o pai dele ia ver aquela roupa dele, suja e ia ficar muito bravo… Ainda perguntei para ele, falei: “Natalino, mas seu pai te batia?” e ele falou: “Não, Andréia, era um olhar que ele me dava, um olhar, assim, um misto de decepção com raiva, que me matava. Então era aquele olhar que eu sabia que ele ia me dar”.
O sol foi esquentando e o pé dele foi inchando, e aí uma hora ele acha que pegou no sono, acordou e o sol já estava mais baixo, enfim… O tempo passou até que Natalino se viu ali no começo da noite. Na casa dele, o Seu Durval chegava do trabalho e perguntava para Dona Durvalina cadê o Natalino, ela falou: “Olha, ele não voltou” e Seu Durval achou estranho, falou: “Bom, eu vou lá na caminhonete do Seu Francisco perguntar, né? Que horas que ele foi para lá, a hora que ele deixou ele lá”. E aí foi o Seu Francisco falou: “Olha, não levei o Natalino hoje, não”, “Como não levou o Natalino?”, e aí o Seu Durval voltou para casa para avisar a esposa já bem cabreiro, bem preocupado. E aí ele resolveu chamar uns compadres dele ali para procurar pelo bairro o Natalino. Só que o que ele pensou? “Vou refazer de novo o caminho”, que ele já tinha ido até a caminhonete. “Vou refazer de novo esse caminho, agora olhando… Olhando assim, firme, para ver se eu acho”. E aí foi que foi, que foi? Cadê? Procura, procura, procura… Cadê? Nada.
Vai pra lá, vem pra cá, volta… Nada. Eles se espalharam, né? [risos] De repente, um amigo [risos] do Seu Durval começou a gritar e chamavam ele de “Durva”, “ô, Durva… Durva, vem cá… Tem um mendingo aqui deitado na vala, [risos] mas acho que é o Natalino, [risos] mas tá muito longe lá, vem aqui ver”. E, nisso, o Natalino já tinha dormido, acordado, dormido, acordado, já estava mal, o pé dele já estava muito inchado. E aí o Seu Durval chegou ali e começou a chamar: “Natalino, ô, Natalino”, aí Natalino ouviu a voz do Durval e falou baixinho assim: “Oi, pai”. [risos] Seu Durval falou: “Eu não acredito que você caiu na vala, Natalino”. [risos] E aí o pai teve uma reação que o Natalino não achou que ele fosse ter, o pai e começou a rir, a rir muito… [efeito sonoro de risadas] Os amigos começaram a rir e ele falou: “A hora que eles descerem aqui, me verem ainda de cueca, vai ser uma coisa” e não deu outra… Eles pegaram uma corda, dois desceram para ajudar ali o Natalino e o Natalino preocupado com as sacolas e com a carteira dele de trabalho. [risos] Ele estava só de cueca e ninguém entendia porque ele estava só de cueca, e aí ele falou: “Não, porque eu estava guardando a roupa do meu pai para não estragar”, [risos] tadinho, gente….
Ele foi resgatado, esse resgate correu a cidade toda, tiraram ele dali de cueca, ele teve que ser carregado porque ele estava com o pé bem inchado e foi carregado de cueca ali andando e todo mundo olhando, enfim, porque o pessoal vai saindo das casas, né? Vai ouvindo aquele barulho, tipo, é atípico, né? [risos] E aí ele chegou em casa, a mãe desesperada e tiveram que chamar o Seu Francisco lá para levar ele até a cidade no hospital, no pronto socorro e realmente ele tinha quebrado em cima do pé, assim, e o tornozelo. E aí ficou um tempo de molho, perdeu aquele emprego que ele queria… Depois ele acabou arranjando um emprego no mercadinho, mas aí não era mais emprego no escritório, né? [risos] Ele ficou arrasado. [risos] Ele falou: “Ai, Andréia, tudo porque eu queria fazer uma gracinha aí para as moças e acabei na vala”. [risos] Ainda bem que vivo, né? Ficou aí tudo bem. [risos] E esse é o Mico Meu do Natalino. [risos]
[trilha]Assinante 1: Oi, Déia, oi, nãoinviabilizers, aqui quem fala é Bárbara de Portugal. Meu Deus, como eu ri com essa história… Muito obrigada. Certamente e facilmente seria a história de alguém da minha família, porque primeiro, é todo mundo do interior e essa coisa de só ter uma roupa para fazer as coisas, isso também diz muito, né? Não é só sobre ser do interior ou a simplicidade, ou respeitar os pais, ou temer a mão pesada ali do pai, é também um pouco do retrato da pobreza, do que era antes, de não ter muitas condições de ter tantas coisas assim. Me diverti, obrigada, viu? Por esse respiro na semana, um beijo.
Assinante2: Aqui é a Bia da Inglaterra, falando de Liverpool. Gente, eu amei essa história. [riso] Muita risada sincera, vale, natalino, incrível… Eu faria a mesma coisa, eu acho que eu teria vergonha de gritar dentro do buraco, porque, olha, que humilhação… Mas valeu a história, ri muito, as risadas mais sinceras que eu dei nos meus últimos dias. Valeu, beijão.
[trilha]Déia Freitas: Comentem lá no nosso grupo do Telegram, sejam gentis aí com o Natalino. [risos] Um beijo e eu volto em breve.
[vinheta] Quer a sua história contada aqui? Escreva para naoinviabilize@gmai.com. Mico Meu é um quadro do canal Não Inviabilize. [vinheta]