título: fominha
data de publicação: 26/02/2026
quadro: picolé de limão
hashtag: #fominha
personagens: dona esmeralda, sua filha, evellyn e Fominha
TRANSCRIÇÃO
[vinheta] Picolé de Limão, o refresco ácido do seu dia. [vinheta]Déia Freitas: Oi, gente… Cheguei. Cheguei pra mais um Picolé de Limão. — E hoje eu não tô sozinha, meu publiii… — [efeito sonoro de crianças contentes] Quem tá aqui comigo hoje é a TAG, o maior clube de literatura do Brasil. Na TAG você encontra as melhores histórias em livros. Todo mundo no início do ano tem aquela sensação de novidade, né? De possibilidades, de novos começos, aquela euforia, sabe assim, que dá no peito? Esses sentimentos não precisam existir somente uma vez por ano, eles podem te acompanhar a cada livro com a TAG. A TAG é um clube de assinatura de livros que envia todo mês pra sua casa um livro surpresa delicioso de ler com uma história escolhida a dedo pra te prender do começo ao fim.
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[trilha]Dona Esmeralda trabalhou muito, se aposentou e resolveu montar um negócio próprio. Dona Esmeralda resolveu montar uma loja de doces, uma bomboniere. Ela contratou ali uma moça para ajudar, registrou a moça certinho — a gente vai chamar essa moça de “Evelyn” — e elas começaram ali a cuidar da Bomboniere. Paralelo a isso, a filha de Dona Esmeralda, trabalhava… Dona Esmeralda falou: “Andréia, comigo sempre foi assim… Eram só nós duas, então, assim, quando ela fez ali 18 anos, tem que trabalhar. Pode estudar? Se conseguir, pode, mas tem que trabalhar. Porque eu sozinha não dava conta, de mim só eu dou conta, mas de mim e dela não tinha como, então ela tinha que trabalhar. Então, ela pegou gosto e, assim, nunca deu problema nessa questão de trabalhar”.
Filha de Dona Esmeralda conheceu um rapaz, o rapaz era até simpático, só que ele não trabalhava. — Gente, como é que você vai namorar se você não trabalha? Onde você vai levar seu namorado, sua namorada? E quando eu digo trabalho, gente, é qualquer trabalho. A pessoa não precisa ser rica, ela precisa ter um trabalho. — Dona Esmeralda falou para a filha dela: “Eu não faço gosto nesse seu namoro porque ele não trabalha… E onde que ele mora?”, “Ah, ele divide a casa com mais dois amigos”, só que é aquela coisa, os dois amigos já falaram: “Olha, a gente segura o aluguel aí sem você pagar uns três meses, mas você tem que arrumar um emprego, qualquer emprego, que pelo menos te garanta o aluguel”.
Só que o que aconteceu? Deu os três meses, os amigos colocaram ele para fora. — Então, veja, se você tem amigos que te botam pra fora, já é um ponto de atenção pra sua namorada, né? Por que será que botaram ele pra fora? Você não vai minimamente perguntar? Foi só porque o cara estava desempregado? Acho pouco provável, porque se as pessoas são amigas, enfim… — A bomboniere abria meio—dia para pegar a galera ali que quer um docinho depois do almoço e tal e fechava às sete e meia. — Às vezes 8 da noite… — Ela chegou um dia lá, já à noite, assim, em casa, e a filha estava chorando porque o namorado tinha sido expulso de casa e não tinha onde ficar. Dona Esmeralda calada estava, calada ficou, porque ela entendeu que a filha queria botar o cara lá dentro, mas ela falou: “Não vou falar nada. Aqui não”, mas também, como ela estava chorando muito, Dona Esmeralda não quis falar: “Olha, não traz”, mas ela também ficou calada, não falou “traz”.
No outro dia, quando Dona Esmeralda chegou, quem estava lá de mala e cuia? O cara… E a filha toda feliz, falando que ele não ia dar trabalho, que ele ia ajudar, que ele poderia ajudar na bomboniere. Dona Esmeralda já cortou, falou: “Eu tenho uma funcionária, tenho a Evelyn, não preciso de outro funcionário. Não tenho como registrar, não tenho como pagar, não preciso de um funcionário” e ele: “Não, Dona Esmeralda, eu posso ir de graça” e ela falou: “Não, isso não existe, não quero”. E como ele já estava lá dentro, Dona Esmeralda também deu um prazo, falou: “Ó, você tem três meses para arrumar um lugar para você ficar. Aqui você não pode ficar, sou só eu e minha filha e eu vou abrir essa exceção porque ela pediu muito agora aqui na sua frente” e anotou o dia na folhinha da cozinha. — O dia que ele teria que sair da casa. —
Dona Esmeralda tinha a Evelyn então ela revezava, às vezes ela estava em casa, ela tinha um grupo de amigas, elas iam fazer algum voluntariado e a Bomboniere estava lá, com a Evelyn cuidando. Um dia ela saiu com as amigas e foi fazer esses trabalhos comunitários que ela fazia na cidade e ela gostava muito. Quando ela voltou para a bomboniere, era já umas seis da tarde, assim… A Evelyn estava com o caderno na mão e falou: “Ó… Olha aqui. Anotei tudo” e aí Dona Esmeralda falou: “Anotou o quê?”, “seu genro veio aqui, comeu cinco sorvetes, pegou dois potes de açaí, quatro chocolates e uma barra de cocada”, “Meu Deus, ele levou tudo isso?”, “não, ele comeu tudo aqui na hora, você pode olhar nas câmeras. Eu anotei, falei para ele se ele tinha a ordem da senhora, ele disse que tinha. Como eu não consegui falar com a senhora, eu não podia proibir seu genro e ele comeu todas as coisas. [risos] Pode olhar na câmera, foram as coisas que ele pegou”.
Dona Esmeralda tinha acabado de botar açaí para vender lá, sabe? Para dar um pouco mais de renda e tal e o cara, mano, comeu várias coisas. [risos] Faziam três dias que ele estava na casa da Dona Esmeralda e ele foi lá no estabelecimento dela e comeu várias coisas. Quando ela chegou em casa, ela foi conversar com a filha e a filha falou: “Ai, mãe, credo, que mesquinha, ele estava com vontade de comer um docinho e eu falei para ele ir lá, que ele podia pegar”, “desde quando aquele negócio é seu? Desde quando aquilo lá é seu?” e a filha dela olhou para ela e falou: “ué, o que é seu não é meu? Quando você morrer não vai ficar tudo para mim?”. — Gente, ela falou isso… —
Dona Esmeralda ficou em choque e falou: “Bom, eu não vou discutir mais”, porque o cara estava tomando banho. E aí ela foi jantar, ela viu que tinha um pingo de arroz, um pingo de arroz… O cara tinha comido todo o arroz também, todo o frango. E aí a filha falou: “Pode deixar que eu vou pagar as coisas que ele tá comendo”, sabe assim? E a Dona Esmeralda falou: “Andréia, eu fiquei ali numa situação… Porque, assim, a Evelyn é meio fofoqueira e eu não queria falar para a Evelyn que o cara não estava trabalhando, que ele não era bem—vindo, porque ela ia espalhar na cidade e minha filha… Ia ficar complicada pra minha filha, eu não queria botar minha filha nessa situação e, ao mesmo tempo, eu não queria que ele fosse lá na bomboniere comer as coisas, mas como que eu ia fazer isso?”.
No dia seguinte o cara não foi, mas ele já tinha feito a filha fazer um bolo, brigadeiro e ela saía para trabalhar e ele não saía para procurar emprego… Ele ficava lá, a filha via, deixava café para ele, bolinho para ele. separava a série da Netflix para ele assistir de tarde. [risos] E o cara começou toda tarde a ir lá no estabelecimento da Dona Esmeralda, quando ela não estava — acho que ele até ficava de tocaia — e aí ele comia todas as coisas. [risos] E a Evelyn ia anotando, porque ela falou “se não vai sobrar para mim” e ele comia muito, pegava muita coisa ali para comer. E comia também todas as coisas em casa… Até que deu um mês, Dona Esmeralda não aguentou mais e falou: “Evelyn, a próxima vez que ele vier aqui, olha o prejuízo que ele já deu. Você vai falar pra ele que eu não autorizo mais ele pegar nada aqui. Você pode falar, Evelyn, para ele que ele não está mais autorizado a pegar nada aqui”.
Passados uns dias, o cara voltou lá, Dona Esmeralda não estava, eu acho que realmente ele ficava de tocaia para ver que horas ela ia sair e a Evelyn falou: “A Dona Esmeralda falou que você não está mais autorizado a pegar nada aqui” e o cara, desaforado, falou: “O quê? Quem é você? Você é só uma funcionária”, olha isso, gente… “Você é só uma funcionária, eu sou marido da filha da dona e eu vou pegar o que eu quiser aqui” e ele pegou… Por que a Evelyn ia fazer o quê? Evelyn falou pra Dona Esmeralda: “Ó, Dona Esmeralda, ele veio, ele falou isso pra mim, que eu sou apenas uma funcionária e que ele ia pegar o que ele quisesse e eu anotei aqui todas as coisas que ele pegou”. Dona Esmeralda, ficou muito brava, só que ela chegou em casa e eles tinham saído — ainda passeavam, isso tudo com o dinheiro da filha —, pergunta se a filha repôs qualquer coisa que ele comeu em casa? Não.
E aí ela muito brava, no dia seguinte ela foi, tinha coisas para fazer de manhã, saiu cedo e tal e ela falou: “Eu vou armar uma emboscada para ele, eu vou sair da bomboniere e, se ele aparecer aqui, Evelyn, você me manda a mensagem que eu venho na hora”. Um dia ela saiu, ele não foi… No segundo dia, no terceiro dia, o cara apareceu lá já querendo comer todas as coisas. E aí a Evelyn, discretamente, mandou uma mensagem e Dona Esmeralda, que estava na casa da colega dela na esquina, voltou correndo e falou: “O que você está fazendo aqui? Eu já dei ordem para você não pegar nada aqui” e já, assim, gritando com ele. E aí ele foi retrucar e ela falou: “Ó, e tem mais, se você entrar aqui de novo, eu vou pedir para a Evelyn chamar a polícia para você. E mais, eu quero você fora da minha casa. Você tem hoje para arrumar suas coisas e sair da minha casa” e o cara ficou muito bravo, foi embora e já obviamente ligou pra filha de Dona Esmeralda.
E aí a filha ligou pra Dona Esmeralda e falou: “Você humilhou meu marido na frente da Evelyn. A Evelyn vai contar pra todo mundo” e obviamente contou. [risos] “Você humilhou o meu marido”, “Que marido? Você conhece esse homem desempregado há dois meses. Que marido? Como é que vocês vão viver? Vocês estão vivendo nas minhas custas”, “Eu estou saindo de casa com ele, vou alugar um lugar para gente e nã nã nã” e foi um quebra—pau… E o cara saiu naquele dia, deve ter ido para a casa de algum amigo, porque a Dona Esmeralda falou: “Na minha casa você não fica mais”. No final de semana, a filha da dona Esmeralda pegou todas as coisas dela, desmontou o quarto, levou o quarto e a Dona Esmeralda não sabia para onde, porque ela não quis deixar o endereço. Foi morar com o cara…
Passou um mês, ela não falou com a Dona Esmeralda, a Dona Esmeralda já mal… Só que temos Evelyn, a fofoqueira. Evelyn descobriu [risos] onde a filha da Dona Esmeralda estava morando e era tipo um quarto com banheiro, assim, um lugar que eles chamaram de “cortiço”. — E que era assim, quarto e banheiro, quarto e banheiro, quarto e banheiro… E, assim, situação precária. — A Evelyn deu o endereço, mas a dona Esmeralda falou: “Eu não vou atrás, deixa ela bater a cabeça um pouco, né? Porque ela não quis ir lá com o cara desempregado? Bom, passou um mês, dois… No terceiro mês, a filha mandou mensagem: “Oi mãe, tudo bem?”, mansa, mansa, mansa, mansa… E ela estava mandando mensagem porque ela queria dois mil reais emprestado. O que que acontecia? Este cara comia demais e lá onde ela estava, ela não pagava água e luz, só pagava o aluguel… Mas o salário dela não estava vencendo para pagar o tanto de comida que esse cara comia e a Dona Esmeralda falou: “Andréia, ele era tão magrinho que até envergava. Magrinho de ruim. Não engordava e comia, sei lá, que nem uma draga”.
E aí a Dona Esmeralda deu, né? Porque emprestou… Ela deu o dinheiro para a filha e falou: “Só que essa é a primeira e a última vez que eu estou te dando dinheiro. Você tem o seu quarto, seu quarto está aqui. Se você quiser voltar para casa sem ele, você pode voltar”. E aí ela ficou quieta, né? Obviamente a resposta já era não, né? Que ela ia continuar com ele. Só que aqueles dois mil durou mais um mês e meio e aí ela voltou… E terminou com o cara, porque quando ela não tinha mais grana para sustentar ele, e sustentar assim, ele comia muito, mas muito mesmo, peças de carne… E não comia coisa barata, não, queria só do caro, só do bom. E gostava também de comer um docinho, muita sobremesa e, quando ela já não estava dando conta, ele arrumou um emprego para ela à noite, ela falou: “Como assim você arrumou um emprego para mim e não arrumou um emprego para você?”.
Aí foi caindo a ficha dela e ela voltou para casa com o rabinho entre as pernas. Dona Esmeralda tem muita mágoa do que ela falou, que ela ia morrer, ia deixar tudo para a filha. A casa que elas moram é alugada, então Dona Esmeralda ficou pensando nisso: “Minha aposentadoria não vai ficar, a bomboniere está num imóvel alugado, a gente mora numa casa alugada… Que herança ela acha que eu vou deixar para ela?”, mas mesmo sem ter herança ou ela imaginando que tem uma herança você não fala isso pra sua mãe, “você vai morrer, vai ficar tudo pra mim”, ainda mais quando você tá com um pilantra. E a Dona Esmeralda ficou tão sentida, que olha o que ela fez, na cidade dela estavam saindo várias casinhas ali e muita gente comprou casinhas para investir, para alugar, né? E a casa dela era grande ali, alugada, grande e tal e aí a Dona Esmeralda convenceu a filha de que ela ia devolver a casa e as duas, cada uma ia alugar uma casinha uma do lado da outra, aluguel…
Porque aí Dona Esmeralda ia morar sozinha, Dona Esmeralda falou: “Eu te dou uma força, ajudo você ali a mobiliar com as coisinhas, você vai fazendo aos poucos, porque aí você tem o seu espaço e eu tenho o meu”. Dona Esmeralda tinha uma previdência privada, ela resgatou, ela falou: “Andréia, eu não vou deixar nada para minha filha. Nada… A Bomboniere eu compro semanal as coisas e aí vai acabando, eu vou repondo. Se eu morrer, eu tenho um valorzinho já no banco, que vai para a rescisão da Evelyn. É isso se eu morrer agora. Ou eu posso, daqui a um tempo não ter a bomboniere. A minha aposentadoria, agora que eu estou em uma casa bem menor, paga o meu aluguel, a minha comida, o meu plano de saúde” e a filha paga o aluguel dela, as coisas… Ela separou as coisas. E a filha acha que foi porque a mãe quis dar para ela uma individualidade, mesmo assim, elas estão lado a lado, né? Mas não…
Dona Esmeralda tem essa mágoa de quando a filha falou para ela “você vai morrer, vai ficar tudo para mim”, então ela falou: “Agora estão separadas as coisas, até os móveis a gente dividiu. Então, se eu morrer, ela tem meia dúzia de móveis e mais nada. Não vou fazer seguro de vida, resgatei minha previdência privada, estou fazendo coisas para mim. E é isso, não vou deixar nada para ela”. E o Fominha, hein? [risos] Evelyn espalhou uma fofoca lá e começaram a chamar ele de “Fominha”. [risos] O que vocês acham?
[trilha]Assinante 1: Oi, nãoinviabilizers, aqui quem fala é a Gabriela, moro aqui na Holanda. Eu tô muito indignada, mas o que mais me choca é a Dona Esmeralda… Eu não consigo entender as pessoas que não conversam abertamente o que magoou elas. É tão importante ter uma comunicação clara… Eu acho super justo o que você fez pra sua filha não receber nada, mas eu acho mais justo ainda que ela saiba que ela não vai receber nada, que ela entenda o quanto ela te magoou com aquela fala, que você se expresse e converse muito claramente o quão horrível foi ela falar daquela forma sobre a sua morte, enfim…
Assinante 2: Oi, eu sou a Victorine, do Rio de Janeiro. E essa história me fez ficar pensando, num certo momento da nossa vida, que a gente vira a chave e a gente percebe que a nossa mãe ela não é só a nossa mãe… Ela é um ser humano no mundo com suas próprias questões, com seus erros, com seus desejos… E ela não é apenas a nossa mãe que a gente vê como uma espécie de fonte interminável de provimento das coisas, sabe? Parece que a filha da Dona Esmeralda não percebeu isso ainda, ela está praticamente coisificando a mãe dela, ignorando que a mãe dela tem uma sensibilidade, é um ser humano. Imagina a Dona Esmeralda ali com toda dificuldade de criar uma filha, de ser uma mulher solteira e, aí, do nada, ouvir da filha: “ah, mas quando você morrer eu não vou ficar com tudo que é seu?”, então assim, estou passada… A filha da Dona Esmeralda não tem sensibilidade alguma. Eu espero que ela consiga acordar a tempo e perceba a mãe dela como um ser humano.
[trilha]Déia Freitas: Na TAG o livro sai do pedestal e te acompanha por onde você for… — seja no café, no transporte, na praça ou em qualquer outro lugar. — Viva o agora, uma página por vez. — Bora ler mais com a TAG? — Faça sua assinatura na TAG agora e use o nosso cupom de desconto exclusivo, o cupom é: “PICOLEDELIMAO” — tudo junto, maiúsculo, sem acento —, com o cupom você ganha R$120 de desconto no plano anual da assinatura. Um beijo, gente, e eu volto em breve.
[vinheta] Quer a sua história contada aqui? Escreva para naoinviabilize@gmail.com. Picolé de Limão é mais um quadro do canal Não Inviabilize. [vinheta]

